"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Crises existenciais no feminino e no masculino

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Mulher-oceano
Atriz de refinada expressão no cinema e no teatro, Djin Sganzerla estreia na direção com este longa em que ela interpreta dois papeis, a escritora Hannah e a nadadora Ana. Como em A Dupla Vida de Véronique, de Krysztof Kieslowski, a ideia de um duplo embasa a narrativa sobre duas mulheres quase idênticas, que vivem em dois lugares diferentes do mundo, no caso, Tóquio e o Rio de Janeiro, num roteiro assinado por Djin e Vana Medeiros.
A duplicidade desta mulher ganha um encadeamento, já que Hannah é uma escritora, vivendo temporariamente em Tóquio, e Ana, a personagem que passa a habitar as páginas do romance que ela escreve.
Há várias camadas desdobrando-se neste filme muito orgânico em seus processos, em que as duas personagens relacionam-se intimamente com duas geografias muito diferentes – a alta tecnologia e ambiência clean de Tóquio, a vitalidade colorida e desordenada do Rio, pontuada sempre por um grande mar, que é essencial a uma parte fundamental da história de Ana.
É singular como a diretora aproxima a identidade de duas cidades tão distintas através de personagens e rituais tão tipicamente pertencentes a cada uma delas. No caso de Tóquio, as “amas”, as tradicionais pescadoras de mariscos, capazes de mergulhar a vários metros de profundidade em mar aberto, contando apenas com um fôlego desenvolvido ao longo de décadas. No caso do Rio, os rituais de Iemanjá, unindo as pontas do sagrado com a essencial vitalidade de um filme que desperta a beleza e a sensibilidade na pele. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Sessão no Belas Artes Drive-in – Domingo (1/11), 18h40
Endereço:
Memorial da América Latina - Entrada pela rua Tagipuru s/n - Portão 2.
Valores do ingresso: R? 60,00 para carros com até 4 pessoas.
Capacidade: 100 carros. 
 
Sibéria
Willem Dafoe volta novamente a estrelar um filme dirigido por Abel Ferrara – depois do recente Tommaso (2019) e de Pasolini (2014). O veterano ator norte-americano encarna de corpo e alma a figura de Clint, um homem maduro que se interna num refúgio no meio das montanhas e da neve, e vive uma realidade assombrada por lembranças, fantasmas de toda a vida, alucinações e desejos que tomam corpo à luz do dia.
A narrativa se impregna de toda uma desordem emprestada do onírico, do pesadelo, nesta trajetória de um homem que se interroga sobre as relações mal-resolvidas com o pai (interpretado também por Dafoe) e as mulheres de sua vida, em cenários naturais deslumbrantes, não raro magníficos. A fotografia de Stefano Falivene, aliás, é um dos pontos altos de uma história que tem dificuldade em contar-se, em fazer sentido, em expandir-se de modo mais grandioso.
Dafoe, um ator de muitos recursos, é a melhor coisa do filme, sendo capaz de entregar vulnerabilidade e despertar compaixão, num relato que se vale muito de um contexto natural, repleto de montanhas, neve, abismos e habitado por animais – como a parelha de huskies que conduz Clint ao longo da neve e cujas expressões são alguns das melhores lembretes da capacidade de empatia que animais podem compartilhar com seres humanos e também do lado selvagem que faz parte do DNA de ambos.
Talvez por essas múltiplas camadas que o ator imprime a todas as suas interpretações e pela riqueza visual que emoldura a trajetória de Clint, o filme ganha uma certa permanência em nossas retinas, em nossa pele. Como poderia tornar-se mais rico, também, se algumas dessas mulheres ao longo do filme ganhassem algumas notas a mais, além da sacralidade da beleza (da belíssima mulher grávida) e da mágoa rancorosa da esposa. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org 
 
Problemas com a natureza
O filósofo irlandês Edmund Burke entrou na vida do diretor e roteirista dinamarquês Illum Jacobi por acaso. Ele conta que pesquisava na Wikipedia sobre o sublime quando, inevitavelmente, esbarrou no nome do pensador do século XVIII. “Então li seu livro sobre as origens das ideias sobre o belo e o sublime. O que mais me chamou a atenção foi o que ele diz sobre como o mundo natural pode alterar nosso estado psicológico.”
 
Dessas inquisições de Jacobi sobre Burke e o mundo natural nasceu Problemas com a natureza, um belo filme de época sobre a jornada que realizada pelo filósofo nos Alpes franceses, em companhia de uma criada para reescrever seu livro sobre o sublime. Para escrever o roteiro, o diretor contou com a colaboração do professor de literatura Hans Frederik Jacobsen. “Ao lado dele, pensei num filme que não fosse uma biografia convencional, mas momentos-chave. Descobrimos que Burke perdeu tudo em sua vida e culpava seu fracasso nos investimentos na plantação de cana do irmão em Granada. Para ele, sua ruína fora causada pela natureza do começo ao fim.”
 
Para resgatar a viagem de Burke (Antony Langdon) e Awak (Nathalia Acevedo), Jacobi rodou o longa na região do Mont Blanc, “cruzando fronteiras invisíveis entre a França, Itália e Suíça”. “A equipe era de apenas quatro pessoas para que pudéssemos nos deslocar nas regiões mais remotas. Uma equipe muito grande tornaria tudo inviável. Outra dificuldades que enfrentamos era evitar captar imagens de prédios e cidades que podiam ser vistas ao longe.”
 
A estética do filme é toda inspirada nos movimentos artísticos do século XVIII, tanto que a imagem do famoso quadro Caminhante sobre o mar de névoa, de Caspar David Friedrich, é literalmente recriada. “Na medida em que o pensamento de Burke caminha do racionalismo iluminista para uma compreensão de que o mundo é incontrolável, as imagens seguem o mesmo caminho. Trabalhamos com uma luz bem realista, afinal na época dele só havia luz natural e velas. Queríamos dar a ideia de um road movie do século XVIII, e isso impedia também de trazer iluminação artificial.”
 
Com o orçamento apertado, ainda mais para um filme de época, rodado em locação, e tão longe de um grande centro, Jacobi teve de fazer economia, por isso, escalou amigos para os dois personagens centrais. “Conheço o Langdon há anos, e acho que o potencial dele até hoje não foi devidamente explorado, por isso escrevi o filme para ele. Natalie é uma amiga em comum, e isso trouxe uma grande oportunidade de levar a história ao sublime. A personagem dela é bastante complexa. Não apenas é o contraponto a Burke, como existe nela a tomada de consciência de sua identidade indígena e sua relação com a natureza. Na medida em que o filme avança, sua narrativa cresce. Vejo-a como uma espécie de mãe-natureza, que carrega o fardo de nossas ambições egoístas. Queríamos criar um filme que mostrasse nossa relação bizarra com a natureza pelos olhos de uma personagem na qual pudéssemos nos ver. A distância histórica é uma oportunidade para refletir como viemos parar nessa bagunça.” (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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44.mostra.org
 
Rose interpreta Julie
Recém-nascida, Rose (Ann Skelly) foi dada à adoção. Agora adulta, resolve procurar a verdade sobre si e acaba chegando a Ellen (Orla Brady), uma atriz que é sua mãe biológica. Rose interpreta Julie parte dessa premissa para transitar entre dois gêneros cinematográficos: o drama e o suspense. Escrito e dirigido pela dupla Joe Lawlor e Christine Molloy, o longa toma caminhos estranhos, nem sempre bem resolvidos, mas bem armados.
 
Há uma recusa aos clichês e, quando o filme parece ir para um caminho, as coisas mudam. A primeira parte é dominada por Rose e sua mãe. A jovem tem uma crise sobre se deve ou não entrar em contato com a mulher, pensando no que isso implicará em sua vida. Ao descobrir que Ellen está vendendo sua casa, finge-se de compradora e vai até lá para descobrir mais sobre a vida da mãe. Aí conhece sua meia-irmã.
 
Mas o filme não é sobre isso: uma mulher confrontando a mãe que a abandonou – ao menos, não apenas sobre isso. Ela quer saber quem é seu pai, como diz, é um direito dela. Mesmo relutando, Ellen conta sua história, sem entrar em detalhes, que é como a de tantas jovens que engravidam, são abandonadas e não têm condições de criar a filha. É a partir daí, quando o pai, o arqueólogo Peter (Aidan Gillen), entra em cena, o longa toma outro caminho também inesperado.
 
Há algo de Claude Chabrol na maneira quase gélida como a trama caminha. O filme também flerta com um tom do macabro discreto do escritor inglês Ian McEwan, mas o que há de mais interessante é como lida com a culpa do ato da mãe de entregar a filha à adoção. Diferente da narrativa mais comum de culpabilizar a mulher, o longa e Rose voltam seus interesses ao personagem masculino, que abandonou a mulher grávida.
 
Lawlor e Molloy filmam algumas cenas com precisão cirúrgica e um tom quase totalmente frio – especialmente as aulas de Rose na faculdade de medicina veterinária. Isso vai sendo justificado ao longo do filme, que estabelece seu tema logo no título, Rose interpreta Julie, uma figura que inventa para entrar em contato com a mãe; quando procura o pai, ela finge ser uma atriz. E a ideia de representação serve como uma metáfora poderosa dentro da história. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Pari
Em português, o título do drama grego Pari ganha um sentido duplo involuntário mas bem-vindo. Pari é o nome da protagonista, interpretada com força pela atriz iraniana Melika Foroutan, mas a palavra também é a conjugação do verbo “parir”, o que tem tudo a ver com a jornada de uma mãe em busca de seu filho desaparecido. O diretor e o roteirista Siamak Etemad, de origem greco-iraniana, cria a jornada de uma mulher que se vê jogada numa situação extrema e inesperada num país que não conhece.
 
Pari chega a Atenas com o marido Farrokh (Shahbaz Noshir), um homem bem mais velho do que ela e pouco paciente. Coberta por seu xador, a protagonista faz de tudo para agradar ao marido, mas ambos, logo no aeroporto, se deparam com uma cultura desconhecida. Ela, por exemplo, precisa jogar fora a comida que trouxe para o filho na mala, pois não pode entrar no país com aquilo. O rapaz, estudante universitário, não vem buscá-los e logo descobrem que está sumido.
 
Logo Pari se vê sozinha pelas ruas de Atenas, em busca do filho desparecido. É uma jornada que a leva ao submundo, cercada por coisas que a assustam, como revolução, anarquismo e prostituição. Na poesia persa, que serviu de inspiração para Etemad, essa busca é conhecida como “saudade de uma pessoa amada”, e é algo profundo, que jamais poderá ser superado.
 
A trajetória de Pari pode não ser o tempo todo verossímil. Talvez o filme tome caminhos que façam a transformação dela, de uma esposa muçulmana tradicional para uma mulher um pouco mais livre, parecer muito rápida, mas a força materna que a move em busca do filho desaparecido é repleta de sinceridade e marcada por uma grande atuação. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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