Cannes 2019

Filme de Karim Aïnouz é ovacionado em Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

Atração na competição do Un Certain Regard, o drama brasileiro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, recebeu uma ovação arrebatadora em sua sessão de gala, na noite desta segunda (20). Diversos espectadores estavam em lágrimas no final. O filme é uma adaptação bastante livre do romance homônimo, de Martha Batalha, em que o premiado diretor cearense exercita, mais uma vez, sua empatia com as mulheres, às quais dedicou o filme, na salle Debussy – onde, numa outra segunda-feira, em 2002, também com sessão começando às 19h, como esta, ele lançou aqui em Cannes seu primeiro filme, Madame Satã. Este Brasil de artistas - sob ataque feroz do atual governo -, afinal, representam muito bem o melhor do país aqui fora.
 
Ao subir ao palco da sala para apresentar seu filme, ladeado por suas atrizes e o produtor Rodrigo Teixeira, Karim não esqueceu de pronunciar-se contra a "intolerância, um sentimento que divide não só o Brasil, como o mundo". Celebrou também a "resistência", homenageando os milhões de brasileiros que foram às ruas no último dia 15 de maio para defender a Educação contra os cortes anunciados pelo governo. Este pronunciamento foi muito aplaudido também. 
 
Conservadorismo anos 1950
Amparado num roteiro em que divide a autoria com Inês Bortagaray e Murilo Hauser, o diretor esculpe diversas faces da repressão ao feminino, numa história ambientada no Rio de Janeiro, em 1950. A dupla central é formada por duas irmãs, Eurídice (Carol Gomes) e Guida (Júlia Stockler), filhas de conservadores e rudes pais portugueses. A ligação visceral das duas, de personalidades complementares – Eurídice, mais tímida, Guida, mais ousada - é rompida brutalmente quando Guida se envolve com um marinheiro grego e parte.
 
Toda a expectativa do cumprimento de um destino convencional na época, que prevê marido e filhos recai sobre Eurídice, que tinha outros planos. Pianista, ela contava fazer um exame que a levasse ao Conservatório de Viena. Mas a opção fica truncada pela conveniência de um casamento com Antenor (Gregório Duvivier), funcionário do Correio e filho de um amigo da família.
 
Coro de atrizes
 
Humorista refinado e bom ator, Duvivier injeta em seu personagem tacanho uma humanidade e até um certo afeto de que ele é desprovido no livro. Esta é uma das muitas liberdades a que o diretor, felizmente, se permite, fazendo a história multiplicar-se em muitas direções. Há, em torno das duas protagonistas que, separadas, se procuram, um núcleo de atrizes fenomenais, cujo nome, a partir de agora, teremos que anotar em nossas agendas: caso de Bárbara Santos (como Filomena) e Flávia Gusmão (dona Ana), sem contar a participação especial da experiente Maria Manoella (Zélia), transformada por um penteado e maquiagem que escondem seus traços. Na porção final, Fernanda Montenegro comparece, numa participação luminosa que aumenta a voltagem da emoção. É um filme grandioso. Karim é o nosso Almodóvar.
 
Esperando o jihad
 
Donos de duas Palmas de Ouro, os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne entraram em terreno arriscado ao compor, no drama Le Jeune Ahmed, o relato da radicalização de um adolescente muçulmano, Ahmed (Idir Ben Addi).
Filho de uma família em que o pai está ausente – não fica claro o motivo -, Ahmed cai sob a influência de um imã fanático (Othmane Moumen), que o influencia no sentido de exacerbar sua crença muçulmana, tomando como exemplo um primo do rapazinho que se tornou “mártir”, ou seja, se auto-imolou. Influenciado por estes modelos masculinos tóxicos, Ahmed muda seu comportamento, adotando uma interpretação radical do Alcorão. Assim, passa a recusar apertar a mão da professora (Myriem Aki-Eddou) – porque é uma mulher - e xingar a mãe (Claire Bedson) por beber vinho. Um dia, ele decide esfaquear a professora, uma muçulmana mais liberal.
 
Em tempos em que a Europa se preocupa com ataques terroristas e ainda não resolveu como lidar com a radicalização de parte de seus cidadãos, o filme dos Dardenne cai como um petardo, apesar de usar de toda a delicadeza possível e  não ser, talvez, ousado como outras de suas produções. A indagação assumida dos diretores é questionar porque têm fracassado todos os esforços para conter essa onda de fanatismo. Professores, pais, amigos, assistentes sociais, psicólogos e outros, por mais que tentem, não encontram meios eficientes para romper o bloqueio que Ahmed ergueu em torno de si, fechando-se na intolerância. É o tipo do filme que vai dar o que falar.
 
Cerimônia de adeus
 
Surpreendeu, no melhor sentido, o drama norte-americano Frankie, em que o diretor Ira Sachs, conhecido por dramas gays como Deixe a Luz Acesa e O Amor é Estranho, assina um filme coral e profundo, em torno de uma família em que se misturam várias nacionalidades. A matriarca é Frankie (Isabelle Huppert), uma atriz francesa famosa, que decidiu reunir em Sintra – o filme é uma coprodução portuguesa – seu círculo mais íntimo. Neste cenário natural paradisíaco, ensaia-se a cerimônia de adeus. Frankie tem câncer terminal e não deve alcançar o ano seguinte.
 
O fato de que todos saibam a verdade acentua a angùstia, ainda que se procure aparentar normalidade – como faz o marido de Frankie, Jimmy (Brendan Gleeson), sua filha, Sylvia (Vinette Robinson), seu marido, Ian (Ariyon Bakare), a filha adolescente deles (Sennia Nenua), o filho de Frankie, Paul (Jérémie Renier), e o primeiro marido dela, pai de Paul (Pascal Greggory). Juntam-se a eles uma amiga de Franke, a cabeleireira de set Ilene (Marisa Tomei) e seu amigo Gary (Greg Kinnear).
 
Evidentemente, os conflitos pessoais de cada um destes núcleos vão desenrolar-se em suas próprias direções, como a iminência do divórcio de Sylvia e Ian, a insatisfação pessoal de Paul e o desespero de Jimmy diante da iminente perda da esposa. Até o guia turístico Tiago (o ator português Carloto Cotta) terá oportunidade de desabafar suas angústias conjugais.
 
O filme é tão bem conduzido, no sentido de entrelaçar estas histórias humanas, que é um prazer assisti-lo. É genuinamente profundo, comovente, irônico. Talvez possa mesmo impressionar o júri presidido por Alejandro González Iñárritu, um fã assumido de histórias corais em sua obra.

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