"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Da solidão de Tsai Ming-liang ao mundo feminino da argentina Sol Berruezo

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Dias
Neste novo filme, o chamado slow cinema do malaio Tsai Ming-Liang atinge outro patamar de lentidão. Em 2013, após realizar Cães Errantes, o cineasta disse que iria se aposentar, mas a verdade é que ele não parou desde então, realizando curtas e projetos em realidade virtual. O novo trabalho, que foi exibido em competição no Festival de Berlim, está em total sintonia com o que ele produziu até então. E, se este poderia ser considerado até um filme “menor” em sua filmografia, não é menos contundente em seu retrato da solidão.
Na cena inicial, o protagonista interpretado por Lee Kang-sheng observa o vazio. É um momento em que o filme já impõe seu ritmo narrativo e sua ausência de diálogos (letreiros antes da sessão avisam que não há legendas), o que transforma Dias numa experiência ainda mais sensorial. Depois disso, a personagem busca alternativas para aliviar sua dor no pescoço.
 
Num outro polo do filme, em Bangcoc, um rapaz (Anong Houngheuangsy), prepara uma refeição. Mais tarde, esses dois personagens se encontrarão num quarto de hotel, onde o jovem fará uma massagem erótica no outro homem. É um momento delicado e também uma metáfora pela busca de conexões carnais – românticas, sexuais, ou de qualquer outra natureza – com as pessoas. Tsai, que também assina o roteiro, injeta uma alta dose de cenas documentais nas ruas e não está muito interessado em explicações. Nunca fica claro como esses dois se encontraram, por exemplo.
Para uns, um deleite cinematográfico, para outros, um teste de paciência. O cinema de Tsai sempre despertou reações nesses extremos, e aqui não seria diferente. É o tipo de filme que dilata o tempo e incorpora essa estratégia em sua narrativa. A trama, se é que assim pode ser chamada, deve levar dias, conforme diz o título, mas a repercussão dos acontecimentos na vida desses dois homens pode ser eterna. Um pequeno encontro e uma marca duradoura. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.
 
Diretora argentina cria delicado universo feminino em “Mamãe, Mamãe, Mamãe”

Estreando na direção de longas aos 24 anos, a argentina Sol Berruezo Pichon-Rivière traz em seu Mamãe, Mamãe, Mamãe uma história altamente feminina sobre um grupo de garotas e a perda da inocência diante da morte de uma delas, afogada numa piscina. A diretora, que também assina o roteiro, conta que essa foi sua primeira incursão como cineasta. “É meu primeiro longa-metragem. Eu tinha feito muito pouco com equipamentos, geralmente, meu trabalho sempre foi filmado, editado e dirigido por mim. Foi uma experiência incrível ter todas aquelas mulheres à disposição da minha história. A equipe foi apenas de mulheres, em funções técnicas e artísticas.”
O longa é protagonizado por quatro primas que reagem, cada uma ao seu modo, à morte. Pichon-Rivière explica que suas três irmãs menores, e suas maneiras de encarar o mundo, serviram-lhe de inspiração. “Desde que comecei a estudar cinema, elas sempre foram meus modelos, sempre as retratei. A ideia do filme surgiu em um verão e comecei a escrevê-lo como um monólogo, um monólogo interno de uma das personagens durante esses dias de tragédia. Então eu fiz o roteiro.”
 
O filme traz uma clara relação com outras obras sobre jovens garotas descobrindo a melancolia do mundo dos adultos, como Virgens suicidas, de Sofia Coppola, que a diretora cita como uma das inspirações “pela forma como retrata o vínculo entre as irmãs, a estética, o sonho”. Outra das principais inspirações é Inocência, de Lucile Hadzihalilovic : “O trabalho que a diretora faz entre a infância, a escuridão e o fantástico realmente me parece um achado e uma arte pura”. Outras referências: Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven, Verão de 1993, de Carla Simón, e O Pântano, de Lucrécia Martel. Todos filmes dirigido por mulheres.
 
Uma das coisas que mais se destacam em Mamãe, mamãe, mamãe é a fotografia assinada pela argentina Rebeca Siqueira, que traduz em algo com um quê de etéreo a melancolia e o conflito interno das quatro meninas naquele momento. “Ela tem magia para trabalhar com filme, com negativo, por isso a ideia sempre foi incluir fragmentos em 16mm. A nossa amizade ajudou-nos, aos poucos, a pensar e a aproximar-nos cada vez mais do ambiente que pretendíamos atingir com a imagem, com as cores, com as texturas. Foi um trabalho de meses, de troca de referências, conversas.”
Já o trabalho com as jovens atrizes, todas estreantes, pautou-se pela espontaneidade. “Na seleção do elenco, já ficou claro a personagem que cada uma deveria interpretar. . Foi quase mágico. Tivemos poucos ensaios, a ideia principal era que fosse gerado um bom relacionamento entre eles, o que aconteceu, e isso fortaleceu muito a performance.” (Alysson Oliveira)
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Beto Brant investiga o uso medicinal de cannabis no Uruguai em documentário
 
Em La Planta, Beto Brant viaja ao Uruguai para investigar o uso medicinal de cannabis no país, e conclui que “o país é um exemplo pioneiro na América Latina, e não é só em relação a esse assunto. Isso é indicativo de uma sociedade desenvolvida. O Uruguai é pioneiro também em diversas conquistas de direitos sociais.”
Tudo começou quando recebeu um convite de Yael Steiner para filmar um longa aqui e no Uruguai sobre o assunto. “Como estava num momento de vida muito conectado com a terra, tocando a roça de um sítio, propus a ela de buscar o tema com abordagem específica na planta, suas necessidades no cultivo e suas propriedades medicinais. Então fomos ao Uruguai com uma pequena equipe para iniciar a pesquisa e tudo aconteceu de maneira tão fluida que acabamos rodando integralmente esse documentário.”
 
Com pouco mais de 50 minutos, o filme concentra-se exclusivamente no uso medicinal da cannabis, sem explorar o recreativo. A opção foi clara para o diretor, pois a discussão sobre o tema muda a todo momento e “é instável e tornaria o filme datado, uma reportagem situada em um momento específico. Optamos por buscar relatos de pacientes, produtores artesanais, químicos e médicos prescritores. São esses relatos testemunhais, com grande carga emotiva, que tecem a narrativa do filme.”
Com auxílio de Steiner, que tem cidadania brasileira e uruguaia, o diretor conseguiu contatos no país vizinho e, conforme começava as pesquisas, novas conexões foram aparecendo. “Uma das mais importantes foi o músico Augusto Batista, que vive em São Paulo. Ele nos apresentou alguns entrevistados em sua cidade, Colonia del Sacramento, em especial seu pai, bombeiro aposentado que se tratou com a cannabis por sugestão do filho. Hoje, ele faz seu próprio azeite medicinal com as plantas que cultiva com a mulher no quintal de casa. Praticamente uma utopia para nós, brasileiros.”
O filme mostra como esses pequenos produtores são a saída, uma vez que muitos empecilhos burocráticos impedem a produção em larga escala, assim como os escassos investimentos na pesquisa científica sobre a questão. “É uma medicina antiga e popular que se desenvolve dessa forma periférica, dando acesso aos pacientes. Certamente a aceitação legal da produção com controle rigoroso da composição química e da dosagem adequada para cada patologia, através de estudos científicos baseados em evidências e laboratórios tecnicamente bem instalados, seriam as condições ideais para a prática da medicina canabinóide. Mas, enquanto existem tantos preconceitos e dificuldades políticas para sua ideal implantação, os uruguaios seguem por esse caminho artesanal, aliviando as dores de muitos enfermos.” (Alysson Oliveira)
 
Disponível gratuitamente na plataforma SpCine Play até 4/11.
 
Ao entardecer
A Lituânia de 1948, sendo ocupada por tropas soviéticas, é o cenário deste novo filme do veterano diretor Sharunas Bartas, em que ele toma uma família camponesa como microcosmo para retratar aquele momento dramático de seu país. A família é formada por Pliauga (Arvydas Dapsys), o fazendeiro que comanda sua pequena propriedade, ao lado do filho adotivo, Unté (Marius P. E. Martynenko), de 20 anos.
O pequeno clã está no centro da disputa do território com os invasores soviéticos. Pliauga apóia os guerrilheiros nacionalistas que lutam contra os invasores e vivem clandestinos na floresta, abastecendo-se regularmente de mantimentos com o fazendeiro, admirados também por Unté, que ainda não definiu seu rumo na vida. Mas o cerco dos soviéticos está apertando, prestes a liquidar a independência do país.
 
É pelos olhos ainda relativamente inocentes de Unté que se desvendam as complexas relações familiares, marcadas por um rancor antigo da mulher, Elena (Alina Zaliukaite- Ramanauskienne), contra Pliaugas, que ele suporta por uma grande, incomensurável culpa. É Pliaugas, realmente, o personagem mais denso, complexo e cheio de camadas, desdobrando um arco de características humanas que o tornam cada vez mais grandioso, com todas as suas contradições, defendido com garra por este grande ator. 
É notável a segurança com que Bartas alterna o ponto de vista ao longo da narrativa, passando de Unté para Pliaugas, dele para Elena, dela para a empregada Agne (Vita Siauciunaite) e também, num outro momento, para os guerrilheiros da floresta - cujo gradativo enfraquecimento e desespero o filme capta com a mesma complexidade.
Como sempre, o rigor técnico é impecável. Cada quadro do filme é como uma pintura do século 18, num expressivo cuidado com a luz que se derrama sutilmente sobre as pessoas, revelando seus mundos íntimos de uma forma que vai se adensando - um trabalho sofisticado do diretor de fotografia Eitvydas Doskus. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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A saída dos trens
A partir de depoimentos de sobreviventes e fotografias de vítimas, o documentário de Radu Jude e Adrian Cioflanca cria um doloroso memorial do massacre de judeus ocorrido nos últimos dias de junho de 1941, na cidade romena de Iasi. 
Naqueles dias, particularmente no dia 29 de junho, milhares de judeus foram arrancados de suas casas, por soldados e policiais romenos, além de alguns alemães, levados à delegacia local, onde muitos foram mortos a tiros e todos, inclusive mulheres e crianças, foram espancados. Depois, a maioria dos homens foi mandada para o chamado Trem da Morte, em vagões de gado, abarrotados e selados. Quase ninguém chegou vivo ao destino, os campos de extermínio em Podu Iloaci e Tagru Frumos.
O documentário obedece a um modelo muito rígido, alternando as fotos dos mortos e os depoimentos dos sobreviventes - em geral, as viúvas, irmãs, mães ou filhas das vítimas -, em relatos que são quase rigorosamente iguais. Se, por um lado, o recurso denota o rigor da apuração, com nomes, sobrenomes e fotos de documentos das vítimas do massacre, de outro, é também pesado, pela repetição e pelo acúmulo. As fotos finais, dos imensos cortejos de judeus aprisionados sendo levados pelas ruas e das pilhas de corpos empilhadas ao lado do Trem da Morte, são simplesmente de tirar o fôlego. 
Tido como um dos maiores massacres de judeus na Europa naqueles dias, estima-se que em Iasi tenham sido assassinadas cerca de 12.000 pessoas. Poucos foram punidos por isso. Alguns dos depoimentos lembram de seu horror ao assistirem à volta de policiais que participaram destes ataques à cidade no final da II Guerra Mundial. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Chico Ventana También Quiere Tener un Submarino
O longa de estreia do diretor uruguaio Alex Piperno embarca na liberdade da imaginação e num ligeiro clima surreal para criar um relato baseado numa mágica passagem entre diferentes lugares. Nas Filipinas, camponeses descobrem, intrigados, que surgiu uma pequena cabana no alto de uma montanha, que antes não estava ali. A descoberta os enche de um terror supersticioso, já que acreditam que ali acontece um fenômeno sobrenatural. 
 
Enquanto isso, Chico Ventana (Daniel Quiroga), um jovem empregado de um navio turístico que viaja ao longo da Patagônia, descobre em seu interior uma porta que o conduz diretamente a um apartamento em Montevidéu, onde vive sozinha Elsa (Inés Bortagaray). 
 
Modesto em suas aspirações, o filme toca numa nota sutil, criando algumas possibilidades neste deslocamento também para Elsa. Infelizmente, o diretor não contempla do mesmo modo o núcleo filipino, perdendo algumas chances para a história voar mais longe, preferindo ater-se, no caso, às superstições religiosas desencadeadas pela cabana.
De todo modo, Chico Ventana…. oferece um contraponto aos filmes de super-herois, baseando as discretas aventuras de Chico e Elsa em sonhos bem mais cotidianos. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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DAU. Natasha
O longa faz parte de um projeto gigantesco que inclui instalação artística e uma série de outros longas, entre outras coisas. Esse é o primeiro a emergir desse mamute artístico assinado por Ilya Khrzhanovskiy. Tudo começou como uma simples cinebiografia do físico soviético Lev Landau, apelidado Dau, mas tomou proporções maiores quando o diretor alugou um galpão na Ucrânia e recrutou atores e atrizes para viver diariamente ali como se fossem habitantes da URSS – o que fez o experimento ser apelidado de O Show De Truman Soviético.
 
DAU. Natasha é o primeiro exemplar e, a julgar pela proporção de que tomou (15 longas e ainda sem previsão de conclusão), talvez jamais termine. Não que seja necessário assistir a todos para compreender o longa, mas, de qualquer forma, é preciso ter em mente que faz parte de algo maior. Esse é o primeiro da série a ser exibido em cinemas e estreou no Festival de Berlim.
 
Natasha, do título, é interpretada por Natalia Berezhnaya, funcionária de uma cantina de um instituto científico do período stalinista. Atende aos cientistas que por ali passam e, em momentos de folga, fofoca com a colega Olga (Olga Shkabaryna), eventualmente brigando com ela por conta da preguiça desta. Natasha acaba indo para a cama com um cientista francês, Luc (Luc Bigé).
 
A KGB desconfia de que Natasha esteja envolvida com espionagem internacional e ela é levada para um interrogatório com o general Azhippo (Vladimir Azhippo). A sequência bem longa segue exatamente o caminho que se imagina, envolvendo tortura e misoginia.
 
DAU Natasha, dirigido por Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel funciona como um filhote incomum do cruzamento entre o Formalismo Russo e o Dogma 95. São mais de duas horas que transitam entre o grotesco e o horrível com sinceridade especialmente do elenco. Mas, em que medida, atores e atrizes estão atuando ou vivendo a realidade construída dentro desse bunker onde o projeto DAU acontece? Uma resposta que, provavelmente, jamais teremos. De qualquer forma, quem quiser adentrar ainda mais o mundo de DAU, a Mostra exibe também DAU. Degeneração, de 369 minutos, gratuitamente, no SP Cine Play. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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DAU. Degeneração
 
Disponível gratuitamente na plataforma SpCine Play até 4/11.

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