Gramado realiza sua edição mais aguerrida

Gramado abre 47ª edição com “Bacurau” e crítica à censura

Neusa Barbosa, de Gramado

Gramado - Foi em tom de resistência e celebração da memória que começou a 47ª edição do Festival de Gramado, a partir das manifestações de diretores, atores e equipes técnicas de todos os filmes apresentados na primeira noite - enfatizando a importância do cinema e da arte, além de manifestar-se contra a censura a projetos cinematográficos devido aos seus temas, recentemente anunciada pela presidência da República.
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Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, abriu, fora de concurso, o festival, depois de conquistar o Prêmio do Júri em Cannes, em maio, e passar em diversos outros festivais. Três meses depois de Cannes, em minha segunda revisita ao filme, reverberou ainda mais a força de uma história centrada na resistência de uma pequena comunidade, sitiada no sertão nordestino, diante do acuamento imposto por um prefeito incapaz e corrupto e invasores violentos. 
Presente em Gramado - ela não pode ir a Cannes -, Sonia Braga catalisou as atenções e reafirmou seu papel de diva engajada a favor dos projetos de que participa. Seja na tela, no papel da médica Domingas, seja fora, dela, como atriz empenhada na defesa do que faz, ao lado de seus colegas, Sonia brilhou.
 
Aplausos no debate
Como foi o caso do debate do filme, nesta manhã de sábado, muito concorrido e com gente sentada no chão, na sala do Hotel Serra Azul. Em dois momentos, pelo menos, Sonia foi aplaudida - quando revelou que sua personagem homenageia Marielle Franco, a vereadora carioca assassinada há um ano e meio, e que ela também “quer saber quem matou Marielle”. “Marielle vive”, bradou.
Em outro momento, Sonia discorreu sobre o espírito de Bacurau, um filme que é uma distopia ambientada num futuro próximo, em que a violência arrebenta com as regras sociais e desafia os laços de uma comunidade. Lembrando sua própria integração a vários povos e culturas numa cidade multiétnica como Nova York, onde ela vive, a atriz lamentou que, em tantos lugares, não haja uma maior e maior integração das diferenças, que levaria a um futuro próximo do perturbador filme de Kléber e Juliano. “Bacurau é esse futuro, mas temos a opção de mudá-lo, reagrupando, reunindo, conversando. Depende de onde a gente vai colocar a nossa energia”.
Combate à censura
Na noite de abertura, foram lembrados os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, que morreram este ano e foram homenageados no palco do Palácio dos Festivais.
Logo depois, na sessão de Bacurau, o diretor Kléber Mendonça Filho pediu a cada um dos integrantes da equipe - havia cerca de 30 pessoas - que se apresentasse, dizendo seu nome e o que fazia na produção. “O cinema é importante e exigimos respeito”, disse o diretor, debaixo de aplausos.
Membros da equipe de O Homem Cordial, de Iberê Carvalho (DF), primeiro longa concorrente da seleção, lembraram projetos cinematográficos que recentemente foram impedidos de buscar autorização para captação da Ancine por veto do presidente da República por trataram de sexualidade. Maiara Carvalho, produtora do filme, leu um pequeno manifesto e encerrou sua fala com um brado de “Censura Nunca Mais!”. Foi uma das noites de abertura mais inflamadas dos últimos anos em Gramado, um festival, é bom lembrar, que é um dos mais antigos do Brasil (só perde para Brasília) e que sobreviveu à censura da ditadura militar e ao desmonte do cinema promovido pelo presidente Fernando Collor, no início dos anos 1990, mantendo ininterruptamente suas atividades. 

Foto: Cleiton Thiele/Agência Pressphoto/Divulgação


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