Festival de Cannes 2010

Mike Leigh anima competição em Cannes

Neusa Barbosa

Finalmente, na manhã de sábado (15), a competição em Cannes tomou um rumo mais denso, com a passagem de Another Year, de Mike Leigh. O diretor de Segredos e Mentiras exibiu neste novo filme o melhor de sua, por assim dizer, fórmula: um admirável conjunto de atores encarnando personagens comuns e cotidianos, combinando ao mesmo tempo um toque extremamente britânico mas também universal, já que se refere à humanidade num sentido amplo.
 
Another Year é, como a maioria dos filmes de Leigh, um filme em que se pode entrar e sentir-se à vontade. Os personagens são humanos e comuns no sentido físico mais elementar, para começar – exibem com naturalidade suas gordurinhas e os sinais de velhice, sem que isso tenha um sentido maior do que torná-los de carne e osso, próximos da plateia, portanto.
 
Evidentemente, no plano dos conflitos, mais do que sentir-se à vontade, o público de Mike Leigh pode sentir pertencimento, já que compartilhamos em algum momento de nossas vidas alguns ou todas aquelas emoções que movem aquelas pessoas. Um feito que não só não é nada fácil, como depende de encontrar como apoio uma dramaturgia e interpretações que não soem nem artificiais nem pesem demais na tela, teatralmente.
 
Nos seus melhores momentos, como é o caso do Another Year, Leigh consegue fazer tudo isso muito bem, contando com um elenco repleto de rostos conhecidos de seus filmes anteriores, familiarizados, portanto, com seu método de criação dos filmes, que depende essencialmente de improvisações dos atores.
 
Um par central, maduro, é formado pela psicóloga Gerri (Ruth Sheen) e o geólogo Tom (Jim Broadbent), que tem um casamento ideal, carinhoso e cooperativo. Em torno deles, a ilha de tranqüilidade se dissolve. O símbolo da inquietude é colega de Gerri, a secretária Mary (Lesley Manville), uma pessoa ao mesmo tempo adorável, porque terna, mas terrivelmente instável, porque solitária diante do envelhecimento inexorável.
 
Contrariando o mainstream do cinema industrial, Another Year é um filme povoado por personagens (e atores, evidentemente) na meia-idade, cercados por suas questões – como enviuvar ou procurar companhia quando os encantos físicos começam a decair. Apenas Tom e Gerri atravessam essa fase com serenidade, porque calcados no afeto e respeito um pelo outro e também pelo filho único, Joe (Oliver Maltman).
 
Famílias são um dos universos básicos de Leigh e aqui ele cria uma normal e boa sem idealização demais. De se notar também sua admirável composição de personagens femininas ao longo de toda a obra, desde a extraordinária mãe perdida vivida por Brenda Blethyn em Segredos e Mentiras à magnética Lesley Manville de Another Year – quem sabe um prêmio de melhor atriz não lhe cairia muito bem?
 
Pânico nas salas de chat
 
Por enquanto, este não se mostrou um bom ano para o cinema oriental, ao menos nas principais seções de Cannes. Na seção Un Certain Regard, o japonês Hideo Nakata (criador do terror Ringu, que rendeu a adaptação O Chamado e sequência) apresentou seu novo Chatroom, em que focaliza as salas de bate-papo da internet.
 
Nakata cria suspense e terror a partir da ação de William (Aaron Johnson), um jovem emocionalmente perturbado que usa as salas de chat para exercer um domínio psicológico, que se torna uma espécie de bullying à distância, sobre outros jovens mais frágeis que entram na sua sala – Chelsea Teenagers.
 
O alvo preferencial é Jim (Matthew Beard, visto em Educação). Abandonado pelo pai ainda criança, ele não conseguiu superar o trauma, apesar de apoiado por uma mãe bem presente. William pretende, nada menos, do que exacerbar a depressão de Jim até levá-lo ao suicídio, o que os demais participantes do chat vão procurar impedir.
 
Visualmente, o filme é bastante limitado, mais do que se poderia esperar. Nakata representa o cenário virtual dos chats de maneira simples, nada espetacular, como um corredor repleto de portas – que lembra o corredor do hotel de Barton Fink, dos irmãos Coen, ou do hotel de O Iluminado, de Stanley Kubrick. O recurso de ver os participantes do chat nestas salas do corredor, lado a lado, funciona, também se esgota logo.
 
Mesmo assim, Chatroom pode despertar interesse no circuito comercial de shoppings – se a garotada que os frequenta não o achar muito datado. Conceitualmente, a ideia do filme já nasce um passo atrás, uma vez que a internet, um ambiente de incrível velocidade e mudança, está num outro momento, povoada por facebooks e twitters e indo em frente.
 
Woody Allen reciclado
 
Decepcionou bastante a nova comédia de Woody Allen, You will meet a tall dark stranger, uma das atrações mais esperadas fora da competição. Mais uma vez uma coprodução europeia, filmada em Londres e recheada de astros – Anthony Hopkins, Naomi Watts e Antonio Banderas entre eles – o filme não encanta. O enredo remexe aquele velho baú de idéias do prolífico e, geralmente, criativo diretor, com resultado pálido.
 
Evidentemente um Allen menor tem seu charme e é melhor do que a maioria das comédias produzidas pelo mundo. Isso não é desculpa, porém, para um diretor que já criou Annie Hall, Manhattan, Crimes e Pecados e Match Point, só para citar alguns de seus melhores trabalhos.
 
Síntese – matrona (Gemma Jones) abandonada pelo marido (Anthony Hopkins) depois de 40 anos de casamento encontra apoio numa vidente (Pauline Collins), que a mantém otimista com suas previsões e declarações sobre vidas passadas. A filha do casal separado (Naomi Watts), uma galeristaa de arte, tem problemas com o marido, escritor fracassado (Josh Brolin) e uma quedinha pelo próprio patrão (Antonio Banderas). O escritor, por sua vez, faz a linha Janela Indiscreta e espia pela janela – não um crime, como no filme de Hitchcock, mas uma beldade musicista (Freida Pinto).
 
Outros casais se fazem – como Hopkins casando-se com uma garota de programa superjovem – e outros imbróglios se seguem, nenhum deles realmente apaixonante. Eventualmente, há um ou outro diálogo que lembra os velhos tempos de Allen, um excelente dialoguista quase sempre. Mas é pouco para reativar a mágica de suas comédias. Talvez o diretor precisasse de uma pausa criativa, para recuperar a inspiração, ou procurá-la em outro lugar.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança