Cannes 2019

Sob o signo do noir

Neusa Barbosa, de Cannes

O cinema romeno teve um bom momento em Cannes na noite de ontem, quando o policial com toques cômicos La Gomera (foto), de Corneliu Porumboiu, divertiu até a combalida plateia de jornalistas - acossada não só pelo cansaço habitual da programação como por uma onda de frio e chuva que torna todo deslocamento e toda fila (inevitável) um exercício penoso.

Ao contrário de boa parte de seus compatriotas, Porumboiu, 43 anos, não é estranho à comédia, como se viu na impagável A Leste de Bucareste (2006) e no suspense O Tesouro (premiado na seção Un Certain Regard 2015). Em La Gomera, que empresta seu nome de uma das Ilhas Canárias, o diretor e roteirista investe numa trama policial cheia de reviravoltas, em torno das aventuras de um policial, Cristi (Vlad Ivanov), uma estonteante mulher fatal, muito apropriadamente chamada Gilda (Catrinel Marlon), e uma série de personagens em busca de uma alta soma de dinheiro desaparecido.

Porumboiu tem personalidade como diretor e o filme tem ritmo, clima, momentos de suspense e comicidade. Ou seja, é muito bom de ver, mas fica difícil superar Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, que parece ter deixado a impressão mais duradoura até aqui.

Submundo chinês
Outro concorrente à Palma, o primeiro oriental, foi o drama de gângster chinês Le Lac des Oies Sauvages (numa tradução livre, “O lago dos gansos selvagens”), de Yinan Diao - que venceu o Urso de Ouro em Berlim 2014 com seu Carvão Negro, Gelo Fino.

Diao tem estilo e leva bem uma história violenta, que parte de uma briga entre gangues até então aliadas no roubo de motos. No rescaldo do conflito, Zhou Zenong (Hu Ge), torna-se alvo de uma caçada implacável por ter matado um policial em sua fuga. Há uma alta recompensa por sua captura e ele usa o contato com uma jovem prostituta, Liu (Gwei Lun Mei), para tentar realizar um desejo - quer que ela o denuncie à polícia e entregue a recompensa para sua mulher, com quem ele tem um filho pequeno.

Essa intenção do protagonista equivale a uma espécie de redenção, já que exige seu auto-sacrifício, denotando um sentido de ética que não é comum no universo dos gângsters. No mais, as perseguições são frenéticas e as cenas de morte, não raro, bastante gráficas, o que é uma convenção do gênero. O gênero, mais uma vez, tendo voz na seleção.

Quentin Tarantino, que já chegou por aqui, assistiu à sessão do colega e concorrente chinês e mostrou ter gostado. Afinal, esta é a praia dele, que venceu a Palma de Ouro aqui há exatos 25 anos com Pulp Fiction (comemoração à vista) e voltou agora com seu aguardado Once Upon a Time in Hollywood, uma sessão prevista para a próxima terça-feira e que promete ser uma das mais disputadas de todo o festival. Afinal, o elenco inclui Brad Pitt, Leonardo DiCaprio, Margot Robbie, Al Pacino e muitos outros.

Família de aluguel
Fora da competição, o veterano alemão Werner Herzog exibiu a docuficção Family Romance. Filmado no Japão e falado em japonês, ficcionaliza uma situação real - empresas que “alugam” pessoas para interpretarem papeis, como de parentes distantes ou problemáticos em situações específicas - como substituir um pai alcoólatra para levar sua filha ao altar. No centro da história, está uma mãe solteira que contrata Ishii (Yuichi Ishii), o criador da empresa, para passar-se pelo pai de Mahiro (Mahiro Tanimoto), menina de 12 anos, suprindo uma carência sentida por toda a vida dela.
 
Evidentemente, uma situação assim não segue os controles pretendidos, já que algum tipo de envolvimento e emoções é inevitável, Como sustentar os limites entre uma situação encenada e uma real, é o que o próprio Ishii começa a indagar-se. Onde reside a autenticidade de uma família real, como a  que ele mesmo tem? De várias maneiras, trata-se de um filme bastante intrigante, em que Herzog aproveita para discutir alguns aspectos do desenvolvimento tecnológico, como uma cena num hotel em que se testam robôs assustadoramente reais como recepcionistas.

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