Gramado realiza sua edição mais aguerrida

"Legalidade" resgata história de resistência democrática em 1961

Neusa Barbosa, de Gramado

Gramado - Legalidade, de Zeca Brito, passou fora de competição no festival, na noite de domingo (17) para homenagear Leonardo Machado, o ator que, por dez anos, foi o apresentador em Gramado e que morreu em setembro de 2018. 
 
Foi uma sessão emocionante, não só pela presença dos pais e amigos do ator, mas também pelo próprio conteúdo do filme, que relembra um levante comandado pelo então governador Leonel Brizola, em 1961, para garantir a posse de João Goulart, vice-presidente, depois da renúncia do presidente Jânio Quadros - uma das crises políticas mais candentes da história do Brasil.
 
Leonardo Machado interpreta esse Leonel Brizola jovem que, no palácio dos Piratinis, junta apoiadores, soldados ou não, e armas, além de um providencial transmissor radiofônico, para convocar a resistência a um incipiente golpe militar. De Brasília, militares ameaçavam prender Jango, caso voltasse da China, onde se encontrava em viagem oficial.
 
O roteiro, assinado por Leo Garcia e Zeca Brito, apoia-se tanto em pesquisas históricas - é sólida e eficiente, aliás, a inserção de imagens de arquivo - como se permite vôos romanescos que visam oferecer atrativos ao espectador comum, como um triângulo amoroso no centro destes acontecimentos, envolvendo uma jornalista um tanto dúbia (Cleo) e dois irmãos, um antropólogo engajado (Fernando Alves Pinto) e um fotógrafo do palácio gaúcho (José Henrique Ligabue). 
 
Nesta situação ficcional um tanto rocambolesca situam-se os principais defeitos desta produção, que tem o mérito inegável de resgatar um episódio fundamental na história brasileira, muito desconhecido de vários dos contemporâneos, além de ter potencial para mobilizar consciências sobre as possibilidades de resistência em tempos obscuros.
 
O filme, que tem estreia comercial prevista para setembro, tem a seu favor, igualmente, a chegada às telas num momento em que, como poucos, os brasileiros precisam resgatar a memória de dias melhores e da própria auto-estima. O que Legalidade nos diz é que já fomos melhores, mais unidos e, fundamental, com tudo isso já vencemos o obscurantismo e os atentados à democracia e à Constituição. Também já tivemos líderes políticos com mais coragem e capacidade de mobilização. Se tiver essa ressonância e proporcionar inspiração, apesar de seus cacoetes de telenovela - assumidos pelo diretor Zeca Brito -, o filme já terá cumprido um papel. 
 
Em tempo - não estou fazendo comentários críticos a respeito dos curtas e longas-metragens em competição em Gramado, por fazer parte do júri da crítica. Ao final da semana, farei um balanço desta edição.


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