"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

O signo da morte em duas visões

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Não há mal algum
Se há um tema neste inquietante filme iraniano, vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2020, é a ética. Num dos episódios que o compõem, uma personagem diz a outra: “Seu poder é dizer não”. Esta é a frase que define, de várias formas, as escolhas feitas ao longo destes relatos, todos eles implicados com a pena de morte. No primeiro, Hesmat (Ehsan Mirhosseini) é funcionário de uma repartição de alta segurança e somente no final saberemos o que ele faz. Antes disso, ele será visto em situações cotidianas, ao lado da mulher e da filha, fazendo compras, cuidando da mãe, assistindo TV. Mas seu trabalho não tem nada de corriqueiro, fazendo parte dessa máquina da morte das execuções no Irã.
 
O diretor Mohmmad Rasoulouf, notório dissidente no Irã, não alivia a mão no retrato de um Estado opressor, que exige dos homens 21 meses de serviço militar - sem o qual eles não podem tirar passaporte ou ter um emprego - e coloca estes jovens soldados como executores na cadeia da pena de morte, com tudo o que isso implica para a vida deles. Algumas histórias tratam dessas consequências, como a de Javad (Mohammad Valizadegan), ansioso por uma folga para ficar com a namorada Nana (Mahbat Servati), ou a de Pouya (Kaveh Ahangar), que se recusa à ideia de matar outro ser humano. Outros, como Bahram (Mohammad Seddighimehr), já fizeram essa escolha anos atrás e o preço não foi pequeno.
 
Retratando o Estado como opressor e movido a “nepotismo ou dinheiro”, como declara um dos jovens soldados, Rasoulouf constrói uma crítica incômoda ao regime iraniano, que já o prendeu, proibiu seus filmes e, recentemente, o condenou a dois anos sem filmar e a uma pena de um ano de prisão, além da proibição de sair do país que o impediu de receber pessoalmente seu prêmio em Berlim. O cineasta, de 48 anos, faz assim digna companhia a Jafar Panahi, com quem já foi preso, outro implacável resistente do cinema - de quem a Mostra apresenta o curta Escondida, que retrata a situação de uma jovem de bela voz impedida de cantar, e que faz parte do programa Masters in Short. (Neusa Barbosa)
 
Todos os Mortos
Uma reflexão sobre a herança histórica maldita da escravidão permeia o drama Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra (SP). Exibido em competição no mais recente Festival de Berlim, em fevereiro, e também no Indie Lisboa e San Sebastián, alpém de triplamente premiado no Festival de Gramado (trilha musical, atriz e ator coadjuvante), o filme explora as contradições vigentes num Brasil recém-republicano e pós-escravidão, em 1899, retratando as relações entre uma família branca, os Soares, e uma negra, os Nascimento.
 
O som é um dos meios através dos quais são introduzidos elementos contemporâneos - o barulho  de um skate, de um helicóptero, etc. -  no filme ambientado no século XIX, estabelecendo uma estranheza e também uma afirmação de como as épocas, afinal, se mesclam, em processos históricos que não são superados.
 
Na trama, a matriarca Isabel (Thaia Perez), sofre a morte de sua criada, a ex-escrava Josefina (Alaíde Costa), que a amamentara e a seus filhos. A dependência neste nível mais íntimo desencadeia um processo de instabilidade no clã, integrado também pelas filhas de Isabel, como Ana (Carol Bianchi) e a freira Maria (Klarissa Kiste). 
 
Mesmo sendo religiosa, Maria recorre a uma ex-escrava, Iná (Mawusi Tulani) para que venha realizar um ritual afro - que a freira pretendia que fosse um mero fingimento - para pôr fim às crises nervosas de Ana, que diz enxergar mortos e tem lembranças das atividades místicas de Iná no passado.
 
Este entrelaçamento entre a decadente família senhorial Soares e a família trabalhadora de Iná - que tem um marido, Antônio (Rogério Brito), e um filho, João (Agyei Augusto) - permitem que o filme radiografe, com bastante intensidade, o panorama de uma sociedade em formação cujas estruturas sociais, desiguais e racistas, se mantêm, de várias formas, até hoje. 
 
Na coletiva online de Gramado, o diretor Caetano Gotardo comentou que a opção por um filme de época traduziu, para ele e Marco Dutra, essa vontade de falar da persistência da estrutura social brasileira. Por outro lado, os diretores quiseram também “questionar essa idéia de ‘precisão’ no retrato de época, já que tudo é interpretação. A História é escrita pelos vencedores”.
 
Consultor do filme e um dos autores da premiada trilha musical - um ponto alto na composição do clima da história -, Salloma Salomão considera a produção “fora do clichê de colocar negros e indígenas apenas como objetos de exploração econômica e estética”. Ele vê em Todos os Mortos uma “virada na produção de estereotipia, desligando a chave da violência para ligar a da experiência”. O historiador também destacou que, a seu ver, os diretores “abrem uma janela para ver os 10 anos da República, que desembocaram atualmente nesse autoritarismo de barbárie que estamos vivendo e que está atingindo a própria intelectualidade branca”. (Neusa Barbosa)
 
Única exibição: segunda (2/11), no Cinesesc Cine Drive-In, 19h
Praça São Vito s/n, Centro.
Valores do Ingresso: R$ 40,00 para carros com até 4 pessoas.
Capacidade: 30 carros.

O Despertar de Fanny Lye
O Despertar de Fanny Lye é um filme que gostaria muito – mas muito mesmo – ter sido feito nos anos de 1970. Como isso não é possível, seu roteirista e diretor, Thomas Clay, fez um longa como se fosse uma viagem no tempo – na verdade, duas, sua trama se passa no século XVII. Tudo aqui respira décadas atrás, o auge de um cinema independente inglês – até o logotipo do British Film Institute que abre o longa é ao modo antigo.
 
Essa opção retrô encontra sua força também na bela fotografia do mestre grego Giorgos Arvanitis, que trabalhou com cineastas como Theo Angelopoulos, Catherine Breillat, Volker Schlöndorff e Agnieszka Holland. Ele cria um tipo de imagem que parece etérea, quase coberta por uma bruma, lembrando muito clássicos daquela década, como Quando os homens são homens, Cinzas no Paraíso e Portal do Paraíso. Clay faz um cinema com sensibilidade contemporânea – o filme é uma espécie de western feminista numa sociedade puritana, mas com toque do passado. A trilha sonora, assinada pelo diretor, causa um estranhamento, já que o tom das músicas parece nunca combinar com o tom da cena. Tudo isso transforma O despertar de Fanny Lye numa experiência única.
 
O filme começa com um jovem casal nu correndo pelo campo, em busca de abrigo. Como Adão e Eva expulsos do paraíso, Thomas (Freddie Fox) e Rebecca (Tanya Reynolds) encontram abrigo num celeiro na pequena propriedade onde Fanny (Maxine Peake) vive com o marido, John (Charles Dance) e o filho pequeno, Arthur (Zak Adams). Quando descobertos, a família Lye lhes dá abrigo, mas as consequências serão trágicas, porque o casal tem algo a esconder.
 
Clay transita entre gêneros até chegar no faroeste espaguete. Vai do horror folclórico – tão em voga no cinema inglês dos anos 60 e 70 – ao pós-apocalíptico nessa pequena sociedade que se forma. O período histórico que emoldura a narrativa é o reino de Oliver Cromwell, um momento, como dizem os letreiros iniciais, que moldou o pensamento social de maneira tão forte que certas questões permanecem até hoje, em um ou outro nível.
 
Fanny, casada com um ex-soldado puritano, sempre foi dominada por essas sociedade altamente patriarcal, mas, como o título deixa claro, ela irá acordar para um outro mundo. Pequenos gestos, pequenas confidências entre ela e Rebecca deixam claro que a protagonista não é tola, mas que está fazendo o jogo que lhe é possível para sobreviver nesse mundo opressor. A transformação da protagonista - interpretada como uma força contida e inteligência por Peake – é muito bem construída e totalmente crível. (Alysson Oliveira)
 
Lua Vermelha
Lua Vermelha é um filme de beleza e poesia visual que convida a entrar em seu mundo próprio, onde mito, fantasia e loucura parecem coexistir nas mesmas proporções. Seu criador é o espanhol Lois Patiño, um artista multimídia. Este é seu primeiro longa de ficção e anuncia a chegada de um cineasta a se prestar atenção.
 
A mitologia de um vilarejo costeiro no norte da Espanha serve como inspiração com acontecimentos enigmáticos e sobrenaturais. Não é de surpreender que a fotografia, também assinada pelo diretor, seja carregada de tons vermelhos, além de imagens inspiradas em pinturas dos séculos XVII e XIX – em especial as paisagens do alemão Caspar David Friedrich e um quadro específico de Jean-François Millet, Angelus, que retrata um casal rezando num campo onde o que plantaram parece não frutificar. É a estagnação da cena que chama a atenção do diretor, como se os personagens fossem capturados num momento de profunda intimidade espiritual e exasperação.
 
Lua Vermelha é composta de tableaux vivants de personagens paralisados como se uma praga tomasse conta do vilarejo depois do desparecimento de um pescador local, Rubio (Rubio de Camelle), cujo corpo desapareceu no mar quando seu barco naufragou. A narrativa se abre, então, lentamente por meio de monólogos interiores e silêncios, enquanto a câmera acompanha a paisagem natural e artificial abandonadas à própria sorte.
 
Bruxas cobertas por panos brancos entram em cena, andando pelo lugar, realizando rituais, e o cenário do vilarejo se torna tão importante quanto as personagens. O filme é de uma calculada claustrofobia a céu aberto, num lugar esquecido pelo tempo, tomado por superstições e o sobrenatural.
 
Patiño parece saber que um filme como Lua Vermelha não pode ser longo. Suas elucubrações vermelhas sobre tempo, espaço, vida, morte e o sobrenatural e, em especial, sua estética poderiam tornar-se cansativas se o filme se estendesse. Assim, ele faz a obra ideal com 85 minutos, mantendo toda sua força sem que ela se dissipe por um segundo. (Alysson Oliveira)

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