"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

Buscas do pai, da identidade indígena e do mal-estar da juventude

Neusa Barbosa

A busca de um pai que ela mal conhece leva a cineasta Mariah Garnett à Irlanda do Norte, que ela radiografa pessoal e politicamente em Trouble. Os diretores Sueli Macaxali e Isael Macaxali resgatam o vigor de rituais de seu povo em Yâmihex - as mulheres-espírito. Grande vencedor em Tiradentes, O Canto dos Ossos percorre referências de filmes de terror. E é o último dia para ver o documentário Nardjes A., de Karim Aïnouz. 
 
Trouble
A cineasta norte-americana Mariah Garnett estreia neste potente documentário compondo não só o procurado perfil de seu pai, David Coleman, como de todo um período conturbado da história da Irlanda de Norte, onde ele nasceu, durante o período chamado “Troubles” - ou seja, dos sangrentos conflitos entre republicanos católicos e unionistas protestantes, com duríssima repressão da Inglaterra, entre 1968 e 1998. 
 
Nascida nos EUA, após uma breve aventura de seu pai com sua mãe (uma história que fica faltando contar no filme), Mariah vai ao encontro dele, que mora em Viena, retomando um contato que, em toda a sua vida fora esparso - até ali, quando ela tinha 27 anos, tinham tido apenas quatro ou cinco encontros.
 
O interessante é como o filme foi tomando forma ao longo do caminho, seguindo rotas que a diretora não havia previsto, também pela negativa do pai de seguir algumas de suas sugestões. Mariah queria voltar com ele à Irlanda, que ele abandonou em 1971, para revisitar os locais de sua juventude, bem como sua militância esquerdista, no partido People’s Democracy, e a história do breve namoro com Maura McMillan, com diversas consequências para a mudança de seu destino, já que ele era protestante e ela, católica.
 
Uma reportagem da BBC da época que colocara como personagens os namorados dos lados em guerra expôs suas vidas de maneira dramática, começando a sofrer pressões e ameaças de todos os lados. A partir dessas imagens da TV da época, que o pai sequer havia visto até agora, Mariah extrai um fio condutor para explorar aquele contexto político conturbado, entrevistando colegas de militância do pai na Belfast pacificada de hoje.
 
Mariah mostra intuição, energia e talento para incorporar seus desacertos e dúvidas no corpo do documentário, valendo-se também de ótimo material de arquivo e recorrendo a um curioso recurso ficcional - ela mesma interpreta o papel do pai em reencenações de seu passado, usando a voz dele nos relatos, e também escalando a atriz trans Robin Reihill para interpretar a então namorada dele, Maura.
 
Estas reencenações e também as inesperadas reações de alguns moradores de Belfast à passagem de Mariah e sua trupe de filmagem injetam uma espontaneidade e bom humor que contribuem para um retrato mais vívido deste país.
O filme foi exibido no BFI London Film Festival, New York Film Festival e CPD: Dox.
 
Mostra Outros Olhares
Sessão: quarta (14) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Canto dos Ossos
Grande vencedor do mais recente Festival de Tiradentes, o longa dos cearenses Petrus de Bairros e Jorge Polo  mergulha nas referências dos filmes de terror para sinalizar um mal-estar juvenil num mundo estranho.
 
A narração em off (com texto de Noá Bonoba) descreve a situação de monstros, que são “tão eternos quanto seus perseguidores”. Estes monstros são vampiros e vivem uma sexualidade voraz, sob todas as formas da diversidade. Quando surpreendidos em seus atos sangrentos e até canibais, eles não são olhados com espanto ou horror, não raro, há mesmo entrega de outros que, até ali, não faziam parte de seu grupo. É como se se vivesse num tempo em que tantas coisas parecem surreais e deslocadas que a expressão dessa fisicalidade animal fosse apenas um novo normal.
 
Filmada entre Armação de Búzios (RJ), Canindé e Fortaleza (CE), a narrativa usa como cenário uma cidadezinha praiana e seus recantos mais desertos e escuros, para que estes personagens jovens se encontrem, conversem e se entreguem a todas as formas de encontros carnais, regados a muito sangue. Uma trama paralela inclui uma escola e uma empresa de turismo e treinamento educacional, procurando tecer relações entre esta estranheza onipresente com um aspecto sócio-político, relacionando os circuitos empresariais que movimentam o mundo, mas esta ligação não é muito orgânica ou estruturada. O mais forte do filme é mesmo uma ambientação que remete às convenções do terror, não raro em parte subvertendo-os também, com uma pulsão de procura e também todas as incertezas deste processo.
 
Mostra Olhares Brasil
Sessão: terça (13) - o filme fica 24 h disponível nesse dia no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Yâmihex - as mulheres-espírito
Considerado o melhor longa da mostra Olhos Livres pelo júri jovem do mais recente Festival de Tiradentes, o documentário dirigido por Sueli Macaxali e Isael Macaxali olha por dentro um sério ritual desse povo, que tem ao centro as chamadas “mulheres-espírito”.
 
O pertencimento da dupla de cineastas à realidade que retratam dá às imagens uma legitimidade de quem registra cerimoniais importantes para sua própria identidade cultural, incluindo danças, cantos, preparação de vestidos, performances, preparo de comida, oferendas e uma série de atividades.
 
Não escapa, também, à realização do filme um sentido de urgência, já que pertence às mulheres mais velhas da Aldeia Verde (MG), onde se realiza a filmagem, o conhecimento de todas as etapas dos rituais, que se estendem ao longo de uma semana, com a participação, maior ou menor, de todos os membros da comunidade, das crianças aos mais velhos. 
 
Uma parte inicial remete a uma lenda ancestral em que se baseia o próprio mito das “mulheres-espírito” e que registra uma história de vingança de mulheres contra homens, um recorte de gênero singular que se estende aos rituais ainda hoje mantidos, opondo e integrando homens e mulheres. 
 
Esse contexto inicial permite aos espectadores não-indígenas compreender parte da ambientação do que se verá a seguir. No entanto, fica faltando um pouco mais de informação ao longo do filme para que plateias não familiarizadas com a cultura macaxali possam compreender outras etapas do que é visto na tela - o que de modo algum retira energia ao que efetivamente se produz diante das câmeras dos cineastas indígenas, exercendo com propriedade seu lugar de fala.
 
Mostra Olhares Brasil
Sessão: quarta (14) - o filme fica disponível 24h nesse dia no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Nardjes A.
Filho de um pai argelino, o cineasta cearense Karim Aïnouz (A Vida Invisível) foi ao encontro destas raízes pela primeira vez em fevereiro de 2019. A ideia era fazer um documentário sobre sua família, o que ele fez. Chegando ao país no momento em que cresciam as massivas manifestações de rua contra a quinta candidatura do presidente Abdelaziz Bouteflika, 82 anos, o diretor teve a chance de captar um levnate popular em formação. Assim, realizou este outro documentário, em torno da jovem ativista Nardjes Asli, que se torna sua antena e um símbolo do que acontecia naquele momento no país.
 
Colando seu smartphone a Nardjes, Karim acompanha 24 horas de sua vida, no dia 8 de março de 2019 - Dia Internacional da Mulher e uma sexta-feira, o dia semanal de protesto  para pedir a saída de Bouteflika, que ocupava o poder há 20 anos.
 
Este dia na vida de Nardjes permite mergulhar não só na gênese de um movimento que começou mais ou menos espontaneamente e teve o poder de crescer como um rastilho de pólvora, desvendando um pouco do espírito dos argelinos - um povo orgulhoso de ter conquistado, com batalhas e muito sangue, sua independência dos franceses, em 1962.
 
Uma síntese desse passado colonialista está mesmo na linguagem de Nardjes, que passa do francês ao árabe sem transição, para apresentar um pouco de um país que, naquele momento, está quase todo nas ruas. São em sua maioria jovens e homens, mas muitas mulheres, de todas as idades, algumas bastante idosas, e até crianças, juntam-se a esse movimento que pede, basicamente, que o país lhes seja devolvido. A gerontocracia da Frente de Libertação Nacional, que liderou a guerra de independência contra os franceses, tornou-se, ela mesma, opressora das liberdades e deve partir.
 
O filme capta a singularidade deste movimento das ruas, chamado Hirak, que encara o medo da tropa de choque, com seus jatos d’água e gás lacrimogêneo, com canções e danças, com abraços e bandeiras enroladas nos corpos, nas cabeças e nas mãos, ao lado de cartazes em várias línguas.
 
Terceira geração de militantes pela liberdade de uma mesma família, Nardjes acredita, como seus amigos, que chegou a hora de tomarem o controle do país para que os jovens tenham emprego e esperança. A primeira batalha, contra Bouteflika, foi ganha - ele renunciou. Mas seu partido continua no poder. O Hirak continua. 
 
Exibições especiais
Última sessão:
Segunda (12) - .o filme fica disponível 24 h hoje no site do festival
Ingresso: R$ 5,00.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança