Cannes 2019

Na reta final, "Il Traditore", de Bellocchio, mostra força

Neusa Barbosa, de Cannes

Na reta final de Cannes - os últimos candidatos à Palma, It Must Be Heaven, de Elia Suleiman, e Sybill, de Justine Triet,  serão exibidos hoje (24) -, saiu forte a carta do veterano italiano Marco Bellocchio, com o drama de máfia Il Traditore, ou O Traidor - já que se trata de uma coprodução Itália/Brasil, filmada em parte no Rio e com Maria Fernanda Cândido no principal papel feminino.

Aos 79 anos, Bellocchio é um dos últimos, senão o último representante de uma destacadíssima geração do cinema italiano, em que brilharam as estrelas de Federico Fellini, Ettore Scola, Dino Risi, Pier Paolo Pasolini e tantos outros. A obra de Bellocchio, que começa com De Punhos Cerrados (1965), é de marcado cunho político sempre. Ninguém duvide de que O Traidor, que examina a trajetória do ex-mafioso Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), é mais um exemplar da série, ao traçar não só um perfil alentado, qualificado, do delator que entregou diversos chefões da Cosa Nostra siciliana nos anos 1980 - o que foi o pilar da operação Mãos Limpas, liderada pelo juiz Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi).

O período carioca de Buscetta, ao lado da terceira mulher, a brasileira Cristina (Maria Fernanda), precede esta delação. Sua viagem ao nosso país já prenuncia o sentimento de que as coisas estão mudando dentro da máfia, em sua complexa estrutura de alianças e traições, que culminam em vingança e assassinatos sangrentos. Tommaso é um sobrevivente porque sabe detetar as mudanças dos ventos a tempo e também por ser hábil em adaptar-se a circunstâncias inóspitas.

Tortura no Brasil
A própria temporada brasileira termina com grande risco pessoal para o mafioso, já que ele é preso pela violenta polícia brasileira e barbaramente torturado - episódio que o filme retrata com total clareza, assim como uma impressionante cena em que a própria Cristina é colocada em perigo mortal, pendurada num helicóptero, para pressionar o marido a confessar suas ligações mafiosas. É depois de sua extradição à Itália que começa sua colaboração com Falcone, que não é imediata. O duelo entre os dois, aliás, é um dos pontos altos do filme.

Cenas de tribunal como estas dos chefões mafiosos delatados são difíceis de ver. Bellocchio capta o seu sentido de espetáculo, com estes capi cada um numa verdadeira jaula, gritando e xingando Buscetta quando este acusa um a um. É engraçado, patético e muito veraz. Uma das roteiristas, Ludovica Rampaldi, destacou que foram gastos dois anos em pesquisas, não só das atas do tribunal como ouvindo-se diversos sobreviventes que conheceram Buscetta.

O produtor brasileiro do filme, Fabiano Gullane, destacou que o filme estreou na Itália ontem (23) - que era aniversário da morte do juiz Falcone - e já havia arrecadado cerca de 110.000 euros. No Brasil, a estreia está prevista para novembro.

Apostas para os atores

Na véspera do anúncio da Palma de Ouro, Il Traditore, portanto, leva chance de alguma premiação, especialmente para Pierfrancesco Favino - que tem como concorrentes mais diretos a um troféu de interpretação o espanhol Antonio Banderas, brilhando em Dor e Glória, e o francês Roschdy Zem, a melhor coisa de um filme insatisfatório, Roubaix, une Lumière, ou o alemão August Diehl, sublime como o resistente camponês anti-Hitler no drama A Hidden Life, de Terrence Malick. E dá para descartar a dupla Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, de Era uma vez em Hollywood, de Quentin Tarantino? Não mesmo. Se houvesse prêmio de elenco, provavelmente deveria ir para o sul-coreano Parasite, a obra-prima de Bong Joon Ho.

Entre as mulheres, Isabelle Huppert é sempre uma aposta forte e ela mostra personalidade em Frankie, o filme-coral de Ira Sachs (EUA). Não  são de modo algum cartas fora do baralho a espanhola Penélope Cruz, também em Dor e Glória, ou a dupla francesa Noémie Merlant e Adèle Haenel do drama de época Portrait d’une Jeune Fille en Feu, de Céline Sciamma.

Voyeurismo explícito
O tunisiano Adbdellatif Kechiche, que já venceu uma Palma de Ouro por Azul é a Cor mais Quente (2013), mais uma vez causou polêmica pelo voyeurismo na filmagem dos corpos femininos e por conta de uma explícita cena de felação em Mektoub My Love: Intermezzo.

Trata-se da sequência de Mektoub, My Love: Canto Uno (2017), também apresentado em Cannes  e retomando os mesmo personagens, com a adição de uma nova (Marie Bernard), jovens envolvidos entre si numa rede de relações afetivas, de amizade ou sexo.  
 
Já muito criticado pelas atrizes de Azul é a Cor Mais Quente, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos 6 anos atrás, que se sentiram abusadas pela forma como ele as filmou, Kechiche volta a se expor, em tempos em que a sensibilidade pelo tema é mais exacerbada do que nunca. É uma pena que o diretor de O Segredo do Grão faça um filme como este, cujas sequências focalizando corpos femininos esbanjam gulodice cafajeste, aponto de lembrar as piores coberturas do Carnaval brasileiro pela televisão.
 
Na coletiva de imprensa, o diretor foi totalmente na defensiva, negando-se a responder perguntas simples, como seu método de filmar os atores, alegando no passado ter tido suas palavras deturpadas quando o fez. Foi agressivo com um repórter inglês, que simplesmente o indagou sobre o inquérito por “agressão sexual” que está sofrendo na justiça francesa. “É uma pergunta deslocada e imbecil”. Não é, o processo existe. O diretor também não quis comentar a partida de uma das atrizes do filme, Ophélie Bau, que teria ido embora de Cannes de madrugada, não participando nem das fotos, nem da coletiva hoje. O fato é que todo o elenco presente na coletiva estava bem na defensiva, assim como Kechiche. 
 
Quinzena e protesto
Na Quinzena dos Realizadores, o filme da estreante Alice Furtado, Sem seu Sangue, na tarde de quinta (23), foi antecedido de um protesto com cartazes em defesa da universidade pública, que está sofrendo cortes e arbitrariedades por parte do governo brasileiro. A equipe do filme, que levou os cartazes, é ligada à Universidade Federal Fluminense.

Trata-se de mais um filme misturando gêneros, começando como um romance adolescente entre Silvia (Luiza Kosovski) e Artur (Juan Paiva) e gradativamente incorporando referências e mudanças de tom que levam ao realismo fantástico e ao terror. Há uma bonita cena de sexo e pelo menos duas de masturbação feminina, todas filmadas com grande delicadeza. A diretora, respondendo a algumas perguntas no final da sessão, como é praxe na Quinzena, destacou: “Não há suficientes histórias do desejo feminino no cinema”.


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