"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Documentário de Wei Wei sobre coronavírus, animação sobre guerra e Bowie antes de Bowie

Neusa Barbosa

Dicas de filmes em exibição na Mostra comentados e recomendados por Neusa Barbosa, do Cineweb
 
Coronation
Valendo-se de vários colaboradores na China, o artista e cineasta Ai Wei Wei compõe, neste novo documentário, um painel da eclosão da pandemia de coronavírus na região de Wuhan, acompanhando o período de lockdown na cidade. Por meio de filmagens de diversos moradores - algumas parecendo ter sido captadas secretamente - e uso de drones, oferece um quadro que impressiona, de um lado, pela capacidade de resposta do Estado chinês, com hospitais extremamente high tech, a mobilização, inclusive voluntária, de milhares de profissionais de saúde e também de brechas nessa aparente perfeição organizativa.
 
Se de um lado pode-se admirar a disponibilidade das equipes médicas, de equipamentos e também de roupas e luvas de proteção (em camadas duplas e sobrepostas), de outro, surgem indícios, a partir dos testemunhos de moradores da cidade, de que faltou transparência nas informações. No início da pandemia, contam alguns, não foi dada a medida da gravidade da situação. Assim, faltaram testes e atendimento, causando mortes que certamente não entraram nas estatísticas. Este, provavelmente o motivo da demissão de quatro autoridades da cidade logo depois.
 
O controle onipresente do Estado chinês, inclusive na difusão de informações, é o que incomoda Wei Wei, um artista dissidente que chegou a ser preso e submetido a abusos e terminou radicando-se na Europa.
 
Alguns segmentos do filme somam mais do que outros para substanciar esta reflexão que Wei Wei procura sempre injetar no seu trabalho, em relação à liberdade e singularidade dos indivíduos diante do Estado. Um deles é, certamente, aquele que mostra uma mãe idosa e seu filho, ela, uma veterana do Partido Comunista, ex-presidente de sindicato com uma folha de serviços extensa e premiada. Na conversa entre os dois, emerge que o filho não compartilha de sua devoção, criticando, por vezes, a eficiência dessa onipresença estatal - para irritação da mãe, que despreza os chineses mais jovens, que sonham em gastar seu dinheiro no exterior, lembrando que, caso morassem fora da China, teriam que gastar altas somas para cuidar de sua alimentação e saúde. 
 
Um segmento mais pungente mostra um filho que perdeu seu pai para a doença - acreditando nas autoridades de que não se tratava de nada tão grave, ele havia enviado o pai de volta a Wuhan, onde ele morreu. Agora, ele luta para buscar, sozinho, as cinzas do pai, enquanto autoridades insistem que alguém o acompanhe neste processo. Firmemente, o filho recusa, exigindo, neste momento final de despedida, estar só com o pai. Não há como não sentir solidariedade com a exasperação que o toma pela dificuldade de realizar um desejo tão simples e compreensível. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Josep
Selecionada para o Festival de Cannes e exibida no Festival de Annecy, esta pungente animação francesa adulta toma como tema uma guerra - a Guerra Civil Espanhola -, poucos meses antes que se inicie uma outra ainda maior, a II Guerra Mundial. 
 
Estreante em longa-metragem, o diretor Aurel tem inequívoca intimidade com o desenho - ele é ilustrador dos jornais Le Monde e Le Canard Enchaîné. E, para alguns dos cenários utilizados no filme, vale-se de ilustrações reais, assinadas pelo personagem que inspira sua história, o desenhista catalão Josep Bartolí (1910-1995).
 
Em fevereiro de 1939, fugiram para a França milhares de republicanos espanhóis, procurando escapar à repressão dos franquistas vencedores. Não encontraram, no entanto, recepção acolhedora, sendo colocados em campos de concentração, onde enfrentaram fome e maus-tratos.
 
Um destes refugiados é o próprio Josep (voz do ator Sergi López). Entre a brutalidade dos guardas franceses, ele conta, inesperadamente, com a generosidade de um deles, Serge (Bruno Solo), que lhe fornece, por exemplo, papel e lápis para desenhar.
 
O roteiro de Jean-Louis Milesi retrata em profundidade essa situação dramática, não poupando a denúncia da crueldade francesa num dos episódios mais vergonhosos da história da alegada pátria da liberdade, igualdade e fraternidade. Graças à solidez dramática do roteiro, a qualidade técnica da animação, que é sublime quando a cor é introduzida no meio do cinza dominante, encontra uma expressão luminosa e grande. Sem perder pé da denúncia e do realismo, infiltram-se igualmente momentos oníricos, como uma curiosa aparição de sonho da pintora mexicana Frida Kahlo - uma musa grandiosa para dar pretexto a uma explosão de cores na tela num tempo àquela altura tão sombrio.
O fio condutor, a amizade entre Josep e Serge também apresenta nuances o bastante para não tornar-se piegas.
 
Desta forma, Josep vibra com uma densidade parecida com a de Valsa com Bashir, em que o diretor Ari Folman compôs outra animação capaz de evocar os horrores de outra guerra, a do Líbano em 1982. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Stardust
Retratar David Bowie antes que ele fosse realmente David Bowie em toda a sua expressão. Essa é a linha de Stardust, o filme de Gabriel Range que mistura fatos e ficção para sintonizar um momento preciso na história do astro britânico, entre 1971 e 1972, em que parece ter-se dado a virada que o consagrou, quando criou o alter ego Ziggy Stardust.
 
O ator e cantor sul-africano Johnny Flynn entra na pele desse Bowie que já está na estrada, tendo lançado Space Oddity e The Man who Sold the World. Sua gravadora, a Mercury, acha que ele tem que conquistar os EUA, onde foi lançado um single, All the Madmen
 
É um tanto curioso ver Bowie como um cantor de convenções de vendedores, restaurantes e barzinhos suburbanos, já que, por falta de um visto de trabalho, que sua gravadora não providenciou, seu divulgador local, Ron Oberman (Marc Moran), não pode levá-lo a palcos maiores.
 
Sublimando a frustração, David se atormenta com fantasmas interiores - como o medo de que a esquizofrenia que corre em sua família o atinja -, se estressa com a mulher, Angie (Jena Malone), por telefone mas, afinal, parece por demais contido. Apesar do figurino exótico, povoado de vestidos e sapatos femininos, maquiagem nos olhos e batom, ele não encontrou ainda sua forma de expressão, nem a conexão com a paixão que o público lhe devotaria pouco tempo depois.
 
Não se trata, é certo, de uma cinebiografia autorizada nem de um filme totalmente fiel à biografia do cantor - há muitos detalhes inventados, como um aviso nos letreiros finais faz questão de observar. De vários modos, o filme é um experimento, uma viagem ao íntimo de Bowie, de quem ele poderia ter sido naquele ano crucial em que ele percorreu a América sem de fato chamar a atenção de ninguém, nem mesmo de Andy Warhol - que o chamou na sua Factory mas nem sequer o teria olhado -, nem de jornalistas de revistas poderosas, como a Rolling Stone
 
Calibrando uma interpretação interiorizada, Johnny Flynn dá conta do recado, usando a própria voz em algumas canções. É um jovem bonito mas realmente não atinge totalmente a ambiguidade carismática do Bowie que todos conhecemos. Este aqui é um projeto, uma ante-sala, uma preparação. E, por isso talvez, um pouco frustrante. 
Quem espera ouvir música de Bowie por aqui, desista - o filme não tinha orçamento para isso. Serão ouvidas canções, claro, mas de outros autores (Jacques Brel, Lou Reed, T. Rex e outros). (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org

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