Cannes 2019

Dois filmes de época de olho no presente

Neusa Barbosa, de Cannes

O domingo em Cannes registrou a passagem do peso-pesado norte-americano Terrence Malick e seu aguardado drama de época A Hidden Life. Conhecido por uma obra extremamente pessoal, com estilo barroco e elegante, ele desenvolveu a história pouco conhecida de Franz Jägerstätter (August Diehl), um austríaco que levou às últimas consequências sua recusa de jurar fidelidade a Adolf Hitler.

Ainda que ambientada em 1943, a história de Franz repercute especialmente hoje, já que o anônimo camponês torna-se um eloquente lembrete do valor da resistência, ainda que miúda, individual e, aparentemente, inútil, num contexto em que tudo e todos parecem estar sendo arrastados numa voragem de fanatismo, cegueira e conformismo diante da ação de líderes autoritários, nacionalistas. Qualquer semelhança com a realidade atual não é mesmo coincidência.

Malick filma com maestria - com a parceria do diretor de fotografia Jörg Widmer -, captando a beleza natural da aldeia onde moram Franz, sua mulher, Fani (Valerie Pachner, de Egon Schiele) e filhos, onde eles se acreditavam seguros em seu paraíso. Como em A Árvore da Vida, que lhe deu a Palma de Ouro em 2011, ele nos hipnotiza com esse encantamento místico, cósmico, em torno da natureza e dos afetos familiares - e que aqui são destroçados pela intrusão de tempos violentos e intolerantes.

Conhecido por filmes como Senão nós, quem?, Bastardos Inglórios e Os Falsários, o alemão August Diehl é o ator perfeito para este pequeno e indomável herói. Malick atribuiu-lhe um protagonismo que nem sempre ocorre em seus filmes, muitas vezes, mais corais, como Além da Linha Vermelha. Esta postura tem toda a sua razão de ser. Afinal, a tese do filme é a importância fundamental destas vidas escondidas, destes esforços de herois anônimos para nossa salvação - como se lembra numa citação final da escritora George Eliot.

Mulheres em foco
Passou também por aqui o terceiro - do total de quatro, numa seleção de 22 - filme dirigido por uma mulher na competição, o drama de época Portrait d’une Jeune Fille en Feu, da francesa Céline Sciamma. Conhecida no Brasil sobretudo por Tomboy, vencedor do Teddy no Festival de Berlim 2011, a diretora e roteirista desenvolve um relato também conjugado no feminino, em torno de quatro personagens principais, na Bretanha de 1770.

Uma condessa italiana (Valeria Golino) contrata uma jovem pintora, Marianne (Noémie Merlant), para pintar o retrato de sua filha, Heloise (Adèle Haenel). O desafio é que a moça se recusa a posar, já que este retrato é o que falta para concretizar seu casamento arranjado - é o retrato que deve, por protocolo, ser enviado ao noivo, em Milão. A pintora, portanto, deve esconder sua intenção, passando-se por mera acompanhante de Heloise e observando seus traços para trabalhar ocultamente.

Este jogo de aparências é cuidadosamente montado, expondo tanto as rígidas convenções que sufocavam as mulheres no século 18 quanto as brechas por onde elas começam a rachar. Marianne, por exemplo, é filha de um pintor e herdeira de seu negócio, portanto, uma mulher livre. A participação neste círculo íntimo também da criada, Sophie (Luana Majrami), permite que se explore outros temas, como aborto.

De vários modos, o filme respira autenticidade, sacudindo a poeira que tantas vezes se abate sobre as produções de época. As atrizes, especialmente, são extraordinárias ao viver seu gradual enamoramento, filmado com delicadeza e sem voyeurismo. Em termos de ritmo, no entanto, o filme sofre de algum peso em sua segunda metade, que não é tão viva e ágil quanto a primeira.

Não sei se é por eu ter cruzado com a extraordinária diretora neozelandesa Jane Campion (O Piano) ontem por acaso,acabei pensando, depois de ver o filme de Sciamma, o que Campion teria feito com esta história - quanta intensidade a mais poderia ter. Respeitando-se a maior contenção da francesa, ainda assim, ela poderia ter feito um filme um pouquinho mais enxuto.

Agora, só falta um filme dirigido por uma mulher, Sybil, da também francesa Justine Triet, em torno de uma psicoterapeuta (Virginie Efira) que decide tornar-se escritora. A sessão para a imprensa está marcada para sexta (24). 


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança