"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

A sombra dos fantasmas da América Latina

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Aranha
Esta coprodução Chile/Argentina/Brasil, dirigida pelo experimentado chileno Andrés Wood (Machuca), repercute com uma urgência particular nestes dias de hoje, em que a extrema-direita assombra o mundo todo e a América Latina em especial.
A história começa na atualidade, com um episódio de “justiça com as próprias mãos”, praticado por um velho homem, com impressionante frieza. Ao ser detido, descobre-se um enorme arsenal de armas em sua casa e que ele é Gerardo Ramírez (Marcelo Alonso), que, anos atrás, havia sido dado como morto. Além disso, integrara as fileiras da Patria y Libertad, milícia de extrema-direita que atuava em ações violentas, como espancamentos e assassinatos, para desestabilizar o governo do socialista Salvador Allende, no começo dos anos 1970.
A prisão de Gerardo perturba um rico casal, bem posto na sociedade, formado pela empresária Inés (Mercedes Morán) e o advogado Justo (Felipe Armas), cujo passado está indissociavelmente ligado a Gerardo, nas ações do Patria y Libertad. Desencadeia-se, assim, uma frenética busca de controlar os danos desta reaparição inoportuna.
 
Trabalhando a partir do roteiro de Guillermo Calderón, o diretor Wood compõe um requintado retrato de época, resgatando a militância extremista do casal de classe alta, que forma um trio com Gerardo, de origem humilde e militar, em torno da paixão comum pelo sangue e a violência. É preciso a perícia de um cineasta experiente para manter o foco no clima político polarizado dos anos 1970 e, ao mesmo tempo, desenhar com tantas camadas os três personagens, vividos por atores nunca menos do que perfeitos para viver suas contradições com tanta transparência. É um retrato cristalino do fascismo que, tantos anos depois, reemerge - agora, tendo como alvos imigrantes estrangeiros, como os haitianos.
O ator brasileiro Caio Blat está no elenco, interpretando Antonio, um dos antigos líderes do Patria y Libertad, nos flashbacks que apresentam a juventude dos protagonistas. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Notturno
Documentarista de olhar sensível, o italiano Gianfranco Rosi (de Fogo no Mar, indicado ao Oscar) volta sua câmera para os conturbados horizontes do Iraque, Curdistão, Síria e Líbano, para colher histórias pungentes sobre os desastres das guerras que abalam, há anos, estes lugares.
Quando as armas se calam, restam as viúvas, os órfãos, as pessoas traumatizadas e sem emprego, que devem sobreviver entre escombros, convivendo com os efeitos da passagem mortífera do Estado Islâmico. Duas sequências cortam o coração - aquela que mostra a terapia de crianças que testemunharam os horrores perpetrados pelos guerrilheiros fanáticos, decapitando pessoas e espancando as próprias crianças, cujos relatos aparecem em desenhos impressionantemente claros e em testemunhos não menos impactantes; outra, aquela em que uma mãe compartilha os áudios deixados em seu celular pela filha, sequestrada pelo Estado Islâmico, até agora em destino desconhecido.
 
Muitos dos ex-militantes do fracassado projeto fundamentalista hoje ocupam prisões superlotadas, vigiadas, muitas vezes, pelos guerreiros curdos Peshmerga. Não longe dali, os batalhões femininos Peshmerga exercem também vigilância, na situação ainda instável de controle dos territórios.
Pouca coisa pode ser mais eloquente do que a situação de Ali, um menino de 12 anos, filho mais velho de uma família cujo pai desapareceu nestas guerras. Para ajudar a alimentar a mãe e os cinco irmãos menores, toda madrugada ele parte para uma estrada onde passam os carros de caçadores de pássaros, oferecendo-se como seu ajudante - o que pode lhe render um parco dinheiro, ou até alguns dos pássaros. No olhar final do menino, examinando este horizonte ainda tão sombrio, está a síntese de uma desolação que procura também indícios de esperança. Mas como ela tarda a chegar. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Sanguinetti
A sombra de uma obscura cooperação entre a guerra suja do Chile e do México, revelada através da relação interrompida entre um pai e uma filha, está no centro deste filme simples e eficiente, segundo trabalho na direção do chileno radicado no México Christian Díaz Prado.
Valentina (Natalia Benvenuto) é uma jornalista chilena que investiga violações de direitos humanos da era Pinochet ainda impunes. Seu pai, um médico, Mario Sanguinetti (Ernesto Benvenuto), é uma figura que desapareceu de sua vida, quando ela ainda era criança, sem maiores explicações. Ela descobre que ele vive no México, para onde ela viaja e tenta manter contato. Ele, no entanto, resiste a falar com ela, mesmo por telefone.
 
O roteiro, também assinado pelo diretor, constroi lentamente o preenchimento destas lacunas, utilizando o trabalho da jornalista, que localiza indícios de que vivem no México ex-militares chilenos que atuaram na repressão, torturas e desaparecimentos durante a ditadura. O vínculo pessoal com este pai que esconde um passado dá uma dimensão intimista à história, sem que lhe escape o dimensionamento social e político. Enxuto e bem construído, o filme é eficiente em mostrar como atuam máquinas clandestinas de repressão, capazes de desaparecer da vista mas emergir, a qualquer momento, para reinstaurar mecanismos de controle social através do terror.. 
Sem referir-se diretamente a isto, o filme sugere que pode ter havido cooperação destes agentes chilenos da repressão com forças mexicanas na mesma área, já que os desaparecimentos de opositores e militantes sociais, muitos deles recentes, são uma das chagas vivas também naquele país. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Minha irmã
Este é um filme que já se viu diversas vezes, nos mais diferentes formatos e variações: um par de irmãos (o gênero pode mudar) distantes mas que algo trágico (uma doença, uma morte na família) une novamente e os obriga a reatar os laços de família. Nesse filme, escrito e dirigido por Stéphanie Chuat e Véronique Reymond, não é diferente, mas a dupla central formada por Nina Hoss e Lars Eidinger é interpretada com tanta honestidade e generosidade que o longa ganha pontos.
Lisa (Hoss) era uma dramaturga promissora que abandonou seus sonhos e se mudou para a Suíça para acompanhar o marido, Martin (Jens Albinus), num colégio interno. Ela é dois minutos mais jovem que seu irmão gêmeo, Sven (Eidinger), um ator de teatro famoso. No passado, eram bem próximos, ela chegou a criar personagens para ele mas, com a mudança de país, acabaram se distanciando.
Quando Sven é diagnosticado com leucemia severa, Lisa volta para Berlim para ajudá-lo nos primeiros cuidados, instalando-o na casa da mãe (Marthe Keller), que se revela um tanto egoísta e negligente. Provavelmente, ela tenha sido assim a vida toda, o que faz Lisa levar o irmão para morar com ela e continuar seu tratamento na Suíça. Sven também parece nunca ter sido uma pessoa muito fácil, e a doença só reforçou esse traço.
A relação entre Lila e o irmão, como é de se esperar, torna-se mais próxima e mais intensa – mas tarde demais para ambos. É nesse desespero pela vida que está esvaindo que Ross e Eidinger – dois grandes intérpretes – encontram a beleza de seus trabalhos. É interessante como a dupla é tratada à luz de seus gêneros. A personagem feminina sempre é obrigada a reorganizar a sua vida, enquanto os homens (seu irmão e seu marido) podem viver como bem entendem, questão que é colocada de forma crítica no filme. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Sportin’ Life
O segundo filme de Abel Ferrara em cartaz na Mostra deriva de seu outro longa no festival, Sibéria. Sportin’ Life nasceu em fevereiro, quando o diretor, sua família, o ator Willem Dafoe e a equipe estavam no Festival de Berlim e a pandemia começava a tomar a Europa. Obviamente, esse não é um documentário exclusivamente sobre o início da pandemia – o ego de Ferrara não permitiria – mas também sobre o tédio e o processo artístico.
Filmado como uma espécie de vídeo-diário, Ferrara aparece com um mau humor quase constante, especialmente quando precisa divulgar Sibéria no festival alemão, dando entrevistas sem muita vontade. Dafoe emerge disso como um gentleman, sempre educado e solícito, como para compensar o comportamento do colega, com quem já fez seis filmes.
Tal como seu documentário Alive in France, de 2017, esse é um filme sobre Abel Ferrara e o mundo, nessa ordem, no qual ele se coloca em primeira pessoa e sem muito interesse naqueles e naquelas que o cercam – excetuando talvez sua mulher e filha pequena, Cristina Chiriac e Anna Ferrara, também vistas em Sibéria. Intercalando o material gravado no Festival de Berlim, estão apresentações da banda do diretor – com destaque para a presença dele – e imagens das ruas de Nova York nos primórdios do seu lockdown, em março. Tudo é um tanto repetitivo e sem muito sentido com o tempo.
A estrutura de um diário evita qualquer conexão mais significativa entre as “cenas”, e as conversas parecem quase aleatórias. Há momentos, nas entrevistas, em que Ferrara comenta sobre seu processo criativo, mas nunca de maneira muito densa – tudo lhe parece um tédio. Sportin’ Life, mais do que um documentário, é colagem de fragmentos sobre o mundo pelos olhos de Ferrara, o que tem muito mais a dizer sobre ele do que o mundo. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Mãe de aluguel
Aqui está um filme com grandes questões morais ao seu centro. Começa como uma comédia leve com muito diálogo, sobre uma moça que aceita ser a barriga de aluguel para seu melhor amigo gay e o marido dele, mas uma reviravolta traz uma indagação complexa. Jess (Jasmine Batchelor) e Josh (Chris Perfetti) são grandes amigos desde a faculdade e ela irá gestar o bebê que será o filho dele e de seu companheiro, Aaron (Sullivan Jones).
Tudo vai muito bem, todos são muito ricos e bem resolvidos, até que cai uma bomba: é detectado que a criança, ainda no começo da gestação, é portadora de síndrome de Down. Instala-se uma questão: a gravidez deve ser interrompida? Mais do que isso: de quem é a decisão: de Jess ou de Josh e Aaron. Para não tomarem decisões precipitadas, ela sugere que frequentem um centro que cuida de crianças portadoras da síndrome e se familiarizem com a realidade.
O diretor e roteirista Jeremy Hersh demonstra-se cheio de boas intenções e também interessado em ouvir todos – ou, ao menos, o maior número possível de – lados da questão. Além de conviver com crianças, os três também conhecerão mães e pais, as dificuldades que enfrentam, assim como as alegrias. Sandra (Meg Gibson), por exemplo, cujo filho adulto foi para a faculdade, vê a síndrome como algo quase místico, sua chance de aprender com tudo, transformando o filho numa espécie de ser mágico, um “unicórnio”, conforme comenta Bridget (Brooke Bloom), que tem um filho pequeno e uma visão muito mais realista do assunto. Essa personagem é um sopro num filme tão povoado por personagens idealistas e com pouco senso de realidade. O semblante exausto de Bridget dá a dimensão real da questão.
O roteiro de Hersh é repleto de diálogos rápidos e dilemas morais resolvidos com muita falação. Não há momentos de silêncio, a toda hora todo mundo sempre tem algo a dizer. Nesse sentido, Mãe de aluguel é quase como teatro. Jess é uma personagem bem construída e encontra em Batchelor uma atriz à altura. Ela é feroz e doce na medida necessária, pronta para defender seu ponto de vista. O mesmo não pode ser dito de Josh e Aaron, um par de clichês ambulantes – o primeiro, com uma tendência a ser mártir. As intepretações da dupla de atores também é bem fraca, o que prejudica ainda mais seus personagens.
Todo mundo é muito politicamente correto, muito disposto a ouvir o outro lado – o que, por si só, é louvável. Na vida real, no entanto, sabe-se que as pessoas são passionais e ninguém sustenta tanta isenção o tempo todo. Esse é um dos pontos mais fracos do roteiro: as pessoas não parecem muito reais e sim ideias materializadas em forma de personagens, a ponto de ser irritante. Louvável a vontade de Hersh de dar voz a todos os lados da questão, mas dramaturgicamente é mal-resolvido, especialmente com sua resolução frustrante. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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