Cannes 2019

Júri de olho na diversidade

Neusa Barbosa, de Cannes

Coletivas de júri em Cannes geralmente seguem um protocolo meio tedioso, na verdade. De todo modo, é sempre muito bom ter, pela primeira vez nos 72 anos da história de Cannes, um júri presidido por um latino-americano, no caso, o mexicano Alejandro González Iñárritu - que não se fez de rogado quando uma jornalista norte-americana lhe fez uma pergunta sobre o desejado muro com que Donald Trump quer barrar o acesso de mexicanos e outros latino-americanos. “Essa posição não poderia ser mais cruel. Isolar nacionalidades é muito perigoso, porque você deixa de enxergar a diversidade. Todos sabemos como termina essa história”, afirmou.

Iñárritu mostrou independência também, num festival que tem ousado barrar a Netflix por usá-lo como plataforma de lançamento, ao dizer que, para ele, a questão mais crucial do cinema hoje é como levar os filmes a serem exibidos para mais pessoas, em todos os países do mundo - lembrando o quanto a França é privilegiada neste sentido, com sua fartura de cinemas de todos os perfis, ao contrário da tenebrosa concentração dos multiplexes no Brasil, levando a que um único filme de super-herois possa ocupar dois terços das salas do País. Iñárritu, por sua vez, vê com bons olhos que os filmes cheguem a todos, seja lá por quais plataformas forem. Afinal, como cineasta, sua preocupação é que mais pessoas possam ter o que ele chama de “experiência comunitária” do cinema, que é diferente do mero ato de “assistir”. Ele quer que haja uma imersão dos espectadores nos universos retratados, permitindo que sejam tocados, impregnados pelo que vêem. É isso também que ele espera que aconteça ao seu júri, paritário na presença de mulheres - a atriz senegalesa Maimouna N’Diaye, a diretora italiana Alice Rohrwacher e as norte-americanas Elle Fanning (atriz) e Kelly Reichardt (diretora).

Foi de Kelly, aliás, que veio a melhor frase do time feminino. Apesar de dizer-se honrada de integrar o júri que concederá este ano a Palma de Ouro, ela confessou estar esperando que um dia o fato de serem mulheres não tenha que ser destacado toda vez que são apresentadas as diretoras. Ou seja, que se torne um fato natural. Alice Rohrwacher, apoiando a colega, por sua vez, disse que é preciso cobrar condições para que as mulheres sejam diretoras “no começo do processo, não no final (que é o festival)”. Ou seja, a discriminação começa bem antes, quando se destinam recursos a projetos cinematográficos.

A coletiva de imprensa do júri, afinal, foi bem mais interessante do que parecia. Que suas avaliações sigam na mesma linha.


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