Festival de Cannes 2010

Despojamento africano e pompa de época francesa dão contraste em Cannes

Neusa Barbosa

Despojamento africano e pompa de época francesa dão contraste em Cannes
Cannes – Entre o despojamento do único concorrente africano à Palma de Ouro, o chadiano A Screaming Man (foto), de Mahamat-Saleh Haroun, e a pompa empolada de uma superprodução francesa de época, La Princesse de Montpensier, do veterano Bertrand Tavernier, prosseguiu o contraste da competição do 63º Festival.
 
Do lado do filme do Chade, em coprodução com Bélgica e França, colocaram-se as preocupações politicamente corretas, num trabalho de um diretor já conhecido deste festival, Mahamat-Saleh Haroun, que estudou cinema e jornalismo na França e já apresentou por aqui Abouna, notre père (Quinzena dos Realizadores de 2002 e outros de seus filmes (Bye Bye África e Darat, Dry Season) no Festival de Veneza.
 
Em A Screaming Man, Haroun volta a um tema constante de sua filmografia, os efeitos devastadores da intermitente guerra civil no Chade. A questão política é filtrada pela questão humana de um pai, Adam (Youssouf Djaoro), ex-campeão de natação e agora salva-vidas da piscina de um hotel. De um lado, ele é pressionado pela privatização do hotel, que o empurra para a função de porteiro, deixando o posto para seu próprio filho, Abdel (Diouc Koma). Uma humilhação que lembra a do protagonista de A última gargalhada, de Murnau.
 
De outro lado, Adam tem pela frente o governo, que o chantageia a pagar em dinheiro pelo esforço de guerra contra os rebeldes ou entregar voluntários para o exército. Adam não tem dinheiro, portanto, deve conformar-se com o recrutamento forçado do próprio filho.
 
Colocando em tintas sutis este conflito moral e ético imenso, Haroun radiografou uma situação dramática comum a vários países africanos, tornando-a acessível a plateias internacionais. Uma chave da autenticidade está nas interpretações low key de um elenco provavelmente em boa parte amador. É um filme simples, mas que cresce dentro da memória à medida que o tempo passa. E oferece outro personagem paterno altamente comovente e marcante, tal como o protagonista do filme chinês Chongqing Blues, de Wang Xiaoshuai.
 
História congelada
 
É preciso lembrar muito dos serviços prestados no passado pelo respeitável Bertrand Tavernier (diretor dos luminosos A Vida e Nada Mais e Um Sonho de Domingo e vencedor do Urso de Ouro em Berlim com A Isca) para se não perdoar, pelo menos esquecer rapidamente seu novo filme, a superprodução de época La Princesse de Montpensier.
 
É o típico produto feito de encomenda para a televisão, com belos atores, figurinos e as intrigas palacianas que os franceses devem conhecer das aulas de história desde criancinhas, mas o resto do mundo não tem nada com isso. Ambientado no século XVI e com enredo adaptado a partir do romance de madame da Lafayette, o filme focaliza as paixões despertadas pela bela pricesa Marie (a bela mas aguada Melanie Thierry) - que tem aos seus pés o marido (Grégoire Leprince-Ringuet), o namorado de adolescência, Henri de Guise (Gaspar Ulliel), e também o todo-poderoso irmão da rainha, o duque d’Anjou (Raphaël Personnaz).
 
De quebra, ainda arrasta uma asa para a moça o mestre e mais fiel escudeiro de seu marido, o conde de Chabannes (Lambert Wilson). Com a briga entre os papistas católicos e os huguenotes protestantes correndo solta na corte de Carlos IX, toda essa ciranda de paixões pela moça só podem levar a mais lutas e sangue, definindo o clima de novelão.
 
Tecnicamente impecável, La princesse de Montpensier não tem um detalhe, uma sacada com maior ambição do que embalar um público não muito exigente de novidades. Quem quiser apenas mais do mesmo, um programa digestivo, onde se lembrará mais dos figurinos do que de outra coisa depois, pode reservar seu ingresso. Entre os franceses, mesmo irregular, o concorrente à Palma Tournée, de Mathieu Amalric, arriscou bem mais e foi bem melhor de ver.

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