"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

No tempo estendido de Lav Díaz e Frederick Wiseman

Neusa Barbosa

Gênero, Pan
Os filmes do diretor filipino Lav Díaz costumam ser acontecimentos em si, não só por suas longas durações - chegando a oito horas -, como por sua capacidade de permanecer mergulhado em seus personagens. A grande habilidade deste cineasta, afinal, é habitar o tempo de suas histórias, ele que é um artesão multitarefa, sendo o diretor, roteirista, câmera e montador de seus filmes.
Vencedor do Leão de Prata de direção da seção Horizontes no mais recente Festival de Veneza, Gênero, Pan é mais um destes filmes dedicados a viver um pedaço de vida com seus personagens. A habitual fotografia em preto-e-branco a que recorre o realizador é a marca do despojamento, do descolorido que define a existência de Andres (Don Melvin Bungaling), Paulo (Bart Guingona) e Baldo (Nanding Josef), mineradores na remota ilha Hugaw. O filme começa com uma cena leve, que mostra o grupo de trabalhadores em roda, cantando. É um raro momento de descontração, que prepara uma jornada longa e dura, por uma montanha e uma floresta cortada de rios, na volta destes homens para casa.
O trajeto deles, como a vida, é destituído de qualquer facilidade. Eles trabalham muito, ganham pouco, quase nada possuem, sendo explorados por autoridades locais e mesmo por colegas mais velhos - Baldo, por exemplo, exige de Andres um dinheiro que acha que lhe é devido, apesar das súplicas do outro diante dos gastos com a doença da irmã.
A grande marca do estilo de Díaz está na maneira como desdobra camadas da personalidade de seus personagens ao longo do tempo, expressando nuances de uma humanidade aviltada, mas nunca incapaz de lampejos de sentimento. Serão estes três homens a definir este microcosmo, sacudido, de tempos em tempos, pelas incursões do mágico, do fantástico, do religioso - o extremo catolicismo de Paulo, obcecado por uma culpa desconhecida, e mitos, como o do misterioso cavalo negro, que Andres alega ter vislumbrado no rio.
Dentro desta natureza bruta, entre montanha e floresta, os homens são pequenos, insignificantes, prisioneiros de relações viciadas, conduzidas por policiais, capangas, milicianos, que exploram a todos, semeando o medo.
O curioso título remete a um programa científico de rádio, entreouvido pelos três protagonistas, que sustenta que os cérebros dos seres humanos não estariam ainda totalmente desenvolvidos. Muitos teriam ainda cérebros como os dos macacos pan ou chimpanzés, propensos ao egoísmo e à violência. Com este comentário solto no meio do filme, Díaz parece procurar um sentido para a crônica crueldade da história humana. Mas nunca abandona sua empatia por estes seres pequenos, destituídos, que procuram um fio de dignidade e ternura.
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2.000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
 
Nadando até o mar ficar azul
O celebrado diretor chinês Jia Zhang-ke assina aqui um documentário em que viaja pela história recente da China, tendo como território mais uma vez sua região natal, Fenyang, província de Shanxi - onde ele filmou Plataforma e As Montanhas se Separam. Juntando recordações de velhos habitantes sobre os mutirões da Revolução Chinesa, em 1949, que trouxeram prosperidade agrícola à Aldeia da Família Jia - que chegou a ficar famosa por seu sucesso em alimentar seus moradores -, a trajetória de um pioneiro desenhista, jornalista e escritor, Ma Feng, e escritores modernos que vêm ao Festival de Literatura de Fenyang, o diretor constroi um primoroso painel. Assim, junta as pontas do velho e do novo, do rural e do urbano, do camponês e do intelectual, levantando um pouco do véu da identidade chinesa.
A história pessoal de três escritores, Jing Pingwa, Yu Hua e Liang Hong, explicita, mais do que tudo, essa peculiar ligação com as raízes da própria aldeia, com as relações familiares, que formou cada um deles e se refletiu profundamente em suas obras. Na trajetória de Pingua e Hua, pesou a sombra da Revolução Cultural. Notadamente, na de Pingwa, cujo pai professor foi considerado “contrarrevolucionário”, enviado ao campo para trabalhos forçados, fato que marcou indelevelmente o currículo do filho - por muito tempo, impedido de obter qualquer trabalho devido a essa ligação próxima com um suposto inimigo do regime. 
No caso de Hua, a Revolução Cultural entrou como um obstáculo para ter acesso a livros considerados impróprios, notadamente os estrangeiros. O escritor conta que os exemplares destes livros proibidos, no entanto, circulavam clandestinamente e eram muito disputados, apesar do fato de que boa parte deles estava mutilada, faltando-lhe o começo ou o fim. Por conta disto, Hua conta que se tornou obcecado por finais de histórias, sempre imaginando como aquela que havia lido poderia ter terminado. 
No caso da escritora Liang Hong, um pouco mais jovem do que os outros dois autores, o grande desafio foi sua condição familiar. A mãe, gravemente doente, morreu quando ela ainda era criança. O pai, mesmo devotado, teve imensas dificuldades financeiras para permitir que os filhos estudassem. Como é costumeiro na cultura chinesa, a irmã mais velha desdobrou-se para cuidar dos irmãos menores, sacrificando boa parte de sua vida pessoal e tendo um casamento tardio.
O título poético vem de uma fala do escritor Hua e remete a essa paixão que leva adiante na vida, rumo a transformar em realidades sonhos que parecem impossíveis. 
Outro filme de Zhang-ke na programação da Mostra é o curta A Visita, em que ele retrata, de maneira levemente bem-humoradas, as inúmeras transformações na nossa rotina diária a partir da eclosão da covid-19. O curta faz parte do programa Masters in Short
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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City Hall
Frederick Wiseman, 90 anos, é um documentarista do maior respeito, não só pela idade e pela obra, mas especialmente pela paixão e consistência com que ele continua a enveredar pelas entranhas das instituições que examina, em filmes como La Danse, sobre a Ópera de Paris, Academia de Boxe, National Gallery e Ex- Libris - The New York Library
Pela primeira vez na vida - e por acaso - ele volta seus olhos para sua cidade natal, Boston, examinando o funcionamento da administração municipal, do prefeito democrata Martin Walsh, o único entre uma série de outros prefeitos que aceitou o desafio de ter câmeras acompanhando seu trabalho. Eleito pela primeira vez em 2013, reeleito em 2018, Walsh, um afável descendente de irlandeses, é notoriamente um digno exemplar de político anti-Trump, empenhando-se em políticas inclusivas para imigrantes, mulheres e afro-descendentes, preocupado com educação, moradia e empregos - ao final de seu primeiro mandato, o índice de desemprego em Boston era de 2,4% e a cidade era considerada em pesquisas como o melhor lugar do mundo para conseguir um emprego (um quadro, evidentemente, anterior à pandemia).
Com a câmera presente em inúmeras reuniões dentro de fora da prefeitura, muitas sem a participação do prefeito e sim de outros funcionários municipais, o filme captura o funcionamento da administração no próprio processo exaustivo da construção democrática de propostas, discussão de soluções de problemas, escuta de reclamações das camadas mais desfavorecidas, com sua justificável irritação pela demora em sanar seus problemas - como acontece, particularmente, numa reunião para discutir a instalação de uma loja para comercialização legal de cannabis dentro do distrito de Dorcester.
Fiel ao seu estilo, Wiseman apenas coloca sua câmera, observa, não pergunta, não interfere, acompanhando o desenrolar das situações, sejam elas quais forem - como a inusitada apelação pessoal contra multas de trânsito ou a passagem de um banal caminhão de lixo numa rua. Cada peça do filme é como o pedaço de um mosaico, que se completa ao longo das 4 horas e 35 minutos de duração, trazendo para mais perto do espectador paciente o coração e a batida de uma cidade, sem deixar de incluir os aspectos burocráticos do cotidiano. De várias maneiras, é um filme muito instrutivo para quem se interessa por políticas públicas ou para quem precisa entender o quanto a política é, sim, importante e como ela cresce no diálogo. 
Evidentemente, o retrato que Wiseman traça do prefeito é simpático, mas está longe de ser chapa-branca. O documentário não se furta a mostrar os limites de certos procedimentos, ou as falhas para incluir todas as camadas da população no processo, por mais que pareça haver genuíno interesse da administração - à qual não falta, evidentemente, a ambição de futuros vôos mais altos.
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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De volta a Visegrad
O documentário suíço, assinado pela dupla de diretores Julie Biro e Antoine Jaccoud, acompanha o reencontro de antigos colegas de uma escola primária na cidade bósnia de Visegrad, cuja formatura foi impedida pela eclosão da guerra dos Bálcãs, em abril de 1992, e dos massacres étnicos que se seguiram.
Djamila e Budo são a dupla de veteranos da escola que vão em busca destes ex-alunos, que se dispersaram não só pelo país, ou países próximos, ou até por outros lugares do mundo. Djamila era professora da escola, Budo, seu diretor.
 
O filme se aproxima de cada um dos personagens com extrema delicadeza, sendo capaz de captar histórias e vivências muito diferentes nesta reaproximação com a situação mais traumática de suas vidas, experienciada quando ainda eram crianças. Não raro, são lembranças terríveis de uma classe que era multiétnica e tinha, até ali, vivido sem problemas esta convivência. Haviam estudado juntos quatro anos e preparavam sua formatura, que não pôde acontecer.
A volta destas pessoas à escola é, de várias maneiras, emocionante e isso é palpável em suas palavras e atitudes - há, inclusive, quem tema esta volta ao cenário de acontecimentos traumáticos.Trata-se, afinal, de um necessário processo de cura e reconciliação com a própria história, de que alguns personagens, infelizmente, não podem mais participar - estão entre os mortos da guerra. 
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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