Cannes 2019

Brasileiros em quatro mostras

Neusa Barbosa, de Cannes

Em direção contrária ao momento difícil na produção do cinema brasileiro, Cannes 2019 revelou-se generosa com a produção de nosso País, selecionando quatro filmes brasileiros em mostras diversas, além de coproduções.
 
O diretor Kleber Mendonça Filho está de volta à competição com seu terceiro longa-metragem, Bacurau (foto), desta vez coescrito e codirigido por Juliano Dornelles. Na descrição de seus diretores, “Bacurau é um filme de aventura ambientado no Brasil “daqui a alguns anos”. Assim como ocorreu com seu longa anterior, Aquarius, em 2016, Bacurau terá sua estreia mundial o festival francês. O lançamento de Bacurau nos cinemas brasileiros, pela Vitrine Filmes (que também distribuiu O Som ao Redor e Aquarius), está previsto para o segundo semestre.
 
O filme, com 131 minutos, acabou de ser finalizado em Paris, depois dos dez meses de montagem no Recife. As locações foram no sertão do Seridó, divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba, onde ocorreram as filmagens, que duraram dois meses e três dias, com uma equipe de 150 pessoas. As cidades de Parelhas e Acari serviram de base para a produção. 

Sobre o filme, Juliano Dornelles diz: "Bacurau é um projeto que vem sendo desenvolvido desde 2009, quando era só uma ideia, até ser filmado em 2018. Enquanto o roteiro se transformava, o país e nosso cotidiano também. Estrear em Cannes nesse ano de 2019 é dar um lugar de respeito ao Brasil, seu cinema e sua cultura.”

Para Kléber Mendonça Filho: “Esse é um trabalho de anos, feito com os colaboradores próximos de sempre e alguns outros novos. Creio que esse filme é o resultado da nossa relação com os filmes e as pessoas que amamos e que nos formaram, com Pernambuco, com o Brasil e com o mundo. E incrível poder voltar a exibir um filme no Palais em Cannes, três anos depois daquele momento sensacional com Aquarius!”.

Ele continua: “Gostaria de mandar abraço especial para os moradores de Parelhas, Acari e, principalmente, à comunidade de Barra, onde fizemos Bacurau. Os quatro meses de trabalho lá com preparação e filmagem confirmaram o que já sei há tantos anos: o trabalho com a cultura nos fortalece, nos legitima. Como foi importante ter podido compartilhar essa experiência de trabalho com tanta gente”.

As brasileiras Sonia Braga e Karine Teles e o alemão Udo Kier integram um elenco composto por dezenas de atores, como Barbara Colen, Silvero Pereira, Thomas Aquino, Antonio Saboia, Rubens Santos e a veterana cantora Lia de Itamaracá.

Antigos parceiros, Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho colaboraram nos curtas-metragens premiados no Brasil e exterior Eletrodoméstica (2005) e Recife Frio (2009), e nos longas também aclamados internacionalmente O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016), filmes dirigidos por Kléber e com direção de arte de Juliano. Na equipe de Bacurau, a parceria estabelecida em O Som ao Redor e Aquarius também se repete na fotografia, assinada por Pedro Sotero, no som de Nicolas Hallet e na direção de arte de Thales Junqueira.

UCR e Quinzena

Além de Kléber e Juliano, foi selecionado para a importante seção Un Certain Regard, que também é competitiva, o diretor Karim Aïnouz, apresentando A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (foto), melodrama de época, ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, tendo ao centro duas irmãs, Guida e Eurídice. No elenco, Fernanda Montenegro, Carol Duarte, Júlia Stockler, Maria Manoella e Gregório Duvivier. Aïnouz já esteve na competição do Un Certain Regard em 2002, com Madame Satã, voltando a Cannes em 2011, na Quinzena dos Realizadores, com Abismo Prateado.

Na seção Quinzena dos Realizadores, a representante brasileira é Alice Furtado, diretora estreante que comparece com Sem Seu Sangue. Conta a história de Silvia (Luiza Kosovski), uma adolescente introspectiva e desinteressada pela rotina, que acredita ter encontrado em Artur (Juan Paiva) o estímulo para uma guinada na vida. Ele tem um perfil rebelde, já foi expulso de várias escolas. Seu relacionamento, no entanto, é cortado por um grave acidente.

Na mostra paralela ACID (Association du Cinéma Independent pour sa Diffusion), foi incluído o documentário Indianara, do diretor brasiliense Marcelo Barbosa e da francesa Aude Chevalier-Beaumel - radicada no País há 15 anos -, que retrata a trajetória da ativista transexual Indianara Siqueira. O filme terá sessões no domingo (19) e na quarta (22).

Outros dois filmes da seleção oficial são coproduções, como aporte brasileiro: na competição, Il Traditore , de Marco Bellocchio, reconstituindo a vida do mafioso arrependido Tommaso Buscetta, que fugiu para o Brasil nos anos 1970; e, no Un Certain Regard,  Port Authority, coprodução com os EUA, dirigida por Danielle Lessovitz, retratando um triângulo amoroso envolvendo uma jovem trans (Leyna Bloom).


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança