"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Mostra de SP começa com distopia política sobre o fascismo

Neusa Barbosa

Começa hoje (22-10) a 44a edição da Mostra Internacional de Cinema em S. Paulo, com a exibição da distopia política Nova Ordem, de Michel Franco, que venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2020, e sintoniza, de forma contundente, o rompimento da ordem social e a instalação de caos, violência e um regime militarizado e fascista no México. Haverá uma sessão às 19h para convidados no Belas Artes Drive-in, no Memorial da América Latina, em S. Paulo. O filme também estará disponível a partir desse mesmo horário por 24 horas na plataforma Mostra Play (https://mostraplay.mostra.org/), criada especialmente neste ano para a primeira edição híbrida, também online, do festival.
 
Ingressos para este e outros filmes podem ser adquiridos a partir de hoje, na plataforma Mostra Play, em que os interessados deverão fazer um cadastro. Ao contrário dos demais títulos da programação, que permanecem na plataforma durante a duração da Mostra - de 22-10 a 4-11 -, salvo algumas exceções, o filme de Franco estará disponível apenas 24 horas. No total, a Mostra exibe 198 filmes. A programação pode ser enconrrada em https://44.mostra.org/
 
O filme
O diretor mexicano Michel Franco nunca foi um cineasta de criar zonas de conforto, nem para si próprio, nem para o espectador. Basta observar seus filmes anteriores, como Depois de Lucía (2012) e Crônico (2017). Mas nada nos preparou para a hecatombe realizada  em Nova Ordem, uma distopia chocante e violenta, que arrebatou o Grande Prêmio do Júri em Veneza 2020.
 
Franco já sacode o público nos instantes iniciais, com uma abertura em que não se explica nada, apresentando-se uma rápida sucessão de imagens intrigantes, cujo sentido ainda não se pode compreender.
 
A partir daí, tem-se uma dicotomia radical se estabelece. De um lado, o ambiente caótico de um hospital, em que pacientes são literalmente arrancados das camas para dar lugar a uma série de vítimas ensanguentadas chegando às centenas - são manifestantes feridos. O caos deste lugar cede espaço a um outro território, não muito longe dali, que parece outro planeta - o elegante espaço de uma festa de casamento, em que empregados de origem indígena servem convidados, todos brancos, representantes da classe empresarial e política do México, que, em geral, dão de presente aos noivos, Marian (Naian González Norvind) e Alan (Dario Yazbeck Bernal), envelopes contendo dinheiro, diligentemente guardados num cofre.
 
O choque entre os dois ambientes remete à dissonância social e econômica total e completa deste país, em que os muitos ricos isolam-se em ilhas de conforto e prazer, enquanto do lado de fora de seus muros milhões de pobres afundam na miséria e desolação.
 
Autor do roteiro, Franco dispensa fornecer contexto, acreditando que seu público já está devidamente informado do mundo desigual e dos tempos sombrios em que se vive, independente de pandemia. Ele toma o pulso de uma situação-limite, em riste, à beira da explosão. Do lado de fora da mansão da festa, há cada vez mais sinais inequívocos de que um turbilhão de revolta popular tomou as ruas. Um casal de convidados chega com seu carro atingido por grossas camadas de tinta verde, que respingaram na roupa elegante da mulher, instalando inquietação.
 
É nítido que Franco quer retratar um momento de revanche e o faz de maneira crua e contundente. As cenas dessa rebelião que invade as ruas e, logo mais, as casas fortificadas dos ricos, são duras de aguentar. Há tiroteios, saques, espancamentos, roubos, das roupas aos quadros das paredes, deixando atrás da passagem da multidão uma pilha de destroços e cadáveres. Franco não os poupa de nada, nem a nós, que assistimos.
 
A diferença, no caso deste filme perturbador, em relação aos trabalhos anteriores do diretor, é que o mal-estar que ele cria tem um sentido mais amplo, especialmente político - ainda que lhe falte uma elaboração mais sofisticada, como a vista em Parasita, de Bong Joon-ho, ou, mais remotamente, a The Square - A Arte da Discórdia, de Rubens Östlund, duas recentes crônicas de um radical rompimento da ordem social. O que se vê em curso em Nova Ordem não é uma revolta popular sem direção nem líderes. Há, por trás dela, um processo de instrumentalização dessa histórica raiva contida e de instalação do fascismo, numa tomada de poder militarizada e brutal. Por isso o filme, em seus extremos, se mostra verdadeiramente assustador.

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