"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Mostra termina com filme inédito de Thomas Vinterberg ao ar livre

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Termina nesta quarta (4/11) a 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que foi híbrida, com a maioria da programação exibida online e algumas sessões em salas drive-in.
A cerimônia de encerramento da 44ª Mostra será nesta quarta, na área externa do Auditório Ibirapuera, havendo controle de acesso e distanciamento de 1,5m em seu entorno. A sessão é realizada em parceria com a Spcine e a Secretaria Municipal de Cultura.
Os ingressos serão disponibilizados gratuitamente para o público e devem ser reservados no site Sympla (disponibilizados desde as10h do dia 3/11), e apresentados, via QR Code, na recepção do local, onde os espectadores terão temperatura aferida e totens de álcool em gel estarão disponíveis. Só poderão adentrar o recinto as pessoas que tiverem ingresso (não haverá retirada no local). As bicicletas poderão permanecer na área do evento.
O público deverá permanecer de máscara o tempo todo, seguindo os protocolos de segurança do Parque Ibirapuera.
Na ocasião, serão anunciados os vencedores da Mostra e, logo após, será exibido o filme Another Round (foto acima), do diretor Thomas Vinterberg.
 
Últimas atrações
Neste último dia da programação, as nossas dicas de alguns dos bons filmes ainda disponíveis: 
 
Isso não é um enterro, é uma ressurreição
O nome sonoro não engana - trata-se realmente de um filme inusitado, original, que traz para a tela a potência cultural de um país de que nunca antes viera uma produção para a Mostra, Lesoto. Deste pequeno reino montanhoso, geograficamente comprimido pela África do Sul, chega esta obra poderosa, assinada pelo diretor Lemohang Jeremiah Moses, vencedora do Prêmio Especial do Júri da seção World Cinema do Festival de Sundance.
Desenvolvido com apoio da Bienal de Veneza, o filme é um mergulho na rica identidade de um país situado nas montanhas, habitado por pessoas e histórias de uma riqueza desconhecida. O novelo narrativo se desenrola a partir de Mantoa (a veterana atriz sul-africana Mary Twala), uma velha mãe viúva que espera a volta de seu único filho vivo das minas da África do Sul, onde ele foi ganhar seu sustento. Mas ele não volta e ela recebe apenas os objetos deste que é mais um na já longa lista de mortos por trás desta viúva, que perdeu marido, filhos e netos.
A história se desenvolve em torno desta mulher sofrida e inflexível, imbuída de todas as histórias e tradições locais, obcecada pela própria morte, e cujo ambiente é abalado por ainda outra perturbação - a instalação iminente de uma represa, causando a inundação do vale e do cemitério local, o que implicará na remoção dos mortos.
Numa história tão impregnada de morte, instala-se, por contraste, um retrato vívido de uma comunidade camponesa, de criadores de ovelhas que não têm muito de seu, já que até as terras que ocupam lhes foram cedidas em comodato - todas pertencem ao rei. A precisão da direção está em captar este clima local com um tom que oscila entre o realista e o onírico, traduzindo uma realidade que tem pontos de contato com todos os lugares do mundo, em que os pequenos e fracos têm suas vidas desfiguradas pelos donos da terra e do poder, mas contam com um repertório infinito de resistência.
No meio de tudo, brilha a estrela Mary Twala, que morreu em julho deste ano, aos 80 anos. Ela sustenta, em seu rosto marcado e corpo franzino, a potência desta imensa personagem que é Mantoa, um símbolo de coragem, desprendimento e luta. (Neusa Barbosa
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.
 
Al-Shafaq - Quando o céu se divide
No drama turco-suíço, dirigido pela diretora Eden Isik, comparece o tema da família muçulmana confrontada com a súbita radicalização do filho. Originários da Turquia, os Kara vivem há muito tempo em Zurique, onde o pai, Abdullah (Kida Khodr Ramadan), é motorista de táxi e a mãe, Emine (Beren Tuna), dona de casa. Tem três filhos, Kadir (Ali Kandas), Elif (Eda Gürbüz) e o caçula, Burak (Ismail Can Metin).
O pai é rígido, tentando enquadrar os filhos no bom comportamento, uma dureza que é, de tempos em tempos, aliviada pela mãe, especialmente em relação ao caçula, Burak. Vivendo as incertezas e inadequação da adolescência, Burak não se encontra entre a identidade turca da família ou a identidade europeia, entre seus colegas de escola. 
Quando o novo dono de uma empresa de sua comunidade, Sami (Serkan Tastemur), oferece um emprego a Burak, o pai fica feliz - sem imaginar que está ali dentro um núcleo de radicalização religiosa que, finalmente, seduz seu filho também.
Tal como o drama tunisiano Meu Querido Filho, de Mohammad Attia, este é um filme centrado na dor de um pai, desesperado na busca de um filho que desaparece, sem que a família tenha notado sinais de que ele se encaminhava para o fanatismo. Mas este filme enriquece ainda mais seu enfoque ao incorporar outro segmento, envolvendo dois irmãos refugiados, Malik (Ahmed Kour Abdo) e Berdam (Robin Arslan), cuja história se cruza com a de Abdullah e acentua o seu desejo de reparação. (Neusa Barbosa). 
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.
 
O ano da morte de Ricardo Reis
Levar um romance de José Saramago para o cinema é sempre um desafio. A prosa do Nobel português é densa, repleta de digressões, mas talvez o mais difícil de conseguir é o seu tom: algo que transita entre a ironia, o cinismo e a doçura, sempre com a política como uma presença forte no subtexto. João Botelho, em seu O ano da morte de Ricardo Reis, faz a quinta adaptação em longa para cinema da obra do escritor – e, em certa medida, a mais bem-sucedida.
Ensaio sobre a cegueira, dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles, de 2008, é a mais famosa, mas o excesso de reverência à obra original talvez atrapalhe um pouco sua eficácia. Já aqui Botelho, que também assina o roteiro, é respeitoso sem se curvar ao peso de adaptar um Saramago. Ele toma o romance de 1984 para si, descarta passagens, modifica outras, e extrai o melhor que o cinema pode tirar da literatura. É um filme arriscado, que trabalha com três ícones das letras portuguesas: Saramago, o poeta Fernando Pessoa e seu heterônimo, Ricardo Reis. Havia o risco de um excesso de palavras – a tentação de deixar prosa e poemas deve ter sido grande –, mas o diretor e roteirista contorna bem esse problema.
 
O brasileiro Chico Diaz interpreta Ricardo Reis, que volta a Portugal em 1936, após se auto-exilar no Brasil por mais de dez anos. Chegando a Lisboa, encontra não apenas uma Europa em convulsão política, mas também o fantasma de Pessoa, interpretado com humor certeiro e sagacidade por Luís Lima Barreto. Nos diálogos entre criador e criatura, temos contato com a realidade europeia daquele momento, com a ascensão de regimes nazifascistas, a guerra civil na Espanha e o fortalecimento da recém-instaurada ditadura de Salazar em Portugal.
O ano da morte de Ricardo Reis existe na dimensão em que o artístico e o pessoal estão ora em diálogo, ora em embate. Acompanhamos a vida amorosa confusa do protagonista, que se envolve com a camareira do seu hotel, Lídia (Catarina Wallenstein), e uma jovem rica que tem paralisia num dos braços, Marcenda (Victoria Guerra). Como escreveu Pessoa, “o poeta é um fingidor” e, por meio dessa máxima, Reis direciona sua vida, sem muita certeza do que está fingindo e do que realmente sente.
A fotografia em preto e branco, assinada por João Ribeiro (parceiro de Botelho em filmes como Os Maias e Filme do Desassossego), ressalta o que há de mais noir nessa história de identidades, amores e política. O jogo de luz e sombra reflete o mal estar do pós-guerra, as incertezas de um continente mergulhado no caos e também a inquietação das personagens, uma espécie de reflexo do tempo histórico em que vivem.  (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
 
Os nomes das flores
Meio século atrás, Che Guevara foi preso na sala de aula de uma jovem professora num vilarejo na Bolívia. Antes de ser executado, ela lhe ofereceu sopa e ele recitou um poema sobre flores. O local se tornou ponto turístico, com direito à venda de garrafas de “água abençoada por Che”, conforme a história se propagou. Mas algo de mais estranho aconteceu: diversas mulheres, hoje senhoras, clamam o posto da professora. Os nomes das flores tece sua narrativa a partir desse episódio.
Uma cerimônia em homenagem aos 50 anos da morte de Che está sendo organizada, e a identidade da verdadeira mulher precisa ser descoberta. Fato, mito e ficção se confundem nesse episódio. Ninguém prova que foi real, e assim várias pessoas o clamam para si. Escrito e dirigido pelo iraniano Bahman Tavoosi, o filme questiona a veracidade da construção da narrativa histórica. Falando do passado, o longa coloca em pauta a construção das fake news do nosso presente.
A protagonista é interpretada por Bárbara Cameo de las Flores, que atravessa o filme sem dizer uma palavra, transformando-se numa personagem ainda mais misteriosa. “Precisamos respeitar a História”, diz-lhe um oficial do Estado, uma vez que a narrativa vigente é colocada em dúvida. Esta, por sua vez, jamais será esclarecida, pois Tavoosi está, acertadamente, interessado nos questionamentos e não nas respostas.
O diretor não nega sua origem iraniana e estabelece um diálogo com o cinema de seu país, mesmo filmando na Bolívia, duas nações com paisagens e modos de vida tão distintos. Há imagens que parecem saídas de um filme iraniano, mas Tavoosi está, no fundo, sintonizado com uma outra problemática e uma questão mais contemporânea. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.
 
O último banho
Josefina (Anabela Moreira) é uma noviça prestes a fazer seus votos quando recebe uma ligação: seu pai morreu e precisará voltar para casa, na região do Douro, para cuidar do sobrinho, Alexandre (Martim Canavarro), de 15 anos, que foi abandonado pela mãe quando pequeno. Escrito e dirigido pelo português David Bonneville, O último banho investiga a relação que se estabelece entre a tia e o garoto, que passam a morar juntos.
Alexandre, apesar da idade, parece uma criança. Tem uma mentalidade um tanto infantilizada e totalmente dependente de adultos. Agora, a tia se ocupa dele, dando-lhe banho, pois ele nunca consegue se limpar sozinho, e deixando-o dividir a cama, quando ele não consegue dormir. Ele, porém, quer ser mais independente, arrumar uma namorada e procurar a mãe.
O que governa o relato é a tensão – em sua maior parte, sexual – entre os dois personagens. Josefina começa a prestar mais atenção no corpo do sobrinho e, a certa altura, questiona-se se deve mesmo fazer os votos. E, afinal, pune-se fisicamente por esse desejo.
O último banho concentra-se nessa relação ambígua entre tia e sobrinho, com o peso da religião e do tabu. É um dilema que o filme não precisa e nem quer resolver, mas trabalhar com isso é catalisador na vida dessas duas pessoas. Alexandre começa a se tornar mais independente, enquanto Josefina se perde em suas dúvidas, tomando atitudes extremas. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.

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