Cannes 2019

"Bacurau" intriga Cannes com sua distopia no sertão pernambucano

Neusa Barbosa, de Cannes

Bacurau, o concorrente brasileiro à Palma de Ouro, passou na noite de quarta (15) como mais um representante do cinema de desconforto que dominou este começo da competição em Cannes. Dirigido pela dupla pernambucana Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme juntou-se nesse espírito inquietador aos demais concorrentes já exibidos, o suspense irônico The Dead Don’t Die, de Jim Jarmusch, e o drama francês Les Misérables, de Ladj Ly, que retrata o caldeirão social das periferias de Paris.

Em todos os três filmes, há um claro diálogo com outras obras e/ou com gêneros - especialmente no caso de Bacurau. Nesta distopia ambientada no sertão pernambucano num indefinido futuro próximo, mesclam-se os climas de drama social, suspense, terror, com referências abundantes aos filmes de cangaço e até ao Cinema Novo, inclusive na música (com direito a citação ao compositor Sergio Ricardo).

Por todos estes sinais e referências que embaralha, Bacurau se apresenta como um filme que pretende desafiar o espectador a se entregar ao que não decifra e seguir junto - o que é a mais legítima aspiração de qualquer cineasta. Não é uma obra de certezas, narrativas ou não, este relato da saga da cidadezinha de Bacurau, assolada por uma série de tragédias: falta d’água, desabastecimento de alimentos e remédios, abandono e chantagem do prefeito desonesto, ataques misteriosos de atiradores desconhecidos. Diante disso, a comunidade, diversa e plural em todos os sentidos, se mobiliza para resistir, tendo o mesmo peso a figura de um professor, Plínio (Wilson Rabelo), de um ex-matador, “Pacote” (Thomas Aquino), uma espécie de neo-cangaceira trans (Silvero Pereira) e a médica local (Sonia Braga)- desta vez, num papel menor do que em Aquarius, mas igualmente marcante. A sequência em que ela encara Michael (Udo Kier), o líder dos matadores forasteiros, é de antologia em sua estranheza, seu humor ferino.

Na coletiva de imprensa, o veterano alemão Kier, que é conhecido por inúmeros papeis de vilão, foi extremamente caloroso ao descrever esta que foi sua primeira experiência brasileira. “Foram três semanas no paraíso. Nunca vou esquecer”, disse, ironizando o fato de não ter sido apresentado “às praias, aos drinks e às garotas e garotos bonitos”, os clichês normalmente associados à imagem do Brasil no exterior.

Protestos

Desta vez, ao contrário de Aquarius, exibido em competição em 2016 por aqui, não houve faixas de protesto político por parte da equipe do filme brasileiro. Perguntado sobre isso na coletiva, Kleber Mendonça destacou ter “orgulho dos protestos que fizemos em 2016” (que eram contra o impeachment e Michel Temer). Falando das manifestações ocorridas ontem (15) em todo o Brasil em defesa da educação, o diretor manifestou seu apoio, comentando que “numa democracia, é importante demonstrar sua insatisfação”. E completou, considerando “muito forte que estejam todos estes filmes brasileiros aqui, na competição, no Un Certain Regard, que eles estejam surgindo neste momento em que se tenta esconder e destruir a cultura no Brasil.

O co-diretor Juliano Dornelles, por sua vez, celebrou a coincidência da première do filme aqui e da jornada de protestos no Brasil. “Achei muito interessante essa coincidência. A gente aqui, eles todos lá, estamos, cada um à sua maneira, lutando para não deixar que destruam o que foi conquistado”. E completou: “Acho que o filme diz, de forma fantasiosa, muita coisa sobre nosso País”.
 

Periferia em fúria

Montfermeil, o cenário do drama francês Les Misérables - que se inspira no espírito do clássico de Victor Hugo - é um drama social contundente em torno do enfrentamento constante entre os moradores, muitos deles jovens e crianças, com a polícia - e que comenta distúrbios reais, ocorridos em 2005. Trata-se de um tema autobiográfico para o diretor, Ladj Ly, documentarista que já realizara em 2017 um curta com o mesmo nome, que ele amplia nesta sua estreia na ficção.

Ly tem a autenticidade de uma voz que vem dessa periferia parisiense semi-abandonada, onde os moradores, muitos negros, filhos e netos de imigrantes, vários muçulmanos, se espremem, num cotidiano avassaladoramente segregador. Os adolescentes, particularmente, estão em ebulição, diante de um marasmo que os coloca sempre de escanteio, cansados de assistir ao espetáculo diário dos conchavos entre os chefões criminosos locais e os policiais locais, todos descontando sua brutalidade nos meninos.

Dois destes garotos, Issa (Issa Perica) e Buzz (Al-Hassan Ly),  vão mobilizar a energia do trio de policiais que patrulham a área: o violento Chris (Alexis Manenti), o conciliador Gwada (Djebril Zonga) e o novato Stéphane (Damien Bonnard). Issa, o encrenqueiro local, roubou o filhote de leão do circo dos ciganos. Buzz, que filma tudo nas redondezas com seu drone, captou imagens que podem comprometer os policiais. Está armado o cenário de uma guerra de consequências imprevisíveis, que é filmada com realismo impressionante. Embora os contextos sociais de França e Brasil sejam muito diferentes, qualquer morador de uma grande cidade brasileira pode entender o conflito retratado por Les Misérables - que tem outra qualidade, a de evitar o maniqueísmo no retrato dos policiais, mostrando com autenticidade o lado deles na questão.


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