"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

Olhares para a imigração, a guerra e o deslocamento

Neusa Barbosa

Uma visão intimista de uma família de imigrantes mexicanos nos EUA está presente no delicado Los Lobos, de Samuel Kishi Leopo, premiado em Berlim. Traços da guerra dos Bálcãs são resgatados em O que resta/revisitado, da alemã Clarissa Thieme. E o brasileiro Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança, tematiza o mal-estar e a busca de identidade entre o Brasil e Moçambique. 
 
Los Lobos
O segundo longa do diretor mexicano Samuel Kishi Leopo, grande vencedor da mostra Generation Kplus de Berlim, soma intensidade e delicadeza no retrato do dilema de uma mãe, Lucia (Martha Reyes Arias), que emigra para os EUA com seus dois filhos pequenos, Max (Maximiliano Nájar Márquez) e Leo (Leonardo Nájar Márquez). O filme nos coloca sob a pele dela, uma mulher sozinha, abandonada pelo companheiro drogado e enfrentando todas as vicissitudes de uma imigrante pobre e ilegal.
 
Ela é obrigada a trabalhar em jornadas extenuantes como operária e faxineira, deixando os filhos num apertado apartamento, com ordens expressas de nunca saírem de lá - exceto se o prédio pegar fogo.
 
Boa parte da narrativa retrata o confinamento e a solidão dos meninos, brincando um com o outro e espiando a vida lá fora. Neste jogo interior/exterior, o filme equilibra uma notável tensão dramática, criando expectativas sobre a incursão deste mundo externo na vida dos meninos, este território por ora proibido e que encerra perigos reais e imaginários.
Há, nesta crônica da vida imigrante, um fino toque documental, como quando o diretor focaliza pessoas diversas de Albuquerque, Novo México, onde se passa a história, olhando para a câmera e encharcando ainda de mais humanidade este relato sincero e envolvente.
 
A naturalidade destes dois meninos, irmãos na vida real, é apaixonante e fruto da atuação de uma brasileira - a preparadora de elenco Fátima Toledo, que realiza aqui um de seus melhores trabalhos.
 
Mostra Competitiva
Sessão:
Terça (13) - o filme fica disponível 24 h nesse dia no site do festival.
Ingresso: R$ 5,00
 

O que Resta/Revisitado

Retomando um curta que realizou em 2010, a cineasta e artista multimídia alemã Clarissa Thieme volta à Bósnia Herzegovina, revisitando locais que fotografara há 10 anos e haviam sido palcos de crimes na Guerra dos Bálcãs. 
 
Reproduzindo suas fotos em imensos paineis, que são abertos para comparação, p à paisagem atual, Clarissa e sua equipe procuram também ouvir os habitantes sobre os acontecimentos passados e as mudanças desta última década.
Alguns não querem falar de nada disso, evidenciando como os traumas ainda permanecem, especialmente entre os mais velhos. Outras vezes, a equipe reencontra pessoas que conhecera 10 anos atrás ou outras que reconhecem personagens nas fotos. Também há casos em que emergem memórias amargas, como as de um velho casal, que reconstruiu sua casa rural, na mesma propriedade em que foram assassinados os pais de ambos - cujos corpos eles puderam encontrar, porque alguém que conheciam os havia sepultado. Outras famílias não puderam nem mesmo contar com isso e ainda hoje procuram seus desaparecidos.
 
O dispositivo de erguer os grandes cartazes diante das paisagens é um tanto repetitivo e poderia ter sido usado com mais agilidade e menos rigor em algumas situações. Também se sente falta, ocasionalmente, de que a câmera estivesse mais próxima ou menos estática, permitindo mais empatia e envolvimento. De toda forma, o filme consegue captar momentos significativos.
 
Novos Olhares
Sessão: terça (13) - o filme fica disponível 24 h nesse dia no site do festival.
Ingresso: R$ 5,00.
 
Um animal amarelo
A crise da reinvenção de identidades é um dos temas do brasileiro Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança. Já exibido previamente em festivais internacionais - teve première mundial em Roterdã e passou no Indie Lisboa e San Sebastián - , e nacionais (foi premiado em Gramado), coproduzido em parceria com Portugal e Moçambique, Um animal amarelo embarca na inquietação de um aspirante a cineasta, Fernando (Higor Campagnaro), que enfrenta uma herança familiar abominável, a partir de um avô, Sebastião (Herson Capri), desmatador e obcecado pela ideia de enriquecer com a mineração - o típico “empreendedor” da era do neoliberalismo.

Como de hábito na obra de Bragança - que assinou A Alegria (2010) e Não Devore meu Coração (2017)  -, a narrativa é anárquica e povoada de alegorias e metáforas mais ou menos debochadas. E assim o protagonista embarca numa série de aventuras em Moçambique, onde se envolve com um trio de habitantes locais que excretam pedras preciosas de seus corpos - liderados por Catarina (Isabel Zuaa), que empresta sua voz à narração em off ao longo do filme, sempre ironizando Fernando.  

Esta narração onipresente cria um estranhamento, constituindo uma das inúmeras referências a Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, a quem o filme é dedicado nos créditos finais. Sem dúvida, Fernando também é, como Macunaíma, um heroi - ou anti-heroi - sem nenhum caráter, embora lhe falte ter por trás a densidade da obra de Mário de Andrade, que inspirou o filme de 1969.
 
Fora a citação a Joaquim Pedro, é evidente que Um animal amarelo tem altas ambições. Na coletiva online de Gramado, o diretor e corroteirista Felipe Bragança descreveu seu filme desta forma: “É uma falsa genealogia de um autor, de um criador se colocando num lugar de neutralidade, que se mostra impossível. Ele só pode ser atravessado pelas ruínas coloniais do passado, tanto no Brasil, quanto na África, tudo isso embalado por uma rapsódia com muitas camadas e acumulação de vários tempos”.
 
Bragança acredita que os dilemas de seu protagonista representam, de algum modo, o momento que o País enfrenta hoje. “Vivemos uma crise de processo histórico que abre uma brecha no tempo. A gente se ilude achando que vive num tempo só. Vários tempos convivem em nós, a gente os carrega. Inclusive os futuros possíveis”. 
 
Resultado de um concurso do PRODECINE para filmes culturais que não mais existe, Um Animal Amarelo contou com uma verba de R$ 2,2 milhões. A ela, foram acrescidos mais US$ 150.000, vindos de um Protocolo Luso-Brasileiro que, igualmente, está inativo. Fatos esses lamentados pelo diretor: “A gente hoje está assistindo ao desmonte de tudo o que funciona”. 
 
Olhares Brasil
 
Sessões: domingo (11) e quinta (15) -  o filme fica disponível 24 h nesses dias no site do festival.
Ingresso: R$ 5,00.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança