"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Documentários revelam Chico Rei, Stanley Kubrick e história da Colômbia

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Documentário de Joyce Prado resgata figura de Chico Rei
 
Para a diretora Joyce Prado, a realização do documentário Chico Rei Entre Nós foi a oportunidade de descobrir mais sobre a história do monarca congolês escravizado que se tornou uma figura potente na tradição oral mineira. “A ideia inicial era uma narrativa da vida de Chico Rei, mas acabei virando o filme de ponta-cabeça e buscando o legado dele no mundo contemporâneo”, conta.
Para isso, ela foi a Ouro Preto, em busca dessa história e da cidade (na época chamada Vila Rica), onde Chico Rei viveu. “Eu precisava entender esse espaço, conhecer o lugar”. Foi feita uma pesquisa tanto em locações como junto a comunidades que susttentam até hoje as ideias de igualdade e solidariedade propagadas por Chico, que, trabalhando nas minas, conseguiu comprar sua liberdade, escondendo ouro e depois comprando também a alforria de outros escravos e escravas.
 
“Chico Rei está numa série de comunidades que encontramos e estão no filme. Eu queria que o documentário tivesse muito dessas pessoas, desse legado. Nesse processo, procuramos uma maneira de recontar a história, pois a história dos povos colonizados nunca é contada por eles. Muito pouco se sabe sobre as pessoas que foram trazidas da África para o Brasil. Resgatar esse passado é dar às pessoas pretas a possibilidade de compreender sua consciência social, resgatar espaços de pertencimento, e construir coletivos”.
A diretora e a pesquisadora do filme, Luana Rocha, buscaram aqueles que Joyce define como “personagens sociais”. “Queríamos encontrar pessoas que questionassem a história oficial.”
 
Entre as descobertas que Joyce realizou em Ouro Preto há uma que a impressionou, ligada ao processo e tecnologia de mineração. “O que conhecemos hoje veio dos povos africanos e foi readequado para a realidade brasileira. Mas, originalmente, eram técnicas bem menos agressivas com a natureza.”
 
Chico Rei Entre Nós é um filme de urgência para o presente, em que se discute cada vez mais o racismo da sociedade brasileira. “Com o filme, é possível perceber como o período da escravidão é ainda tão próximo do presente. O racismo é estrutural e combatê-lo é combater o sistema, a precarização das vidas negras.” (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.
 
Kubrick por Kubrick
Ninguém melhor do que o próprio Stanley Kubrick (1928-1999) para descrever suas ideias e métodos de trabalho, aqueles que o conduziram na criação de uma das obras mais originais da história do cinema, de cuja filmografia fazem parte clássicos a serem eternamente revisitados, como 2001 – Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado, Laranja Mecânica, Barry Lyndon, Nascido para Matar e Dr. Fantástico.
O documentarista francês Gregory Monro recorre a preciosos materiais de arquivo, alguns cedidos pela família do cineasta, trazendo entrevistas de Kubrick, além de alguns de seus atores e colaboradores, como Malcolm McDowell, Tom Cruise e Lee Ermey, para compor um mosaico admirável capaz de resgatar ao menos em parte as centelhas do gênio deste cineasta perfeccionista e incansável.
É particularmente elucidativa uma conversa com o veterano crítico francês Michel Ciment, um dos poucos a romper a barreira e conseguir longas conversas com o cineasta, que declaradamente odiava entrevistas. Cenas de alguns de seus filmes mais famosos, acompanhadas de detalhes de bastidores de sua realização, completam o panorama de um documentário enxuto, mas revelador, ainda que não traga propriamente novidades sobre seu personagem – que merece, no entanto, sempre ser lembrado. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
 
Colômbia era nossa
Desde suas primeiras imagens, no meio da floresta, o documentário Colômbia era nossa estabelece o seu tom. Um jovem limpa um rifle Galil ACE, uma arma originalmente desenvolvida e fabricada em Israel. “A mim, parece um rifle lindo, por isso cuido dele”, diz, enquanto suas mãos deslizam pela peça com carinho. “Não ingressamos porque gostamos de lutar ou de armas. Nós ingressamos pelo povo colombiano”, explica esse guerrilheiro das FARC. Dirigido pelos finlandeses Jenni Kivistö e Jussi Rastas, o filme acompanha Ernesto, um dos vários membros da organização.
Premiado no Festival de Göteborg, o filme começa sua narrativa em 2016, quando o presidente da Colômbia, Juna Manuel Santos, assinou um acordo com as Forças Armadas da Colômbia, que lhe rendeu um Nobel da Paz, colocando fim numa guerra civil de décadas. Se a ideia era, obviamente, ótima, a realidade mostra-se mais complexa do que um papel assinado.
 
Kivistö e Rastas investigam a permanência de uma velha ordem das coisas no país marcado, como toda a América Latina, pela desigualdade social e a concentração de riquezas, controladas até hoje pelos descendentes dos colonizadores espanhóis. Em uma mansão repleta de relíquias históricas e luxo, um membro dessa elite, enquanto fuma, diz, com certo cinismo: “As classes altas são como esse cigarro, está ficando menor”. Mas não a ponto de desaparecer. O filme é sagaz o bastante para dar corda a esse rapaz, e ele mesmo, em sua fala, entrega claramente o peso da desigualdade social do país.
O que Colômbia era nossa irá investigar é o peso dessa desigualdade fomentada por anos e anos de exploração dos mais pobres, e o trágico resultado de tudo isso. Políticos fazem uma retórica vazia, sem nunca abordar o problema com profundidade, limitando-se à demonização das FARC no Congresso. Conforme mostra o documentário, é uma situação complexa, não basta um acordo para ser resolvida. A resolução depende de mexer em estruturas sociais e históricas perpetuadas por anos, o que envolve retirar privilégios dos ricos.
Depoimentos dos dois lados do espectro dessa luta jogam luz no país cindido. A fotografia de Jussi Rastas confere ao longa uma textura quase onírica, aproveitando-se especialmente dos tons da floresta tropical. Mas a violência perene sempre entra em cena, e acaba com qualquer possibilidade de esquecer o peso da realidade e do conflito. (Alysson Oliveira)
 
Disponível gratuitamente na plataforma SpCine Play, de de 23/10 a 4/11
 
A Arte de Derrubar
Um movimento que começou na Universidade do Cabo, em 2015, para derrubar a estátua do colonialista britânico Cecil Rhodes, fincada no campus desde 1934, deu o estopim para um ativismo que rapidamente se espalhou por toda a África do Sul, incorporando protestos contra as altas mensalidades das universidades, pela descolonização da educação, o fim do patriarcado e o reconhecimento dos direitos dos LGBTQI+. O documentário A Arte de Derrubar, das diretoras norueguesas Aslaug Aarsaether e Gunnbjorg Gunnarsdóttir, faz um balanço do movimento, que foi conduzido pela primeira geração de jovens nascidos após o fim do apartheid, em 1991. 
 
Ouvindo estudantes, artistas e ativistas, além de valer-se de materiais de arquivo, o filme reconstitui momentos cruciais de uma intensa mobilização em todo o país, usando as redes sociais para criar hasthtags capazes de colocar milhares de jovens nas ruas: #rhodesmust fall, #feesmustfall, #patriarchymustfall, até chegar no #occupyparliament (ocupar o parlamento), motivando uma crescente repressão policial contra os manifestantes.
 
Uma das diretoras do documentário, Gunnbjörg Gunnarsdóttir, conta em entrevista por e-mail ao Cineweb que o projeto começou com a produtora, Ingvild Skage, que estava estudando política comparada no Centro de Direito e Transformação Social da cidade de Bergen (na costa oeste da Noruega). Sua pesquisa incluía movimentos sociais e direitos humanos com ênfase nos direitos LGBT. No mesmo departamento de política comparada, ela conheceu a outra diretora do filme, Aslaug Aarsæther. Gunnbjörg, por sua vez, dirigia videoclipes e projetos de ficção e era a que tinha mais experiência com cinema. Fora isso, conhecia a África do Sul desde criança, tendo visitado o país muitas vezes. 
 
Quanto ao movimento dos estudantes sul-africanos em si, Gunnbjörg admite que não tinha muito conhecimento prévio, mas isto foi utilizado por ela como um ferramenta: “Acabou sendo uma coisa boa eu não saber tanto sobre o conflito, porque sendo uma história tão complexa, passei muito tempo tentando entender por mim mesma, para que pudesse também tornar mais fácil para o público em geral entender”.
 
Ao mesmo tempo, a diretora ressalta as dificuldades iniciais para abordar os integrantes do movimento:: “Chegando à Cidade do Cabo, percebemos logo que não seria fácil conseguir que os ativistas conversassem conosco. Éramos três mulheres brancas heteronormativas de um dos países mais privilegiados e com igualdade de gênero no mundo. A história deles estava longe de ser a nossa história, portanto. Acho que foi muito graças à experiência da produtora e de outros diretores em estudos de política comparada que possibilitou que tivéssemos os contatos certos nos lugares certos. Enquanto fazíamos este filme, aprendemos muito sobre as experiências pessoais e os traumas dos ativistas que, na verdade, eram apenas alunos normais como quaisquer outros. O movimento Fallista causou um grande impacto em suas vidas e é com o maior respeito que compartilhamos suas histórias neste filme”.
 
Exibido em festivais como Cinéma du Réel, Hotdocs e Bergen International Film Festival, o documentário tem força ao dissecar vários momentos da mobilização, suas nuances, seus grupos internos e suas contradições - a mais veemente delas, a lentidão para compreender as reivindicações dos grupos LGBTQI+, que reclamaram, com razão, de não terem sido devidamente abraçados entre as principais causas do movimento. 
 
Revendo um processo de mudança ainda inconcluso, em 2019, A Arte de Derrubar avalia, no entanto, avanços ocorridos em todas as áreas, em termos das mudanças de nomes de prédios públicos e políticas para minorar o alto custo das taxas escolares, num país em que as universidades são particulares. (Neusa Barbosa)

 

Disponível gratuitamente na plataforma SpCine Playde 23/10 a 4/11
 
Eeb allay ooo!
O indiano Eeb allay ooo! (e essa não é uma frase em hindi) é um filme inusitado, com um protagonista cujo trabalho é espantar macacos das ruas de Nova Deli. É uma premissa que, por si mesma, já causa curiosidade, mas o diretor, o estreante Prateek Vats, vai além. Coloca isso tudo como uma sátira da dinâmica de poder em seu país, governado pelo primeiro-ministro Narendra Modi, cujo governo direitista se vale de uma retórica nacionalista e polarizante. É bem verdade que o filme poderia ser mais incisivo em sua crítica, mas o roteiro, assinado pelo diretor e Shubham, tem sua graça e seu charme.
Anjani (Shardul Bhardwaj) acabou de chegar a Nova Deli, e vai morar com a irmã grávida e o cunhado (Nutan Sinha e Shashi Bhushan). Sem estudo e muitas opções, sua família arruma um emprego de espantador de macacos, uma função para a qual ele também não tem competência. Na Índia, Hanuman é uma entidade religiosa com feições símias, elevando os animais a um patamar sagrado. O distrito de Raisina Hill foi tomado por macacos Rhesus, cuja única forma de controle é feita por homens que reproduzem seus sons – o título é uma dessas tentativas – e os espantam para fora da cidade.
Anjani é tão inábil que nem os sons ele é capaz de imitar, por isso, inventa de espalhar fotos de macaco langur-cinzento pela região para espantar os Rhesus, o que quase custa o seu emprego. Mas o protagonista vai além disso, vestindo-se como um langur, e a humilhação que começa a sofrer transforma-o, criando uma espécie de consciência que o levará a fazer uma performance com a fantasia do animal.
O filme preza pelo realismo, sem numa deixar se levar pela fantasia, mesmo com a premissa incomum. Também se mostra respeitoso com a profissão dos espantadores de macacos, destacando que sua função, quando feita por um profissional qualificado, é extremamente necessária – em oposição ao ridículo de um curioso qualquer tentando fazer o mesmo trabalho. Já a fotografia de Saumyananda Sahi valoriza os espaços da cidade – o filme foi rodado em locação. (Alysson Oliveira)
 
Disponível gratuitamente na plataforma SpCine Playde 23/10 a 4/11

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