Cannes 2019

Do realismo fantástico africano ao realismo social de Ken Loach

Neusa Barbosa, de Cannes

Na sequência da passagem de Bacurau, o concorrente brasileiro à Palma de Ouro, a competição em Cannes prosseguiu em ritmo forte, passando do realismo fantástico, com o candidato africano Atlantique (foto), da jovem diretora senegalesa Mati Diop, ao realismo social do peso-pesado inglês Ken Loach, em mais um manifesto humanista contra o trabalho precário em Sorry We Missed You.
 
De quebra, a grande atração na seção paralela Un Certain Regard foi o drama russo Beanpole, em que o jovem diretor Kantemir Balagov confirma o talento mostrado em Tesnota, vencedor do prêmio FIPRESCI para a mesma seção UCR em 2017.  

Acerto de contas do além

Sobrinha do grande diretor senegalês Djibril Diop Mambéty, Mati Diop - primeira cineasta negra a concorrer à Palma de Ouro - mostrou segurança em Atlantique para encenar uma história simples mas densa, em torno de jovens trabalhadores de Dacar. O roteiro é assinado por ela e Olivier Demangel.
 
Um grupo desses jovens trabalha na construção de uma grande torre e não recebe há meses. Inconformados com a situação de penúria, decidem entrar num barco precário, rumo à Espanha. Um deles é Suleiman (Traore), que está apaixonado por Ada (Mame Bineta Sane), por sua vez, de casamento marcado com Omar (Babacar Syla) - um suposto bom partido, aprovado por sua família muçulmana.
 
A história, que começa com um romance novelesco, toma outro rumo quando o barco dos rapazes desaparece. Um pouco depois, um estranho fenômeno acontece - muitas das garotas e também alguns rapazes são tomados por “djins” (espíritos) à noite, unindo-se numa missão de cobrar as dívidas devidas aos desaparecidos. Esse tom fantástico, impregnado de um sentido social-político, une Atlantique aos concorrentes anteriores, como The Dead Don’t Die, de Jim Jarmusch, e Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, expondo uma das linhas temáticas da seleção de 2019.
 

Trabalho X Família

Vencedor de duas Palmas de Ouro, Ventos da Liberdade (2006) e Eu, Daniel Blake (2016), Ken Loach, às vésperas dos 83 anos, é sempre um concorrente de muito respeito. Apesar da aparente modéstia de suas produções, é sempre um cineasta antenado com alguns dos mais cruciais problemas do mundo, como a precariedade do trabalho no mundo capitalista, capaz de destroçar laços sociais e familiares de maneira absolutamente cruel e avassaladora.

É esse o tema de Sorry We Missed You, em que se coloca em foco uma família trabalhadora em Newcastle, em pleno processo de desmonte diante da impossibilidade de sustentar-se e até de um mínimo convívio mútuo. Ricky (Kris Hitchen), o pai, pulou de um emprego para outro, num mercado de trabalho altamente instável. Agora, convenceu a mulher, Abby (Debby Honeywood), uma cuidadora de idosos e pessoas com deficiência, a vender seu carro para permitir a compra de uma van, com a qual o marido vai fazer entregas para uma grande empresa. Nenhum dos dois tem contratos ou garantias trabalhistas, o que os obriga a longas horas de trabalho, sem tempo para um contato mais direto com os dois filhos, o adolescente Seb (Rhys Stone) e a pequena Liza (Katie Proctor).

Nada ingênuo, Loach é uma reserva humanista no mundo, colocando em discussão questões absolutamente inadiáveis, contando com a preciosa parceria do roteirista Paul Laverty, que aqui, como sempre, encarregou-se da maior parte das pesquisas. Ele entrevistou inúmeros motoristas como os vistos no filme, pressionados por agendas apertadas, jornadas de 14 horas diárias ou mais e nenhuma segurança, quando sofrem assaltos ou problemas de saúde.São os escravos modernos e o filme, que não sinaliza soluções - como poderia? - é o seu grito de socorro.

Na coletiva de imprensa, a dupla Loach e Laverty, mais uma vez, esbanjou lucidez. Ambos destacaram como a economia capitalista mundial está produzindo “desigualdade extrema, na Inglaterra, como nos EUA. Sobre o poder do filme para mudar alguma coisa, Loach afirmou: “Não devemos exagerar o poder de um filme, mas somos uma voz dentro do coro”. Ele destacou também a necessidade de “mudanças estruturais” e completou: “Temos que lidar com o fato de que as pessoas estão com raiva e com medo. A extrema-direita cresce nesse medo. A esquerda, não, ela cresce na confiança de que podemos, sim, mudar as coisas”.

Mulheres no pós-guerra

O contundente drama russo na Un Certain Regard, Beanpole (em francês, Une Grande Fille, ou seja, “uma garota alta”) inspira-se no livro da escritora vencedora do Nobel, Svetlana Alexievich, “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”. O roteiro, assinado pelo diretor Kantemir Balagov e Alexander Terekhov, destaca o relacionamento intenso e não raro doentio entre duas jovens que lutaram na II Guerra e voltam a viver em Leningrado depois do famoso cerco que custou um milhão e meio de vidas.

É impressionante, incrível mesmo, que as duas atrizes, Viktoria Miroshnichenko (Iya) e Vasilisa Perelygina (Masha), sejam estreantes, tamanha a intensidade e paixão que injetam às suas atormentadas personagens, mulheres que sobreviveram ao combate e a todo tipo de trauma produzido pela guerra, não só nos campos de batalha - há a fome, o medo e diversos tipos de abusos físicos, psicológicos e morais que vão ficando evidentes à medida que a trama se desenvolve.
 
A princípio, conhecemos somente Iya, que trabalha como enfermeira num hospital, ainda repleto de feridos de guerra. Ela mesma demonstra os sinais de uma concussão sofrida na guerra. Iya cuida do filho pequeno, Pachka (Timotey Glazkov), até que Masha volta de repente, deflagrando uma série de acomodações e também cobranças, que evidenciam a verdadeira natureza da dependência entre as duas.
 
Há outros personagens admiravelmente bem-delineados, como o comandante do hospital, Nikolay (Andrey Bykov), o jovem Sasha (Igor Shirokov), que se apaixona por Masha, e a mãe deste (Ksenia Kutepova) - que tem uma cena absolutamente incrível na sequência final.
 
Impressiona a densidade dramatúrgica do filme, a segurança na direção de atores e também a fotografia, de Ksenia Sereba, que delimita a temperatura das emoções com tons absolutamente quentes de vermelho e verde, no quarto e no figurino das duas protagonistas. É o tipo do filme que se impregna na pele e se carrega consigo, muito tempo depois de a sessão terminar.

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