"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

Energia da diversidade incendeia "Onde voam as feiticeiras"

Neusa Barbosa

Visões periféricas, à margem da normatividade, povoaram as primeiras imagens do Olhar de Cinema, o festival curitibano que iniciou sua nona edição, nesta quarta (7), totalmente online, com o inédito Para onde voam as feiticeiras, do trio de diretores Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral. O festival prossegue até 15 de outubro.
 
Desde o início, torna-se claro que se trata um filme a desafiar classificações. Estendendo o alcance do trabalho anterior de Eliane, o premiado Era o Hotel Cambridge (2016), esta nova experiência cinematográfica investe totalmente na improvisação, criando uma dinâmica que une arte de rua, performance, debate e muito mais nas ruas do centro de S. Paulo.
 
Todo este processo muito vivo é criado diante das câmeras por artistas de todo gênero e etnia, incluindo Preta Ferreira, Mariano Mattos Martins, Gabriel Lodi, Fernanda Ferreira Aslich, Wan Gomes, Ave Terrena Alves, indígenas Guarani e passantes na rua que atendem ao convite de participar.
 
Entre estas expressões artísticas, que incluem música, dança, teatro, pantomima, intercalam-se debates sobre gênero, raça, racismo, violência colonial e policial e o lugar que cada um dos presentes ocupa nesse caldo social que produz o atual estado de coisas - incluindo os diretores do filme, cuja condição de brancos privilegiados, de classe média e donos do poder de decidir o que entra ou não no filme é colocada em questão.
 
Mais de uma vez, embates ocorrem de maneira tensa - como quando moradores de rua agridem membros da equipe ou, mais ainda, numa áspera discussão com pregadores evangélicos na Praça da Sé em torno da transexualidade, da qual participa o pastor progressista Henrique Vieira. É importante lembrar também que o filme foi realizado pouco antes das eleições de 2018.

De sua instabilidade, de sua fluidez, de sua incerteza - afinal, o que é este filme e onde quer nos levar? - é que Para onde voam as feiticeiras extrai sua autenticidade e beleza, sintonizando um processo de fragmentação de conceitos que vem volatizando o País, mas que aqui tem o sentido da procura de caminhos. Aqui ouve-se as vozes aqueles daqueles a quem se procura negar o poder, como negros, indígenas, transexuais, artistas de rua, pobres, sem-teto, moradores de ocupações do centro de S. Paulo (notadamente, da Ocupação Nove de Julho, que foi o cenário de Era o Hotel Cambridge).

De uma forma inteligente, os diretores procuram contextos e conexões com o que está ocorrendo fora de seu epicentro, utilizando na montagem cenas de violência policial e passeatas pela igualdade de gênero não só do Brasil, como em outros países - lembrando que a inquietação por novos valores é universal. E cabe à intelectual norte-americana Judith Butler, numa participação em vídeo, a definição de uma das buscas mais caras que resultaram deste filme - a busca de alianças. As afinidades que se procura entre grupos são em torno de patamares mínimos de civilização e respeito entre todas as diferenças. Diversidade, acima de tudo - e é em torno dela que o filme abre com uma saudação à deusa astecaTlazoltéotl.

O fascínio dos faquires

Helena Ignez é o tipo da mulher, da artista, da cineasta que nunca cessa de nos surpreender com sua percepção e inteligência, tornando-nos hóspedes de seu olhar curioso e sagaz mais uma vez no documentário Fakir.

Resgatando seu próprio espanto quando viu, aos 10 anos de idade, levada pelo pai, o então famoso faquir Silki em Salvador, Helena explora as figuras de vários homens e mulheres que transformaram em profissão a complexa arte de passar fome, dor ou compartilhar um cubículo com cobras. Mais homens do que mulheres, é bom que se diga, embora as últimas tenham sido objeto de um livro, Cravo na Carne, de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, em que Helena descobriu mais informações sobre elas - feminilizando, a partir daí, seu enfoque. 
 
Helena enumera histórias de façanhas, como a de Lookan, que bateu um recorde mundial de 126 dias sem comer mas que protagonizaria uma outra história, mais sangrenta: casado com a faquir Yone, matou-a numa crise de ciúmes, diante dos próprios filhos.
 
Helena compartilha sua perplexidade diante das razões que levaram estas pessoas, quase todas de origem humilde, a expor-se voluntariamente a privações e desconfortos, testando os limites do corpo dentro de claustrofóbicas caixas de vidro, expostas à curiosidade geral e à imprensa sensacionalista em particular. O que faz alguém tornar uma rotina tão exasperante o seu modo de vida? Nem se pode falar em dinheiro, porque nenhum deles enriqueceu. Masoquismo talvez, ou desejo de superar as fronteiras de algo inusitado ao seu alcance. Ao não fechar suas conclusões sobre estas figuras polêmicas, Helena apenas prolonga nossa aceitação sobre o que é humano, inexplicavelmente humano, neste espetáculo que, décadas passadas, costumava merecer uma atenção semelhante à que agora alcançam estes não menos desconcertantes.reality shows. 
 
Um ponto fora da curva é a naturista, atriz e ativista feminista Luz del Fuego (1917-1967), lembrada por suas danças com cobras e alcançando uma projeção fora deste círculo marginal que ocupavam os faquires e faquiresas. Del Fuego encarna, mais do que todos, o aspecto sensual destas artes um tanto assombrosas e transgressoras.
Estendendo sua narrativa para os dias atuais, Helena encontra Maura, mulher trans que vive com uma cobra, cujas imagens abrem e fecham este filme curioso.

Próxima exibição: segunda (12-10) (ingresso de 5,00 válido por 24h no site do festival)

SERVIÇO
9º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro
No site do Olhar de Cinema
R$ 5 por filme
Dinâmica das sessões
Os filmes serão exibidos no próprio site do Olhar de Cinema. Cada título estará disponível por tempo limitado dentro da programação. O número de ingressos para cada filme é limitado.

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