Cannes 2019

Dolan retorna a Cannes com seus excessos

Neusa Barbosa, de Cannes

A lingua francesa, com diversos sotaques, foi o idioma oficial da competição nesta quarta (22), em que passaram pelo tapete vermelho o enfant gaté canadense Xavier Dolan e seu novo melodrama, Matthias & Maxime, e o veterano francês Arnaud Desplechin, com um drama policial, Roubaix, Une Lumière (oh Mercy!).

Do alto de seus 30 anos, Dolan já é um veterano de Cannes, exibindo filmes por aqui em diversas mostras desde 2009 e tendo conquistado, na seção principal, o Prêmio do Júri em 2014, com Mommy (em que o troféu foi dividido com ninguém menos do que Jean-Luc Godard e seu Adeus à Linguagem) e o Grande Prêmio do Júri dois anos depois, com É Apenas o Fim do Mundo. Seu ego inflado é conhecido - reclamou, por exemplo, que merecia ter vencido a Palma de Ouro em 2016. Apesar da ressalva, o jovem ator e diretor tem talento; o que falta é um amadurecimento, ou então um parceiro que aparasse pelo menos alguns de seus muitos excessos.

Enquanto isto não acontece - se um dia acontecer -, é justo dizer que não falta uma certa chama, uma paixão em Matthias & Maxime, em que o próprio diretor assume o papel do segundo, um jovem com rosto marcado por uma enorme mancha vermelha de nascença e sofrendo problema sério com uma mãe alcoólatra, de quem ele é o guardião legal.

Seu refúgio é um grupo de amigos e Dolan não foge ao seu habitual padrão, de colocar uma porção de personagens em cena, falando, gritando, todos ao mesmo tempo, numa histeria não raro cansativa, como no começo do filme. Quando isto se acalma, ele mostra quem é Max, sua casa, sua mãe. E o contraponto é Matthias (Gabriel D’Almeida Freitas), de sua turma de amigos, mas de classe social mais alta. É advogado, trabalha no escritório do pai, está com o futuro garantido e já noivo. O conflito é que Matt está tremendamente atraído por Max e esta é a questão mal-resolvida que vai se prolongar, tendo como desafio a iminente partida de Max para a Austrália - deixando a mãe sob a guarda de uma tia.

Dolan é um bom ator e altamente convincente na pele deste jovem atormentado. O melodrama que se desenrola em torno dele poderia ser muito mais intenso e enxuto. O problema eterno de Dolan é a falta de ritmo e os excessos em que se deixa levar na direção.

Policial do interior
Outro habituê de Cannes, o veterano francês Arnaud Desplechin, voltou mais uma vez à sua cidade natal, Roubaix, para desenvolver um drama em torno de um policial, o comissário Daoud (Roschdy Zem), em Roubaix, Une Lumière (Oh Mercy!).

Há um comentário real sobre a cidade, que antigamente foi um dinâmico centro operário, sendo hoje um lugar decadente, assolado pelo crime, com muitos bairros onde não se pode ir, num ambiente carregado por tensões multiétnicas. De origem argelina, o comissário conhece várias famílias pessoalmente, Transita pela cidade como uma espécie de anjo guardião, sempre calmo, composto, também dentro da delegacia, em seus interrogatórios.

O filme caminha melhor quando Daoud e seus subordinados, como o novato Louis (Antoine Reinartz), se distribuem pela cidade, atendendo a suas inúmeras ocorrências. O ritmo é comprometido, no entanto, quando se resolve parar no caso mais impactante da história, uma acusação de assassinato, envolvendo duas mulheres, Claude (Léa Seydoux) e Marie (Sara Forestier).

Quando se investiga este caso, a história literalmente para, repetindo os interrogatórios, confrontando as versões, de forma exasperante. Chega um ponto que a inegável dramaticidade da situação termina por diluir-se. E se perde de vista o que se tem de melhor, a presença carismática de Daoud, carregado com carisma pelo talentoso ator Roschdy Zem. No final, termina parecendo que se tem aqui um piloto de seriado. O comissário Daoud bem o mereceria.


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