"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

O sertão eterno do Brasil na obra de Geraldo Sarno

Neusa Barbosa

O veterano diretor baiano Geraldo Sarno revisita sua obra mais famosa, Viramundo (1965) e vai além, estendendo uma ponte às eternas divisões do Brasil em Sertânia. Uma amostra singular da França atual emerge de Um Filme Dramático, documentário realizado a longo de quatro anos em que o diretor Éric Baudelaire entregou a câmera a pré-adolescentes de Saint-Denis, subúrbio multiétnico de Paris. 
 

Sertânia

O sertão eterno de Guimarães Rosa revive em Sertânia, novo filme do veterano diretor baiano Geraldo Sarno que revisita a própria obra e as suas referências com um frescor de vitalidade. Aos 82 anos, o diretor de Viramundo (1965) e Coronel Delmiro Gouveia (1978) repassa uma das cisões trágicas da identidade brasileira, o choque entre o sertão e a cidade, a partir da história do cangaceiro Antão Gavião (Vertin Moura).
 
Com uma fotografia belíssima, de Miguel Vassy, em preto-e-branco luminoso, não raro estourada muito além do sempre lembrado Vidas Secas (1964), de Nelson Pereira dos Santos, o filme estrutura-se no longo delírio de agonia de Gavião - com direito e repetições que remetem ao atavismo das relações sociais no Brasil, de uma história marcada por cicatrizes de cortes violentos, caso de Canudos, episódio central na vida do protagonista.
 
Sobrevivente, com a mãe (Kécia Prado), do genocídio final de Canudos, em que morreu seu pai, o menino Antão vem com ela para São Paulo, sob a proteçãol de um militar, que o encaminha para o mesmo destino. Com a morte da mãe, Antão decide retornar às suas raízes, entrando para o bando do capitão Jesuíno (Júlio Adrião).
 
A narrativa é conduzida com a ambição de um diretor que não temeu alternar camadas realistas, contemplando as incursões dos cangaceiros nas cidades, onde se manifesta a ambiguidade das relações do capitão com as elites locais; fantásticas, como a procura de Gavião pelo pai no reino dos mortos (com direito a uma conversa com o pioneiro industrial Delmiro Gouveia, interpretado por Lourinelson Vladmir); e até metafóricas, desnudando o mecanismo da representação ficcional ao mostrar as câmeras e técnicos da produção - o que não deixa de ser uma forma de aproximar os tempos, o da história narrada e o nosso.
 
O próprio diretor tem repetido, em entrevistas, que temia que seu filme não fosse compreendido pelas plateias atuais. A exibição de Sertânia em festivais, como o de Havana, em 2019, de Tiradentes, em janeiro de 2020, e anteriormente no online Ecrã, no entanto, lhe deram outra resposta - o filme tem sido calorosamente acolhido. O que demonstra que ele fala ao coração mais profundo, com imagens que perduram na retina e perturbam por encontrar tantas ressonâncias do passado no tenebroso tempo presente..

Mostra: Olhares Brasil

Sessão:
Segunda (12) - o filme fica disponível 24 h nesse dia no site do  festival . Ingresso: R$ 5,00.
 
Um filme dramático
Quatro anos foi o tempo que o cineasta Éric Baudelaire investiu neste projeto, em que se entregam câmeras a alunos do Collège Dora Maar, uma escola pública de ensino médio de Saint Denis, subúrbio ao norte de Paris, para que retratem sua vida, sua identidade, sua paisagem. O que deve ou não estar num filme é o ponto de partida deste trabalho, em que pré-adolescentes de ambos os sexos e de várias origens étnicas discutem aspectos de uma realidade complexa que não lhes escapa, apesar da pouca idade e da capacidade ainda incipiente de elaboração.
 
Todos eles sabem, por exemplo,o que quer dizer morar no seu endereço, representado pelo código 93 - ser periférico e, por conta disso, encarado com preconceito pelos moradores da capital. A sensação se acentuou drasticamente depois dos atentados terroristas de 2015, já que ali foram presos os responsáveis pela morte de 129 pessoas em vários locais de Paris.
 
Nesta situação e em muitas outras, fica claro o quanto vários destes meninos e meninas têm consciência de questões políticas. Não ignoram, por exemplo, que Donald Trump e Marine Le Pen - candidata presidencial na época - são racistas. Sabem que políticos como eles defendem a expulsão de estrangeiros, tema que os toca de perto, já que boa parte de seus pais não nasceram na França.
 
O filme não pretende, no entanto, tornar-se um experimento sociológico - mostra ter mais interesse mesmo nos mecanismos de representação simbolizados pela posse da câmera, que é usada em viagens, explorações dos arredores da escola, debates de grupos de alunos e confissões pessoais nas casas de alguns.
 
Tomando estas partes pelo todo, Um Filme Dramático não deixa de expor uma amostra do que a França é, ou está se tornando, ou pode vir a ser. Em termos de futuro, pelo menos, as esperanças de alguns dos garotos já se mostram prejudicadas. Filho de marfinenses, o articuladíssimo Guy-Yanis Kodjo manifesta a total percepção de ter muito menos chances de um dia vir a tornar-se presidente do país onde nasceu. O racismo e a xenofobia já começaram, tão cedo, a fazer parte de sua vida. 

Mostra: Competitiva

Sessão:
Segunda (12) - o filme fica disponível 24 h nesse dia no site do festival.
Ingresso: R$ 5,00.

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