"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

A vida delicada e amores conflitantes

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Dicas de filmes em exibição na Mostra comentados e recomendados por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira, do Cineweb
 
 
 Mães de verdade
Diretores japoneses têm sido, há algum tempo, aqueles que têm lidado da forma mais sutil e delicada com inúmeros aspectos do intimismo familiar. É o caso de Hirokazu Kore-eda e também de Naomi Kawase, diretora que já assinou Esplendor, Sabor da Vida e O segredo das águas.
 
Mães de Verdade debruça-se sobre o tema da maternidade a partir da adoção de um bebê por um casal, Satoko (Hiromi Nagasaku) e Kiyokazu (Arata Iura). Trata-se do filho de uma adolescente, Hikari (Aju Makita), forçada pelos pais a abrir mão do fruto de um relacionamento com um colega de escola.
 
 Kawase extrai intensidade de situações como os encontros dos pais com esta garota, que se darão em dois momentos, para colocar em questão aquilo que realmente lhe interessa - o que é, afinal, a legítima maternidade? 
Se a pergunta já foi feita inúmeras vezes, em melodramas mais ou menos lacrimosos, ao longo da história do cinema, aqui ela se beneficia do foco minimalista e da sensibilidade da diretora para extrair de seus atores o desempenho de um leque nuançado de emoções. Kawase nos aproxima dos dilemas do casal maduro, feliz e bem-realizado profissional e economicamente diante da própria dúvida se querem mesmo adotar um filho. Também não se esquiva de penetrar no universo das emoções adolescentes para entender o ponto de vista de Hikari.
 
Entre um e outro, a diretora nos introduz a uma peculiar organização mediadora de adoções, um detalhe que insere uma certo caráter empresarial nesta atmosfera, ainda que não destituída de cuidados. 
 
Trafegando num território já tão trilhado, a disputa dessa criança assume direções mais complexas do que habitualmente, permitindo ao espectador realmente embarcar em vários aspectos da questão - sem os chiliques e os episódios de tribunal que caracterizam tantas produções hollywoodianas, o que limpa o terreno para o que verdadeiramente interessa, a descontaminação do sentimento de posse e a possibilidade de compartilhamento dos afetos. (Neusa Barbosa)
 
SERVIÇO:
Sessão especial Drive-In do filme MÃES DE VERDADE, de Naomi Kawase
Data: 23 de outubro (sexta-feira)
Horário: 18h40
Local: Memorial da América Latina | Belas Artes Drive-In 
Endereço: Rua Tagipuru, 418, São Paulo - São Paulo
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/66629
 
Também disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
 Zanka Contact
Esta surpreendente coprodução Marrocos/França/Bélgica apresenta um mundo peculiar, numa batida idem. O cenário é inicialmente Casablanca, onde se assiste a um espetacular desastre de automóvel, este o incidente escolhido pelo diretor Ismaël El Iraqi para que os dois protagonistas deste road movie-aventura-romance se conheçam: a bela prostituta Rajae (Khansa Batma, prêmio de melhor atriz na mostra Horizontes de Veneza 2020) e o ex-roqueiro Larsen (Ahmed Hammoud). 
 
Desde este primeiro “encontro”, saem faíscas entre os dois, que estão fadados a ficarem se encontrando e desencontrando, brigando no meio do caminho, numa história que se desenrola com muito tempero, aventura, humor e não poucas pitadas de música, melodrama e trama policial. 
 
 Formado em direção na prestigiada escola parisiense La Fémis, o diretor e roteirista El Iraqi recobre seus personagens e sua história de complexidade, abordando machismo, exploração, vício em drogas e violência, contando com um terceiro personagem bastante ambíguo, o cafetão Said (Said Bey). 
 
Todo esse imbróglio poderia ser inconsistente se tivesse à sua frente uma dupla menos carismática do que Rajae e Larsen, que extraem o máximo de muitas situações, num filme que não deixa cair o ritmo, jogando a dupla numa frenética jornada - primeiro em Casablanca, depois pela estrada, rumo ao deserto. A música, afinal, está em seu destino, já que Rajae tem uma bela voz.
 
A tensão entre Rajae e Larsen põe em evidência não só uma guerra entre sexos, impregnada de todas as questões de discriminação de gênero imagináveis num contexto conservador e muçulmano, como também é carregada de humanidade. Afinal, trata-se de dois sobreviventes a tragédias muito duras - o que é o caso, aliás, do próprio diretor na vida real, que escapou dos atentados de Paris no Bataclan, em 13 de novembro de 2015. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Summertime 
Summertime, de Carlos López Estrada, é um filme sobre poesia e feito com poesia. Isso pode parecer algo hermético, distante da realidade, especialmente quando se tem em mente a figura idealizada de um ou uma poeta. Nada poderia ser mais diferente do que aqui. O longa, que combina poemas e música, é jovem e pulsa com sua energia e urgência. Foi exibido no Festival de Sundance.
 
Um grupo de cerca de 25 rapazes e garotas de Los Angeles falam de seus dramas cotidianos, dúvidas existenciais e problemas sociais por meio de poemas. López Estrada não é novo nesse mundo e nessa combinação. Dois anos atrás, dirigiu Ponto Cego, cujo clímax era uma batalha de rap incendiária entre dois personagens. Aqui, a estrutura é diferente, mais dispersa e abrangente.
 
O roteiro é coletivo e o elenco é estruturado e construído pelas poesias. Cada poeta escreveu o próprio texto que irá declamar. Por declamar, obviamente, não se espera que as pessoas se comportem como se estivessem num sarau elitista e pomposo. Pelo contrário, as palavras saem na rua, no trabalho, no mercado, aonde for. O resultado é fascinante em seu colorido de tipos de poemas. Summertime é um filme em volume alto e nervoso, tenso e generoso ao mostrar um retrato da juventude contemporânea de Los Angeles com sua diversidade étnica, o que irá refletir-se na arte que produzem.
 
Todos e todas artistas que aparecem no filme fazem parte da Get It, uma ONG de arte cuja missão é definida como “usar a poesia para aumentar a alfabetização, empoderar a juventude e inspirar comunidades”. Vinte e sete adolescentes que participam da organização fizeram um espetáculo, que López Estrada assistiu e decidiu que precisava ser capturado pela posteridade no cinema. O resultado é um retrato carinhoso sobre jovens de hoje e suas questões numa cidade que é um caldeirão cultural. É um filme repleto de ritmo e potência, que deverá falar direto ao coração da juventude – especialmente àqueles e àquelas jovens de espírito.
 
O cinema, como se sabe, é a arte da imagem, mas com seus dois longas, López Estrada o transforma na arte da palavra, dita com ritmo e fugacidade, elevando-a a forma de expressão que delineia o momento com precisão. Certamente, um diretor a se prestar atenção. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
O lodo
O diretor mineiro Helvécio Ratton leva ao cinema o conto homônimo de Murilo Rubião em O Lodo, criando uma atmosfera gótica com algo de kafkiano e sufocante. O protagonista é Manfredo (Eduardo Moreira), funcionário de uma empresa de seguros, sempre preso a funções burocráticas que começa a sentir-se deprimido e busca ajuda de um psiquiatra, o dr Pink (Renato Parara), que logo o diagnostica com depressão e sugere um tratamento. O diretor conta que o que chamou sua atenção na obra do autor foi a combinação de realismo com o fantástico, à la Kafka. "O Lodo é um conto mais desconhecido. Gostei porque é como um novelo, um fio que pode ser puxado, combinando humor sombrio e mistério."
 
Transitando entre o realismo e a fantasia, o filme acompanha a descida de Manfredo ao inferno da insanidade. Primeiro, ele se recusa a aceitar o tratamento negando que esteja doente, e resolve seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Mas, a cada dia que passa, sua vida torna-se mais estranha. O roteiro, assinado por Ratton e L. G. Bayão, atualiza a trama para o presente e mergulha no estranhamento que se acumula ao longo do filme, colocando elementos fantásticos com naturalidade dentro do cotidiano do protagonista. "Sempre li a trama como se fosse do presente, embora o protagonista pareça alguém de outra época, um sujeito deslocado no tempo." O lodo do título logo se materializa como a depressão que consome não apenas sua mente, como também o seu corpo.
 
O elenco é formado em sua maioria por atores e atrizes do grupo mineiro Galpão, que, alguns anos atrás, participou do documentário experimental Moscou, de Eduardo Coutinho. "Eu já tinha trabalhado com o Eduardo [Moreira] em Batismo de Sangue, tinha gostado muito dele. Desde o começo, queria-o para o papel, porque é muito complexo e tinha um tom muito difícil. Os demais atores e atrizes do grupo vieram depois. Precisamos equalizar o tom entre todos. Por isso, fizemos muita leitura, muita preparação, para chegarmos no set já prontos para filmar."
 
O grande entrosamento do elenco, dada sua longa parceria no palco, rende ao filme ótimas interpretações, especialmente de Moreira e Inês Peixoto, como irmã do protagonista que chega no meio da história para tomar conta dele. Ela é uma personagem ardilosa, eco do passado de Manfredo, mostrando-se aliada ao dr. Pink.
 
A fotografia de Lauro Escorel sublinha a atmosfera da trama, que em sua maior parte está restrita a ambientes fechados, ressaltando a asfixia emocional do protagonista. Com uma direção de arte caprichada, O Lodo cria também um estranhamento temporal: sua trama se situa no presente, mas há ecos de um passado – talvez o mesmo passado repleto de feridas emocionais que insiste em perseguir Manfredo. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
As órbitas da água 
O diretor maranhense Frederico Machado faz, há quase uma década, uma espécie de cinema de guerrilha. Com poucos recursos financeiros, seus filmes são investigações metafísicas meticulosamente construídas e com elementos técnicos e estéticos que, não raro, parecem ter consumido um alto orçamento. Está entre uma das habilidades do cineasta fazer muito com pouco dinheiro.
 
Foi assim em obras como O Exercício do Caos e O Signo das Tetas, e não é diferente em As Órbitas da Água - nomes poéticos, aliás, são também uma constante nos seus filmes -, títulos que formam a chamada Trilogia Dantesca. O roteiro, assinado pelo próprio Machado, tem “como norte” (expressão que o próprio diretor gosta de usar) a obra de seu pai, o poeta Nauro Machado, e a poesia é a forma que guia a narrativa, por sua vez, elíptica e onírica.
 
Os personagens centrais são um casal de forasteiros (Antonio Saboia e Rejane Arruda), que chegam a um pequeno vilarejo de pescadores no litoral do Maranhão. Eles trarão uma ruptura à rotina pacata e ao marasmo daquele lugar isolado. A partir daí, Machado faz um novo exercício do caos, investigando a desestabilização de uma comunidade a partir de elementos externos.
 
Consolidando uma narrativa de poucos diálogos, quem fala são os corpos das suas personagens, tomados por desejo e repulsa. Seus movimentos desencadeiam ações e reações em toda a aldeia. Os forasteiros são libertários, e sua chegada trará problemas e alegrias. Machado capta transformações sociais por meios dessas figuras e do ambiente que lhes serve da palco. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org

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