"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

No Olhar de cinema, mulheres em busca de novos territórios

Neusa Barbosa

No terceiro dia do Olhar de Cinema, alguns filmes se deatacaram por retratar mulheres, caso do documentário Nardjes A., de Karim Aïnouz, sobre uma jovem ativista na Argélia. A diretora Déa Ferraz, por sua vez, criou um dispositivo para que vários artistas expressem suas inquietações diante de um panorama político repressor, em Agora. E Paula Gaitán entrega o resultado de um projeto que lhe custou 15 anos no caudaloso Luz nos Trópicos, em que mergulha em identidades, deslocamentos e processos históricos da América Latina. 
 
Nardjes A.
Filho de um pai argelino, o cineasta cearense Karim Aïnouz (A Vida Invisível) foi ao encontro destas raízes pela primeira vez em fevereiro de 2019. A ideia era fazer um documentário sobre sua família, o que ele fez. Chegando ao país no momento em que cresciam as massivas manifestações de rua contra a quinta candidatura do presidente Abdelaziz Bouteflika, 82 anos, o diretor teve a chance de captar um levnate popular em formação. Assim, realizou este outro documentário, em torno da jovem ativista Nardjes Asli, que se torna sua antena e um símbolo do que acontecia naquele momento no país.
Colando seu smartphone a Nardjes, Karim acompanha 24 horas de sua vida, no dia 8 de março de 2019 - Dia Internacional da Mulher e uma sexta-feira, o dia semanal de protesto  para pedir a saída de Bouteflika, que ocupava o poder há 20 anos.
Este dia na vida de Nardjes permite mergulhar não só na gênese de um movimento que começou mais ou menos espontaneamente e teve o poder de crescer como um rastilho de pólvora, desvendando um pouco do espírito dos argelinos - um povo orgulhoso de ter conquistado, com batalhas e muito sangue, sua independência dos franceses, em 1962.
Uma síntese desse passado colonialista está mesmo na linguagem de Nardjes, que passa do francês ao árabe sem transição, para apresentar um pouco de um país que, naquele momento, está quase todo nas ruas. São em sua maioria jovens e homens, mas muitas mulheres, de todas as idades, algumas bastante idosas, e até crianças, juntam-se a esse movimento que pede, basicamente, que o país lhes seja devolvido. A gerontocracia da Frente de Libertação Nacional, que liderou a guerra de independência contra os franceses, tornou-se, ela mesma, opressora das liberdades e deve partir.
O filme capta a singularidade deste movimento das ruas, chamado Hirak, que encara o medo da tropa de choque, com seus jatos d’água e gás lacrimogêneo, com canções e danças, com abraços e bandeiras enroladas nos corpos, nas cabeças e nas mãos, ao lado de cartazes em várias línguas.
Terceira geração de militantes pela liberdade de uma mesma família, Nardjes acredita, como seus amigos, que chegou a hora de tomarem o controle do país para que os jovens tenham emprego e esperança. A primeira batalha, contra Bouteflika, foi ganha - ele renunciou. Mas seu partido continua no poder. O Hirak continua. 
 
Exibições especiais
Sessão:
Segunda (12) - .o filme fica disponível 24 h nesse dia no site do festival (www.olhardecinema.com.br). Ingresso: R$ 5,00.

Agora
Diretora versada na criação de dispositivos para explorar seus temas, como Câmara de Espelhos (2016),um singular experimento sobre a persistência do machismo,e Modo de Produção (2017), olhar afiado sobre o mundo do trabalho, a pernambucana Déa Ferraz lança-se em Agora a uma interrogação sobre o sombrio tempo presente do Brasil, com a preciosa aliança de alguns artistas. 
Feito logo depois das eleições de 2018, com recursos próprios, o filme guarda na própria carne seu sentido de urgência. O ambiente é um cenário despojado num estúdio, uma caixa escura, em que focos fixos de luz iluminam os artistas que se sucedem, tentando responder à pergunta - afinal, onde nos encontramos a partir de agora? Como inserir o corpo neste momento histórico, como transformá-lo em instrumento de resposta e enfrentamento ao que se afigurava já como um período de sombras?
Usando seus corpos, estes artistas, versados no teatro, na música, na poesia e na dança, vão criando seus caminhos, recorrendo ou não a objetos cênicos - uma faixa no chão, um lenço, um nariz de palhaço, um rolo de plástico-bolha, um quadro, tambores, vozes que declamam, declaram ou cantam. Se o visual é minimalista, a intenção nunca o é, transcendendo a economia de recursos com multiplicações narrativas instigantes.
A montagem de Joana Collier costura essas expressões corporais, que materializam tantas ideias e sensações, conectando-se com as impressões de quem assiste e se sente, igualmente retido num cubículo - esta uma metáfora inevitável não só de um posicionamento político como do confinamento imposto pela pandemia da covid-19, que ainda não existia quando o filme foi realizado, estendendo ainda mais o alcance deste filme singular.
Fica com a gente a frase poderosa, entoada por uma das artistas: “Avisa os inimigos que abriremos mais janelas do que todas as janelas que há no mundo”. Algumas delas foram abertas já no filme.
 
Mostra Novos Olhares
Duração: 70min
Sessões:
Sexta (9) e terça (13) - o filme fica disponível 24 h nesses dias no site do festival (www.olhardecinema.com.br). Ingresso: R$ 5,00. 
 
Luz nos trópicos
Selecionado para a mostra Fórum do Festival de Berlim, o novo filme da diretora Paula Gaitán (Exilados do Vulcão) é uma jornada sensorial extensa (4h20) e exigente. Trafegando entre dois tempos, o atual e o século XIX, acompanha as jornadas de um personagem indígena, Igor (Begê Muniz) e de colonizadores europeus (interpretados por atores como Carloto Cotta, Clara Choveaux e Arrigo Barnabé), variando texturas para traduzir na tela esses percursos pessoais e históricos, alternando cores e preto-e-branco. 
No tempo atual, o jovem Igor investe na retomada do contato com uma comunidade de seu povo Kuikuro, permitindo ao filme retratar seus modos de convivência, trabalho e dança e compartilhar um pouco a cosmologia por trás de uma visão de mundo tão diferente da europeizante, imposta a ferro e fogo aos povos colonizados. 
Com imagens extremamente belas (fotografia de Pedro Urano), captadas em diversos lugares, alguns deles que a onda de queimadas atual parece querer erradicar de nosso território  - Pantanal, Parque do Xingu, Chapada dos Guimarães -, outros nos EUA (Concord, Walden Pound e Nova York), Luz nos Trópicos não tem como ser usufruído senão com a entrega a uma viagem sensorial nestas paisagens e deslocamentos de corpos, que permita uma reflexão sobre processos históricos que constituíram a identidade dos povos latino-americanos. 
Mas esta é apenas uma das possibilidades de leitura de um filme tão vasto, cujo projeto foi desenvolvido ao longo de 15 anos.
 
Mostra Competitiva
Duração: 260 min
Sessões:
Sexta (9) e terça (13) - o filme fica disponível 24 h nesses dias no site do festival (www.olhardecinema.com.br). Ingresso: R$ 5,00.

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