"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

O primeiro filme de Raúl Ruiz reencontrado e a Amazônia eterna em risco

Neusa Barbosa

O primeiro filme que estava perdido de Raúl Ruiz, O tango do viúvo e seu espelho deformador (1967) renasce com a parceria criativa de sua viúva, a montadora Valeria Sarmiento. A Amazônia ameaçada pela ação humana emerge do documentário O reflexo do lago, de Fernando Segtowick, exibido em Berlim. E uma singular cidade quase fantasma nos EUA ocupa o centro de Victoria, misto de documentário e auto-ficção. 
 
Victoria
Está aqui um filme que expande os limites do documentário e da autoficção, seguindo as trilhas abertas por seu protagonista, Lashay T. Warren, Jovem trabalhador negro, pai de quatro crianças, ele se mudou da superlotada Los Angeles para a vazia California City - a terceira maior cidade do estado em extensão, fundada 50 anos atrás por um homem que sonhou ver nela uma segunda Los Angeles no meio do deserto.
 
Trabalhando no serviço de conservação urbana dessa cidade que mais parece um cenário de faroeste, Lashay é o guia ideal para desbravar o traçado destas ruas cuidadosamente mapeadas e nomeadas no papel mas, na prática, com imensos vazios, sem casas, engolidas pela areia, os arbustos secos e percorridas, eventualmente, apenas por animais, como lobos, tartarugas, aranhas e cascavéis.
 
Dirigido por um trio de diretoras belgas - Sofia Benoot, Liesbeth De Ceulaer e Isabelle Tollenaere -, o filme não se limita a contar a vida local sob o ponto de vista de Lashay, sua família e seus amigos. Embarca na autoficção de seu protagonista, um homem que transforma suas obscuras vivências passadas em reflexões sobre tudo que o cerca num diário, cujos trechos ouvimos em sua voz. 
 
Perpassando as diversas camadas do filme, ao acompanhar Lashay à escola, onde ele completa os créditos para obter um diploma de ensino médio, traça-se um paralelo entre os moradores de Cal City e os pioneiros do século 19 que ali passaram, através de cartas por estes deixadas. Este é apenas um exemplo da sofisticação narrativa - sem contar a sonora e imagética - que este filme extraordinário é capaz de incorporar.
 
Mostra Competitiva
Sessão - quinta (15) - o filme ficará disponível nesse dia por 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00 
 
O tango do viúvo (e seu espelho deformador)
Na extensa e primorosa cinematografia do chileno Raúl Ruiz (1941-2011), faltava seu primeiro filme, o longa O Tango do Viúvo (1967), interrompido e dado como perdido por várias décadas. Um feliz acaso permitiu a localização de seis dos seus sete rolos, em 2017, levando a viúva do cineasta e montadora de todos os seus filmes, Valeria Sarmiento, a lançar-se num trabalho não só de recuperação como de parceria criativa. 
 
Sem contar com o roteiro nem com o som original, Valeria empreendeu uma verdadeira arqueologia da obra, contando com a parceria de especialistas para recuperar parte dos diálogos originais através de leitura labial. A partir daí, ela elaborou um esboço de roteiro (em parceria com Omar Saavedra Santis) e uma primeira montagem, ainda insuficientes, no entanto, para dar uma feição à obra. Lembrou-se, então, de que Ruiz sempre sonhou fazer um filme em que as imagens se alinhassem em sentido normal e, em contraste, conduzidas em sentido inverso, num jogo imagético e temporal que Valeria assumiu, tornando-se coautora do filme nesse e em outros sentidos. Os atores originais, já mortos, foram dublados por um elenco atual. A trilha sonora ficou a cargo de Jorge Arriagada, velho colaborador de Ruiz.
 
Na trama fantástica, um viúvo, o professor Clemente Iriarte (Rubén Sotoconil), é perturbado por visões da mulher morta, Maria (Claudia Paz), supostamente suicida e agora um fantasma insistente. Não o ajudam suas relações com um sobrinho, Joaquín (Luis Viches), que mora com ele, ou com o velho amigo Silva (Luis Alarcón) e sua mulher - que tentam aproximá-lo de outra viúva, Lola (Shenda Román).
 
As referências realistas perdem-se de vista, enquanto o professor embarca cada vez mais numa jornada de pesadelo, traduzida em imagens de ponta-cabeça e neste recurso de retrocesso de todas as ações vistas até ali, inclusive com deformações sonoras. Parece o tipo de universo que a imaginação de Raúl Ruiz habitaria mas que atingiria uma riqueza dramática maior em filmes como Genealogias de um crime (1997), Crônica da Inocência (2000) e Mistérios de Lisboa (2011). 
 
Mostra Exibições Especiais
Última sessão: quinta (15 - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
O reflexo do lago
O cineasta paraense Fernando Segtowick condensa neste documentário, exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim, um multifacetado balanço dos impactos da hidrelétrica de Tucuruí, cuja construção começou em 1976, concluída em 1984, uma duvidosa joia da coroa do regime militar. Mas não o faz de uma forma convencional e sim incorporando sua câmera à vida de diversos dos moradores da região, cujas casas, falas e impressões passamos a compartilhar. O longa baseia-se no livro O lago do esquecimento, de Paula Sampaio. 
 
De várias formas, é como se o espectador do filme passasse também a habitá-lo, navegando nos barcos que são o meio de transporte básico desta região do lago do Tucuruí, entre os rios Tocantins e Caraipé, no Pará. Apesar da beleza que resiste, apesar de tudo, opta-se por uma fotografia em branco-e-preto que, sóbria e luminosa, se aproxima mais do enfoque realista pretendido.
 
Entremeando imagens da vida cotidiana dos ribeirinhos, com suas festas, jogos, confraternizações e interações familiares, pontua-se lembranças da violência do processo de construção da hidrelétrica. Um dos raros especialistas aqui ouvidos relembra os desastrosos impactos ambientais produzidos pela obra, que deveriam ter sido cuidados pela Capemi (Caixa de Pecúlio dos Militares), empresa previdenciária militar que teve seu escopo legal modificado na época para assumir a limpeza do lago - o que não fez - e fornecer caixa 2 que sustentasse a candidatura do general Otávio Medeiros, chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), à presidência, visando sustar o prosseguimento da “distensão lenta e gradual” levada a cabo pelo presidente-general Ernesto Geisel. Candidatura que, afinal, não prosperou.
 
Este depoimento lembra como é indispensável resgatar a História, especialmente num momento em que os militares tentam, mais uma vez, reescrever seu próprio passado para erigir-se como salvadores da pátria.
 
No todo, O Reflexo do Lago suscita uma oportuna reflexão sobre a importância da Amazônia dentro do País, questionando a visão de domínio e conquista da natureza a ferro e fogo que, há décadas, coloca em risco sua existência, mais do que nunca no atual governo.
 
Mostra Outros Olhares
Última sessão: quinta (15 - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
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