"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

Testemunhos de geografias distantes e uma única humanidade

Neusa Barbosa

Diretor do premiado Homens que Jogam (2018), o diretor esloveno Matjaz Ivasinin passou à ficção com o saboroso Oroslan, que acumula relatos sobre um idoso morador de uma cidadezinha, que morreu. Da Índia vem Nasir, de Arun Karthik, premiado em Roterdã e que aborda o perigo do nacionalismo hindu contra a minoritária comunidade muçulmana tâmil contando um dia na vida de um vendedor de tecidos. 

Oroslan

Vencedor do Olhar de Cinema 2018 com seu saboroso documentário Homens que Jogam, o cineasta esloveno Matjaz Ivasinin passa à ficção com este não menos singular Oroslan, que concorreu na mostra Cineastas do Presente do Festival de Locarno.
 
É uma ficção, que ao final se declara inspirada num conto, Foi Exatamente Assim que Aconteceu, de Zdranko Dusa, mas que o tempo todo remete às convenções do documentário. Depoimentos buscam resgatar quem foi, afinal, esse Oroslan - um conhecido morador de uma bucólica cidadezinha húngara, onde vive uma larga comunidade eslovena, e que acaba de morrer.
 
O próprio cineasta se coloca em cena, carregando a câmera e conversando com seu acompanhante, irmão do morto. Os dois falam sobre suas próprias vidas, inserindo-se naquele contexto do qual, finalmente, emergem os relatos que formam o perfil de Oroslan, um exímio abatedor de porcos, bêbado, epiléptico e tido como solidário e engraçado.
 
Filmado num texturizado 16 mm, Oroslan tem uma composição imagética cuidadosa e sutil, acompanhando as mudanças de estação neste lugar em que o tempo parece mover-se muito devagar, estendendo relações sólidas. É como se o cineasta estivesse pintando com um fino pincel estes lugares que constituem a identidade local, como o bar, a processadora de carne, as casas, os rostos, as falas. E, com muita habilidade, foi capaz de incorporar na trama não só as palavras como os silêncios de cada um ao recordar a vida de um homem comum cuja história pertence à de todos os outros.

Mostra Outros Olhares (não ná mais sessões)

Nasir

Premiado em Roterdã, o filme do diretor Arun Karthik apresenta com um colorido e sutileza especiais a vida de Nasir (o diretor teatral Kouramane Valavane), um vendedor de tecidos muçulmano, da comunidade tâmil. Estamos na cidade natal do diretor, Coimbatore, na parte oeste de Tamil Nadu. A câmera de Saumyananda Sahi captura uma série de detalhes para prover de contexto a vida deste homem comum - as ruas estreitas, as casinhas humildes e amontoadas, os objetos do dia-a-dia, as ligações precárias de eletricidade, um canto de céu, uma planta, uma sombra na parede, close-ups de rostos e mãos que nos aproximam deste microcosmo.
 
A suavidade com que se dedica a perfilar tanto Nasir, quanto sua mulher, Taj (Sudha Ranganathan), não encobre que o filme pretende também falar de outra coisa - a intolerância crescente contra os muçulmanos numa Índia cada vez mais envenenada pelo nacionalismo hindu, estimulado pelo partido do primeiro-ministro Narendra Modi, o Baharatiya Janata (Partido do Povo Indiano).
 
O barulho contrastante de dois alto-falantes introduz o conflito - de um lado, as orações e avisos de uma mesquita; de outro, os slogans raivosos dos nacionalistas hindus em suas manifestações. Andando pela rua placidamente, Nasir e Taj inserem-se nesse clima sonoro, aparentemente sem se abalar. Tocam sua vida, como sempre. 
 
Taj viaja para o interior, onde vai ajudar familiares que realizam um casamento. Nasir dirige-se à loja de tecidos e roupas onde trabalha, um cenário em que, mais uma vez, se recorda a multirreligiosidade da Índia - para marcar que o local está aberto a todos os clientes, na parede ostentam-se símbolos de três religiões do país, hinduísmo, islamismo e cristianismo. Mas a convivência pacífica entre todos é apenas aparência. Numa conversa telefônica banal, o próprio dono da loja, Manickam (Bharath Rawal), manifesta seus preconceitos contra os muçulmanos, sem se importar que o escutem.
 
Boa parte do filme apresenta um dia normal na vida de Nasir, um empregado que trabalha de sol a sol, não só dentro da loja, como fazendo entregas e até prestando serviços pessoais ao patrão, como levar almoço ao seu filho adolescente na escola. Seus respiros são um encontro com um velho conhecido, que o leva para almoçar, e uma rápida passada em casa, onde vai ver como estão sua mãe idosa e doente (Yasmin Rahman) e o filho adotivo, Iqbal, jovem com deficiência. Um belo momento é quando os colegas lhe pedem que leia um de seus poemas - e ele também gosta muito de música, o que permite ao filme algumas elipses.
 
Constantemente, compartilha-se os pensamentos de Nasir, que elabora seus planos, pensando na família e num possível emprego prometido em Abu Dhabi. Tudo isso é cortado drasticamente por um encontro violento, que o filme veio preparando, mas, ainda assim, é chocante.

Mostra Competitiva (não há mais sessões)

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Yâmiyhex - As mulheres-espírito

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