"Luz nos Trópicos" vence o Olhar de Cinema

Olhar de Cinema termina com exibição de "Antena da Raça", lembrando Glauber Rocha

Neusa Barbosa

Termina nesta quinta (15) a nona edição do Olhar de Cinema, pela primeira vez totalmente online. A cerimônia de premiação será transmitida pelo canal do Olhar no YouTube, às 19h, divulgando-se os escolhidos dos júris das mostras Competitiva, Outros Olhares e Novos Olhares/Melhor Filme Brasileiro, além do Prêmio da Crítica, concedido pela Abraccine, o Prêmio AVEC-PR, além de um novo prêmio, o Cinefilia, concedido àquele que assistiu a mais filmes ao longo do festival.
 
O filme de encerramento será Antena da Raça (foto ao lado), de Paloma Rocha e Luís Abramo, que resgata diálogos, trechos, cenas dos filmes e entrevistas feitas pelo diretor Glauber Rocha e os atualizam com personagens reais, atores da nossa tragédia contemporânea. A sessão começa às 20h do dia 15. 
 
Abaixo, alguns dos destaques dos últimos dias e os filmes que terão sua última sessão neste dia final da programação:
 
A Metamorfose dos Pássaros
A diretora portuguesa Catarina Vasconcelos atinge o sublime nesta crônica densa e original sobre a sua família, entretecendo ficção, documentário, poesia e história social numa produção extremamente bem-cuidada, profunda e sem o menor traço de autocondescendência. Recorrendo a materiais da própria família, ela reconstitui a história do casal Henrique e Beatriz, seus avós, ele marinheiro, ela, dona de casa e mãe de seis filhos - entre eles, o pai de Catarina, Jacinto. 
 
Preenchendo as lacunas desta história de passagem de gerações, a diretora compõe um percurso encharcado de realidade mas também de licenças ficcionais. Afinal, a quem interessa saber ao certo se aquilo se passou exatamente assim ou não? As histórias não são assim mesmo, repletas de versões discordantes, de memórias complementares ou diluídas ? Que assim seja. O fato é que o filme é capaz de levar seus espectadores aos meandros do próprio passado, das próprias vivências, afinal, todos as temos parecidas com o clã Vasconcelos - inclusive, as perdas de mâes, um traço que une pai e filha..
 
É notável a maneira sutil e orgânica como Catarina impregna seu relato intimista de um contexto histórico - lembrando o passado colonial de Portugal e a sombra da longa ditadura salazarista. A ênfase está numa verdade humana, que se sustenta no belíssimo texto em off em que as vozes de diversos personagens se alternam, e em imagens verdadeiramente ricas de significado (fotografia de Paulo Menezes). Uma gravação final, com as vozes infantis de diversos personagens, é o fecho ideal de um filme que carregamos conosco bem depois que as imagens se apagam na tela.
 
Não por acaso, A Metamorfose dos Pássaros chega com uma série de prêmios em festivais, como o FIPRESCI da seção Encontros do Festival de Berlim, e diversos outros no IndieLisboa, Dokufest, San Sebastián e Taipei.
 
Mostra Competitiva (não há mais sessões)
 
Cavalo
Este original longa alagoano - o primeiro produzido no estado a partir de fomento público - une documentário, performance e ficção de uma forma orgânica para resgatar, a partir de sete jovens artistas afrodescendentes, um trecho da rica e ainda não devidamente conhecida experiência afro-brasileira. Ao mesmo tempo em que estes artistas ensaiam e criam o espetáculo que dá nome ao filme - e que já traduz sua relação umbilical com as religiões de matriz africana -, eles são vistos em suas casas, com familiares e amigos, ou ocupando com seu corpo e movimentos cenários naturais, dançando, falando, se expressando de várias formas.
 
Há uma construção estética sofisticada na fotografia de Roberto Iuri e na montagem de João Paulo Procópio e Werner Salles, que é um dos diretores, ao lado de Rafhael Barbosa. Nessa construção, entram os elementos naturais, especialmente a água, permitindo ao filme capturar algumas das conexões míticas da identidade afro-brasileira.
 
Há muito material para impactar olhos e ouvidos sem que faltem substância e contemporaneidade, suscitando as ligações entre estes momentos individuais dos artistas num todo mais complexo, a imensa diversidade étnico-cultural do Brasil, mais do que nunca necessitando de expressão e preservação. 
 
Mostra Olhares Brasil (não há mais sessões)

Los Conductos
Coprodução entre Colômbia, Brasil e França, o primeiro longa do diretor colombiano Camilo Restrepo, conhecido por curtas como Cilaos e La Bouche, tem a contenção dramática e a energia precisas para desvelar a história de Pinky (Luis Felipe Lozano) - um jovem viciado em drogas que esteve, por um bom tempo, envolvido com um misto de seita e gangue em Medellín.
 
A verdade do personagem está em que ele revive ficcionalmente experiências próprias, movendo-se em subterrâneos e becos escuros, em que apenas focos de luz conduzem nosso olhar. A fotografia - assinada por Guillaume Mazloum e Cécile Plais - constrói toda a tensão deste relato, de um minimalismo intenso, que escancara a falta de perspectivas de jovens como Pinky - que o diretor conheceu nas ruas de Medellín, fazendo malabares.
 
Nutrindo-se deste desejo do próprio ator de reconstituir, catarticamente, experiências muito duras de sua vida nas ruas e na criminalidade, o filme expande-se incorporando também camadas literárias, como o poderoso texto visto no final, Elegia da Vingança, de Gonzalo Arango.  
 
A experiência do próprio Restrepo, afinal, também está na tela. Nascido em Medellín, ele partiu da cidade, anos atrás, quando era considerada a mais perigosa do mundo, abalada pelas guerras de cartéis locais. Não via futuro ali para trabalhar em cinema, partindo primeiro para a Espanha, depois para a França, onde se radicou. Mas nunca perdeu de vista suas raízes, como neste poderoso drama sobre a inviabilidade econômica e política de uma Colômbia que desampara sistematicamente seus filhos, estes jovens que, como Pinky, não encontram alternativas de sobrevivência senão trabalhar para o crime organizado, que por vezes se mascara sob um aspecto religioso.
 
Em termos cinematográficos, Los Conductos tem uma força impressionante, na fotografia em 16 mm e num excepcional trabalho de som (de Josefina Rodríguez e Matthieu Farnarier), com diálogos dublados pelos atores e que também teve incluídos efeitos na pós-produção, na Argentina. Esta soma de elementos trabalha em favor da potência de uma narrativa enxuta, num filme que foi premiado como melhor obra de estreia do Festival de Berlim, do qual participou na seção Encounters.

Mostra Novos Olhares (não há mais sessões)

Cabeça de Nêgo

O longa-metragem ficional de estreia do diretor Déo Cardoso tematiza, muito oportunamente, o racismo estrutural no Brasil a partir de uma escola pública no Ceará. Um dos alunos, Saulo (Lucas Limeira), recebe uma ofensa racista e reage, empurrando o ofensor. Na iminência de ser mandado fora da classe, sem que o outro seja sequer advertido, Saulo começa ali uma ocupação de um homem só, recusando-se a sair.
 
Este é o estopim de uma revolta dos alunos, que vai encorpando do lado de fora dos muros, enquanto a direção da escola e parte dos professores mobilizam-se para expulsar o rapaz.
 
Há, na história, aspectos que enriquecem o perfil de Saulo, um bom aluno que é apaixonado pelos Panteras Negras e Ângela Davis - uma influência de uma das professoras, Elaine -, movendo o enredo para a ambição maior de discutir a identidade negra e a luta antirracista, dentro ou fora do Brasil. 
 
Isto também acontece mediante a inclusão de imagens de líderes como Martin Luther King, Mandela e Malcolm X, dos próprios Panteras, como Fred Hampton (o favorito de Saulo), e menções a Marielle Franco, Abdias do Nascimento e Lélia González.
 
Com muita honestidade, o filme quer sintonizar essa emergência de consciência de uma juventude negra, que no Brasil conquistou novos espaços por políticas sociais, como as cotas, e a persistência de estruturas viciadas, como uma escola inepta e burocrática, incapaz de enxergar sua missão real com seus alunos, uma política demagógica e hipócrita, que finalmente recorre apenas à repressão e à violência policial, criminalizando os dissidentes.
 
Exibido anteriormente em Tiradentes, Cabeça de Nêgo extrai sua força da honestidade com que se lança à tematização da revolta de uma juventude que não desiste de sua utopia - cuja similaridade com as ocupações de escolas em São Paulo, entre 2015 e 2016, num determinado momento é também assinalada. A urgência e a falta de recursos provavelmente explicam a ansiedade no filme em contemplar assuntos demais, eventualmente deixando escapar a potência de algumas situações.  Mas é indiscutível que tem vigor e capacidade de diálogo.

Mostra Olhares Brasil (não há mais sessões)

 
Quem tem medo de ideologia?
Nascida nos EUA e radicada em Beirute, a cineasta e artista visual Marwa Arsanios aproxima-se de três experiências políticas e libertárias -  o movimento autônomo das guerrilheiras curdas; a comunidade feminina de Jinwar, no norte da Síria; e uma cooperativa numa região fronteiriça nesta região - para ensaiar uma reflexão em torno de novas formas de organização política, social e ecológica que brotam e subsistem em contextos de guerra, tendo foco particular em questões de gênero.
 
O filme é dividido em duas partes. Na primeira, especialmente, a diretora procura desconstruir sua própria linguagem. Ouvimos em off as guerreiras curdas sem vê-las, com um cenário que percorre as montanhas em que elas se abrigam. Na sequência seguinte, as vemos em seus alojamentos, mas não as ouvimos, e sim outros sons ambientes. Um recurso que não se justifica muito e, de certa maneira, dilui nossa aproximação destas admiráveis combatentes, conhecidas por sua valentia contra o ISIS.
 
Na segunda parte, o filme assume outra forma ao retratar a peculiar experiência da criação de Jinwar, uma cidade habitada apenas por mulheres - exceto por seus filhos menores -, que foi construída na região autônoma ao norte da Síria. Aí, tem-se uma estrutura mais tradicional de documentário, compartilhando saborosas conversas com grupos de moradoras, que explicam o funcionamento da comunidade, e personagens como uma costureira, que largou um marido abusivo e ali se instalou, carregando os filhos e tornando-se uma das habitantes mais ativas do lugar.
 
Já não é tão clara, também pela estruturação mais fluida, a experiência da cooperativa em Jezireh, região na fronteira entre a Turquia, Síria e Iraque, com forte componente curdo numa população bastante diversificada. Não que se defenda o didatismo estrito, mas seria importante ter em vista que plateias internacionais, menos afeitas às problemáticas da região, precisariam de mais contexto para se guiarem num filme que se pretende um ensaio sobre novas formas políticas, mas falha numa apresentação mais coesa.
 
Mostra Outros Olhares (não há mais sessões)
 
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O tango do viúvo e seu espelho deformador
O reflexo do lago
Um animal amarelo

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