Cannes 2019

Reta final em Cannes, à espera da Palma de Ouro

Neusa Barbosa, de Cannes

Último dia de Cannes – chegou a hora da premiação, marcada para esta noite de sábado (25).
 
Na hora das apostas, os concorrentes mais fortes à Palma continuam sendo o sul-coreano Parasite, de Bong Joon Ho – que foi mesmo o filme mais criativo e impressionante da seleção -, ainda que o grande espanhol Pedro Almodóvar continue firme em muitas preferências com seu grande melodrama Dor e Glória, em que autobiografia e criatividade se fundem com alta dosagem de emoção. Almodóvar tem a seu favor o fato de ter concorrido cinco vezes antes e não ter levado. Pode ser esta a sua vez e não seria nada injusto que levasse o prêmio máximo.
 
Correndo por fora, sempre se pode imaginar que o júri liderado pelo mexicano Alejandro González Iñárritu pode pender para um novato que tenha impressionado – caso de Atlantique, da jovem diretora senegalesa Mati Diop, com sua mescla de denúncia social e realismo mágico, ou mesmo Les Misérables, retrato turbulento da periferia parisiense, assinado pelo jovem diretor francês Ladj Ly.
 
Filmes como o brasileiro Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, O Traidor, do italiano Marco Bellocchio, Sorry We Missed You, do inglês Ken Loach, A Hidden Life, do norte-americano Terrence Malick, ou Le Jeune Ahmed, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, parecem cotados para algum prêmio, ainda que não o principal. Mesmo caso do divisivo Once Upon a Time in Hollywood, de Quentin Tarantino, e sua centrífuga de referências pop.
 
Mas júri é júri e alguma surpresa sempre aparece. Vamos aguardar.
 
Reta final
 
Ontem, foram exibidos os dois últimos concorrentes à Palma de Ouro, num ano em que a seleção principal, com 22 candidatos, foi uma das mais fortes dos últimos anos – com poucas notas negativas (o pior caso, do tunisiano-francês Abdellatif Kechiche e seu voyeurístico-narcisístico Mektoub, My Love: Intermezzo).
 
Na reta final, o palestino Elia Suleiman (Prêmio do Júri em Cannes 2002 por Intervenção Divina) ofereceu mais um filme minimalista e explorando aspectos da identidade de seu povo, em It Must Be Heaven. Mais uma vez, o cineasta interpreta aquele personagem praticamente mudo – ele pronuncia algumas frases apenas na porção final, em Nova York -, que examina com olhar atento as contradições de um mundo intrigante e paradoxal.
 
São inúmeros esquetes, em que Elia percorre primeiro sua Nazaré natal, depois Paris, depois Nova York, deixando para trás sua pátria em busca de outro lugar no mundo, em que possa viabilizar sua produção. Enquanto isso, acumulam-se cenas simbólicas de uma realidade paralela, mas bem possível de imaginar como parábola – como quando uma ambulância da SAMU para diante de um morador de rua em Paris para oferecer-lhe refeições, dando-lhe escolhas como a bordo de um avião; e diversos episódios com policiais, como num carro em que dois deles trocam óculos escuros entre si, tendo no banco de trás uma prisioneira vendada.
 
Num escritório de produtora em Nova York, Elia encontra-se com o ator e diretor mexicano Gael García Bernal, no próprio papel, dando-lhe oportunidade de colocar diante da câmera as dificuldades dos encenadores em busca de apoio.
 
Percorrem as imagens de Elia, algumas poéticas, outras hilárias – como uma que tem a participação de um insistente pardalzinho -, uma fina melancolia, uma procura dessa pátria sem território. Este desejo é retratado diretamente quando Elia procura um sensitivo nos EUA para ler sua sorte e este lhe diz que haverá uma Palestina, mas não na vida deles.
 
Personalidade em turbilhão
 
Última concorrente, a francesa Justine Triet, construiu, em Sybil, a caótica trajetória da personagem-título (Virginie Efira), uma terapeuta que decide voltar à literatura, que abandonou no passado. Passando adiante a maioria de seus pacientes, ela, no entanto, aceita tratar de uma jovem atriz, Margot (Adèle Exarchopoulos, de Azul é a Cor Mais Quente).
 
No meio de uma filmagem, Margot engravidou de Igor (Gaspar Uliel), o protagonista, que por sua vez é casado com Mika (Sandra Hüller, protagonista de Toni Erdmann), a diretora do filme. As confusões amorosas da moça evocam na analista as memórias de suas próprias desventuras românticas de um passado não muito distante.  Essa identificação vai mais fundo na medida em que Sybil inspira-se na moça para escrever seu próprio romance, diluindo-se perigosamente as fronteiras entre essas vidas reais e imaginárias.
 
Uma passagem do filme dentro do filme passa-se na ilha italiana de Stromboli, evocando, por sua vez, referências ao filme homônimo de Roberto Rossellini, que sofreu os ecos do envolvimento entre o diretor e a atriz sueca Ingrid Bergman, quando os dois ainda eram casados.
 
De toda maneira, este exercício imaginativo de Justine Trier, que começa interessante e tem em Virginie Efira uma atriz empenhada, resulta um tanto inócuo – parece que perdeu o rumo e não encontrou a hora certa de acabar.

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