"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Prazeres de Clarice Lispector e um candidato tcheco a uma vaga no Oscar

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Da literatura ao cinema, os prazeres de Clarice Lispector
 
É durante a entrevista, via internet, que a diretora Marcela Lordy se dá conta de que seu O Livro dos Prazeres irá, finalmente, nascer para o mundo na Mostra. Selecionado para outros festivais, o filme já teria estreado se não fosse a pandemia. “O filme ficou em suspenso. Estava pronto no final do ano passado, mas acabei resolvendo mexer de novo. Não queria esperar para poder lançar em algum festival presencial no ano que vem. Tinha que estrear em 2020, ano do centenário da Clarice Lispector”, disse a dretora, em entrevista ao Cineweb.
O longa parte de um dos romances mais cultuados da autora, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de 1969, que acompanha o caso amoroso entre uma professora primária, Lóri, e um professor de filosofia, Ulisses. “Eu não queria fazer um filme romântico, uma história de amor. Eu procurava um amor que se desdobra: é o amor dela pelos alunos, o amor dela por si mesma. São vários tipos.” Essa é uma das principais transformações que a diretora, que assina o roteiro com Josefina Trotta, trouxe para a adaptação.
 
Uma outra é a mudança do foco. Marcela explica que enquanto, no original, é Ulisses quem conduz a transformação em Lóri, que se torna uma mulher mais bem-resolvida consigo mesmo, em seu filme esse processo ela realiza sozinha. “O personagem masculino funciona como um estopim, mas é por ela própria que irá encontrar sua liberdade e autonomia.” Outra coisa que a diretora destaca sobre o ato de adaptar Clarice Lispector é o fato de poder tornar a autora mais acessível. “Há esse mito de que ela é difícil, suas obras, herméticas, e eu queria mostrar que não é bem assim. Dá para levar Clarice para um grande público, como Suzana Amaral fez nos anos de 1980 com A hora da estrela.”
 
O processo de adaptação levou praticamente uma década. Começou no último dia de filmagem de A musa impassível, quando Marcela leu para a protagonista do telefilme, Simone Spoladore, um trecho do romance de Clarice, no Parque da Luz (SP). “Foi tudo simbólico, porque foi lá também que a Suzana filmou cenas de A hora da estrela. A Simone adorou e topou de imediato.” Para o papel de Ulisses, a diretora convidou o argentino Javier Drolas (Medianeiras). “Como era uma coprodução, seria legal ter um latinoamericano no papel. Eu queria alguém que passasse uma sensação de arrogância, mas também precisava ter um certo charme, uma beleza peculiar, do contrário, Lóri jamais se apaixonaria por ele”.
 
Um dos ganhos do filme em relação ao livro está igualmente na atualização sutil da trama e da personagem. A Lóri de Marcela e Simone é uma mulher contemporânea, que sofre por tentar ser independente numa sociedade patriarcal. Alguns elementos trazem os dias de hoje para O livro dos prazeres – como o fato da protagonista dizer que jamais perdoará o pai por ter votado em quem votou – e colocam a personagem em sintonia com o presente. “Era um processo paradoxal, porque a gente queria fazer uma adaptação livre mas, ao mesmo tempo, eu queria algo das palavras de Clarice e assim surgiram algumas narrações.”
 
Marcela confessa que, no filme, tal qual Lóri, encontrou sua voz. “Foi um processo de busca para nós duas. Como ela, eu também cresci e aprendi. Esse é meu primeiro longa para cinema, e o que eu mais busquei aqui foi não ser óbvia.”  (Alysson Oliveira)
 
BELAS ARTES DRIVE-IN
Sessão: quarta (4/11), às 18h40
Endereço: Memorial da América Latina - Entrada pela rua Tagipuru s/n - Portão 2
Valores do ingresso: R? 60,00 para carros com até 4 pessoas.
Capacidade: 100 carros
Ingressos: https://www.sympla.com.br/eventos/drive-in
 
Também disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org

O Charlatão

É fácil entender porque a veterana diretora polonesa Agnieszka Holland interessou-se pelo personagem de Jan Mikolasek (1887-1973), figura central neste O Charlatão, indicado para representar a República Tcheca na disputa de uma vaga no Oscar 2021 em língua estrangeira. Herborista que realizava diagnósticos médicos através da análise da urina dos pacientes, a quem curava prescrevendo chás e unguentos vegetais, Mikolasek tornou-se uma figura conhecida na Tchecoslováquia, cuidando da saúde de ricos e poderosos - até estrangeiros, como o rei inglês Eduardo VI - e atravessando regimes autoritários, como o nazismo e o comunismo.

Interpretado pelo ator Ivan Trojan, o herborista-curandeiro ganha camadas adicionais de complexidade num roteiro, assinado por Marek Epstein, que toma várias liberdades com a biografia do polêmico personagem. Como, por exemplo, afirmar sua homossexualidade, vivendo uma paixão proibida com seu assistente, Palko Frantisek (Junaj Loj) que, apesar de casado, morava com ele. O filme concorreu ao prêmio Teddy no mais recente Festival de Berlim.

Conduzida com sobriedade pela diretora, a narrativa foca nos anos 1950, quando Mikolasek, maduro e famoso, atendia diariamente dezenas de pessoas, em sua concorrida vila no interior tcheco, perto de Praga. O acontecimento definidor da mudança de sua sorte ocorre em 1957, ano da morte do presidente Antonín Zapotocky, seu cliente e protetor. Sem poder mais contar com essa proteção, o herborista passa a ser alvo de pressões, perseguição e lembretes nada gentis para que abandone o país. 

A opção de traçar o perfil do protagonista como um homem duro e misterioso e revelar seu passado aos poucos, em alentados flashbacks, permite ao espectador compassar, também, seus próprios sentimentos em relação a este homem, que atende diariamente tantos doentes, aparentemente sem aproveitar-se economicamente de seu sucesso - embora seja notório que ele vive com bastante conforto, quem sabe remanescente de outros tempos.

Sem preocupar-se com uma fidelidade biográfica estrita que, de qualquer modo, escaparia entre os dedos, a história compõe um personagem rico em contradições, determinado ao assumir seu dom de curar, seu estudo das plantas, seu treinamento com uma mentora que o iniciou na análise da urina - que lhe valeu o pejorativo apelido de “o oráculo da urina” - e, acima de tudo, sua excepcional capacidade de sobrevivência nas condições mais duras. Uma das mais desafiadoras, sem dúvida, durante a invasão nazista, em que, depois de quase ser morto, ser obrigado a cuidar de altas patentes do regime, como Martin Borman - uma situação que, depois da guerra, lhe custará outra espécie de negociação, para livrar-se da suspeita de colaboracionismo.

Procurando não julgar seu personagem, o filme apresenta um ser humano complexo, que a paixão por Palko humaniza e fragiliza sobremaneira. Os elementos fictícios, como o julgamento e o destino final dos dois personagens, são dramaticamente muito fortes e envolventes. Mais uma vez, imprima-se a lenda.  (Neusa Barbosa) 

BELAS ARTES DRIVE-IN

Sessão: domingo (25/10), às 21h21

Endereço: Memorial da América Latina - Entrada pela rua Tagipuru s/n - Portão 2

Valores do ingresso: R? 60,00 para carros com até 4 pessoas.

Capacidade: 100 carros

Ingressos: https://www.sympla.com.br/eventos/drive-in 

Também disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)

Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:

44.mostra.org

Pilatos
 
A obra da escritora húngara Magda Szabó é marcada por tensões domésticas e personagens femininas marcantes. A Porta, seu romance mais famoso, foi adaptado por István Szabó (não há nenhum parentesco entre eles), deixa isso bem claro, colocando em cena uma escritora e sua empregada. Em Pilatos há essa mesma dinâmica, embora, desta vez, entre mãe e filha. O filme começa com a filha lavando as mãos, uma simbologia que estará sempre presente ao longo da narrativa: como lidar com uma questão insolúvel?
 
Anna (Ildikó Hámori) acaba de ficar viúva e, como sempre dependeu do marido para tudo, sua vida está sem rumo, e ela caminhando para uma depressão. Sua filha, Iza (Anna Györgyi), resolve levá-la para morar consigo na cidade grande. O choque entre as duas está armado: são duas gerações, dois estilos de vida, dois mundos diferentes.
 
Mas tudo, tanto na obra de Szabó, quanto no filme assinado por Linda Dombrovszky, é marcado por uma tensão constante e quase silenciosa. Não há grandes brigas entre mãe e filha, não há discussões, mas frustrações que, com o tempo, se acumulam até se tornarem insuportáveis.
 
Dombrovszky dirige um filme claustrofóbico com a maior parte das cenas dentro de casa. Mas, quando há externas, é como se houvesse um respiro para a narrativa. Hámori e Györgyi estão excelentes como mãe e filha numa relação delicada, repleta de sutilezas, palavras não ditas e frustrações que se acumulam. (Alysson Oliveira)
 
Disponível gratuitamente na SpCine Play de 23/10- a 4/11
Outras informações no site 44.mostra.org
 
Suor
 
O aspecto em que o polonês Suor é mais eficiente é em captar o espírito do presente em sua protagonista, uma personal trainer/celebridade, Sylwia (Magdalena Kolesnik), que conta com mais de 600 mil seguidores, o que é seu grande orgulho. Seu estilo de vida é transmitido pelas redes sociais quase que em tempo integral. Acompanhamos, assim como seus fãs, o cotidiano de treinos, compras e algumas futilidades.
 
Escrito e dirigido por Magnus von Horn, o filme não faz julgamento sobre sua protagonista, apenas a observa e nos dá a chance de vê-la como é. Isso é curioso, pois é o retrato de uma jovem tipicamente do presente, como vemos várias surgirem e desaparecem o tempo todo. Kolesnik, uma atriz de teatro na Polônia, domina o filme com seu sorriso grande e seu corpo esculpido, características indispensáveis para conseguir e manter seus seguidores, a quem chama de “meus amores”.
 
Por trás do verniz da felicidade, no entanto, há mais do que ela deixa ver. Uma mulher infeliz e solitária, que vive de sua aparência, num mundo que a suga física e emocionalmente cada vez mais. Uma cena bem reveladora é no aniversário da mãe (Aleksandra Konieczna), ao qual ela leva sua própria refeição natural e se fecha no quarto para comer. A festa terá outras consequências em sua vida também, e será quase como um momento de revelação: ela não é amada e admirada sem restrições. Tudo isso se complica com a chegada de um stalker (Tomasz Orpinski), que traz não apenas à vida dela, mas, também, ao filme, um momento mais sombrio.
 
Von Horn flerta com o grotesco, mas nunca deixa Suor sair da linha. Se o filme é bem-sucedido, muito se deve à interpretação comprometida de Kolesnik, numa personagem que beira o ridículo, mas é humanizada a cada nova cena. Obviamente, o filme é dela, porque Sylwia é uma excelente protagonista e a atriz está à altura do desafio.  (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Assim como acima, abaixo
 
Em Assim como acima, abaixo,  o experimental é potencializado em sua capacidade de (in)compreensão. O documentário da libanesa Sarah Francis constrói-se numa região de dúvidas e poucas explicações. O cenário é uma paisagem lunar e suas possibilidades de investigação social. O terreno onde a diretora pisa é árido, e praticamente inédito, ao colocar o satélite da Terra como uma espécie de palco de uma investigação social.
 
Francis convida à poesia, por isso, é preciso entrar em sintonia com sua proposta e mergulhar na incompreensão e sua fotografia em preto e branco. Uma espécie de filme-ensaio, Assim como acima, abaixo parte de mitos, imagens naturalistas e oníricas, habitadas por humanos que são diminutos e mudos diante da natureza.
 
Pessoas vagueiam num deserto, uma fila se forma na frente e atrás de um balanço, adultos e crianças esperam sua vez. O que querem eles e elas? Todo o filme e suas situações, o ambiente, os sons, as pessoas são pensadas a fim de causar estranhamento e, em certa medida, desconforto. É um filme inquietante em sua diferença, que estaria talvez até mais em sintonia com uma instalação artística do que com o cinema.
 
Em alguns momentos, é um filme frio em seu distanciamento observacional – sempre temos mais ideia do geral do que do particular –, mas deve despertar questões e incômodos que, muitas vezes, é mesmo função do cinema levantar. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org

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