Cannes 2019

Jim Jarmusch interroga o apocalipse

Neusa Barbosa, de Cannes

A 72ª edição do Festival de Cannes decolou com Jim Jarmusch e seu terror cínico The Dead Don’t Die (Os Mortos Não Morrem), um curioso filme de gênero com assumida intenção de comentar o presente aterrador do planeta e da humanidade. Com sua pequena catástrofe zumbi, Jarmusch interroga o apocalipse ambiental, social e político que assola o mundo inteiro.

Centerville, a cidadezinha de exatos 728 habitantes do interior norte-americano, é o cenário onde se arma um cruzamento entre desastre ambiental, com ciclos de dia e noite radicalmente alterados, e uma invasão zumbi - tudo isso sob o olhar atento do ermitão, Hermit Bob (Tom Waits), que prefere viver no mato mas é a voz interior e uma espécie de observador-filósofo dentro da história.

Como sempre nos filmes de Jarmusch, há uma aparência de normalidade que, de saída, é evidentemente bizarra e em seguida desafiada por um acontecimento desagregador. Essa normalidade é representada pelo trio de policiais da cidadezinha, o chefe Cliff (Bill Murray) e seus assistentes, Ronnie (Adam Driver) e Mindy (Chloe Sevigny). Até pela presença de Murray, é difícil de repente não lembrar dos Caçafantasmas quando eles partem para combater uma inusitada invasão de zumbis, devorando partes de corpos em assassinatos sangrentos, começando pelas garçonetes da única lanchonete local.
 
Referências
Jarmusch planta, ao longo do caminho, uma série de citações e referências - de um túmulo aberto, lê-se na lápide o nome de Samuel Fuller, por exemplo. Este é um jogo que ele prossegue, como nos momentos em que os personagens Ronnie e Cliff falam da trilha musical e do roteiro do próprio filme, piscando um olho ao espectador ao assumir a ilusão do jogo da narrativa.
 
Impossível não lembrar também da Noiva de Kill Bill, de Quentin Tarantino, diante da personagem impagável de Zelda Winston (Tilda Swinton), a nova e um tanto excêntrica nova dona da funerária local -  que tem uma queda pela cultura oriental e as artes marciais, usando com maestria uma espada de samurai que, mais adiante, mostra-se providencial no combate aos zumbis, não por vingança, mas por sobrevivência.
 
Todas estas ironias, que visam divertir o espectador, não desviam da vontade de refletir sobre o estranho estado do mundo de hoje, governado por figuras bizarras e negacionistas das catástrofes ambientais (como a fictícia exploração das calotas polares, mencionada no início do filme). O negacionismo do que é óbvio inclusive a olho nu, sedimentado pelo discurso apascentador da mídia dominante, é, aliás, um dos aspectos mais relevantes observados pelo diretor/roteirista.

Perto e longe de Romero

Ninguém faz um filme de zumbis, evidentemente, sem pagar um tributo a George Romero e A Noite dos Mortos-Vivos (1968). Uma inspiração, aliás, assumida pelo diretor na coletiva de imprensa de hoje: “Romero é muito importante até porque mudou o conceito dos monstros. (Para ele) os zumbis vêm de dentro de uma estrutura em colapso, assim como as vítimas, isso é que é interessante”.
 
Mas Jarmusch passa por aí criando seus diferenciais, como colocar seus zumbis voltando à superfície em busca não só de sangue mas de suas obsessões mais caras na vida: vinho Chardonnay, Xanax, ferramentas, doces, brinquedos, dependendo da idade e do perfil de cada um. É por essa chave, extremamente simples, do que Jarmusch definiu como “fetichismo das mercadorias” que se decifra, afinal, uma boa parte do que o diretor está dizendo sobre o tempo em que nos coube viver.
 
Nestes tempos, o desastre ambiental é uma preocupação crucial e, curiosamente, Jarmusch não acredita que se trata meramente de uma questão política. Na verdade, ele enxerga que se trata de “política corporativa” e, sendo assim, cada um de nós pode fazer algo a respeito. “Se todo mundo começar a boicotar as corporações, podemos derrubá-las. Está nas mãos de todo mundo”, acredita.
 
Ainda que Jarmusch diga que “não sabe” se seu filme é fatalista, ele deixa uma boa margem para indagar se há alguma escapatória. O personagem Ronnie não para de repetir que tudo vai acabar mal, como todos os sinais indicam. No entanto, é bom reparar que alguns se salvam. Quem eles são, no filme de Jarmusch, sinaliza de onde o diretor pensa que poderá, talvez, vir uma solução. Na coletiva, ele declarou que tem esperança nos jovens, embora se preocupe com a corrida contra o tempo (na questão ambiental). E também confessa uma queda pelo personagem de Hermit Bob, que ele não vê como negativo. Na verdade, pensando bem, ele pode até ser visto como um rebelde solitário que guardou apego por alguns valores que uma civilização libertária poderia resgatar.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança