"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Uma Mostra que se reinventa para conectar com o mundo atual

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

 
 
 
O mexicano "Nova Ordem" e o iraniano "Não há mal algum" são alguns dos destaques da nova edição da Mostra
 
Era claro, no começo de 2020, que os festivais de cinema brasileiro sofreriam com o desmonte da cultura no país e a diminuição do investimento dos patrocinadores. De todo modo, seria um ano de dificuldades. As coisas se complicaram ainda mais em março, quando a pandemia mundial foi declarada e o mundo entrou em lockdown. A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, como tantos outros eventos, teve que se reinventar.
 
Essa reinvenção acarretou a criação de uma plataforma digital que exibirá seus filmes este ano, a Mostra Play, a R$ 6 cada sessão (não haverá pacotes). Após comprar, o espectador tem 3 dias para assistir e, depois de começar a ver, 24 horas para acabar ou ver quantas vezes quiser. Já os filmes exibidos nas plataformas do SESC e da SP Cine são gratuitos. “Foi um desafio para mim, porque não gosto de tecnologia”, confessa Renata de Almeida, diretora do festival.
 
México na abertura
A seleção deste ano conta com 198 produções de 71 países, que, segundo Renata, “se pautam pelo que está acontecendo no mundo. O que a gente está vivendo está presente, a pandemia, as crises sociais e econômicas.” Sobre esse último tema, ela destaca o longa de abertura, o mexicano Nova Ordem (foto ao lado), de Michel Franco, ganhador do prêmio de direção no Festival de Veneza 2020. O longa será exibido na noite do dia 22 de outubro no Belas Artes Drive-in (Memorial da América Latina), e a partir da meia-noite do dia 23 fica disponível por 24h na plataforma da Mostra.
 
Renata frisa que a seleção a surpreendeu, pois acreditava que os realizadores e realizadoras guardariam seus filmes para o ano que vem, quando os cinemas reabrissem, mas se enganou. “No começo do ano, as pessoas pareciam que não queriam que seus trabalhos fossem exibidos na internet, mas com o tempo foram percebendo que é a saída no momento. Os filmes deste ano são deste ano. Não faz sentido esperar até 2021.”
 
Entre “os filmes deste ano”, a Mostra exibe o vencedor do Festival de Berlim, o iraniano Não há mal algum, de Mohammad Rasoulof; Isso não é um enterro, é uma ressureição, de Lemohag Jeremiah Mosese, primeiro filme de Lesoto exibido no festival; uma nova adaptação de Berlim Alexanderplatz, dirigida por Burhan Qurbani; o português O Ano da morte de Ricardo Reis, de João Botelho, inspirado no romance homônimo de José Saramago, com Chico Díaz no papel principal; Coronation, de Ai Wei Wei, sobre a pandemia do coronavírus; Gênero, Pan, de Lav Diaz; o documentário Kubrick por Kubrick (foto acima), de Grégory Monro, que parte de uma longa entrevista que o cineasta concedeu ao crítico francês Michel Ciment; Miss Marx, da italiana Susanna Nicchiarelli, sobre a filha de Karl Marx; Dias, de Tsai Ming-Liang; e dois filmes de Abel Ferrara, Sibéria e Sportin’ Life, entre outros.
 
Brasil, latinos e descobertas
O Brasil participa da Mostra com mais de 30 filmes, entre eles, Casa de Antiguidades (foto ao lado), de João Paulo Miranda Maria, o único brasileiro da lista de selecionados para o Festival de Cannes, que foi cancelado; O livro dos prazeres, de Marcela Lordy, inspirado no romance homônimo de Clarice Lispector; Mulher-Oceano, estreia na direção da atriz Djin Sganzerla; o documentário La Planta, de Beto Brant; Filho de Boi, do estreante Haroldo Borges; e Nas Asas da Pan Am, um filme autobiográfico do documentarista Silvio Tendler, que completou 70 anos em março.
 
Um destaque da produção nacional é a pequena retrospectiva do diretor Fernando Coni Campos (1933-1988), trazendo de voltas pequenas joias de sua autoria, há muito fora de circulação, caso de Ladrões de Cinema (1977) e O Mágico e o Delegado (1983).
 
Entre as muitas opções latino-americanas, destacam-se Aranha, novo e perturbador filme do chileno Andrès Wood (Machuca), abordando o passado sujo de militantes da facção de extrema-direita Patria y Libertad nos anos 1970, com elenco integrado pela argentina Mercedes Morán e o brasileiro Caio Blat; e a coprodução uruguaia Chico Ventana também queria ter um submarino, de Alex Piperno, que integrou a seleção de Berlim.
 
Para quem gosta de fazer descobertas, duas opções de documentário estão em A arte de derrubar, codirigido pelas diretoras Aslaug Aaarsaether (sul-africana) e Gunnbjorg Gunnarsdottir (norueguesa), que capta as lutas de coletivos de estudantes e artistas da primeira geração nascida após o fim do apartheid para varrer traços da herança colonialista, racista e sexista na África do Sul; e o suíço Retorno a Visegrad, de Antoine Jaccoud e Julie Biro, que acompanha o retorno de um grupo de ex-alunos de uma escola primária nessa cidade bósnia, cujas vidas foram drasticamente alteradas pela guerra dos Bálcãs. Na ficção, uma boa surpresa está na energia da produção marroquina Zanka Contact, de Ismael El Iraqi, um road movie com um romance muito peculiar, atração da mostra Horizontes de Veneza.
 
Homenagens e Wiseman
 
O um dos maiores documentaristas da história do cinema, o norte-americano Frederick Wiseman, 90 anos, receberá o Troféu Humanidade. Além disso, a Mostra exibirá seu trabalho mais recente, City Hall, no qual acompanha o cotidiano da prefeitura de Boston. Um filme que, segundo Renata, “deveria ser visto por todos os políticos.”  Mesmo entre os curtas, há assinaturas de peso, como Jafar Panahi (Escondido), Sergei Loznitza (Uma Noite na Ópera), Ai Wei Wei (Vivos) e Jia Zhang-ke (A Visita), este último o cineasta que, este ano, assina o cartaz da Mostra, uma das mais caras tradições do festival. De Zhang-ke, está programado também seu mais recente longa, o documentário Nadando até o mar ficar azul, exibido em fevereiro em Berlim.
 
Numa iniciativa inédita na história da Mostra, o troféu também será entregue ao corpo de funcionários de Cinemateca Brasileira, o principal órgão de preservação e arquivamento do audiovisual nacional, que está fechado, com ameaça de danos irreparáveis e até da perda de todo seu imenso acervo, por descaso do governo federal.
 
A produtora gaúcha radicada em São Paulo Sara Silveira também é uma das homenageadas desta edição da Mostra. Ela receberá o Prêmio Leon Cakoff e o festival exibirá sua produção mais recente, Todos os mortos, de Marco Dutra e Caetano Gotardo, que competiu em Berlim 2020. “Ela inventou a indústria do audiovisual quando não existia e gosta de trabalhar com o filão de novos realizadores”, define Renata.

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