Festival de Cannes 2010

Latinos acendem maiores paixões em Cannes

Neusa Barbosa

Latinos acendem maiores paixões em Cannes
Cannes – Tema forte da seleção deste ano, a paternidade bateu fundo novamente na tela nesta manhã de segunda (17), com a passagem do concorrente à Palma de Ouro Biutiful (foto), do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu (de Babel).  
 
Em seu primeiro trabalho depois da separação de seu roteirista habitual, Guillermo Arriaga, Iñárritu recorreu a outros dois parceiros na escrita desta história – Armando Bo e Nicolás Giacobone. O resultado é uma trama densa,que amarra a instabilidade social e emocional de uma família com a desordem contemporânea – com direito a comentários pertinentes sobre imigração ilegal, exploração do trabalho clandestino e pirataria.
 
O eixo é Uxbal (Bardem), pai que tem a custódia de dois filhos pequenos, lidando com o desequilíbrio emocional da ex-mulher, Marambra (a argentina Maricel Alvarez). A vida profissional de Uxbal é uma bagunça – ele trabalha como intermediário em negócios envolvendo o trabalho ilegal de chineses e africanos. Mas ele mesmo, europeu, não tem uma qualidade de vida muito melhor do que a deles.
 
O comentário sobre as situações dos chineses e africanos se fortalece na história na medida em que, nos dois grupos, há personagens de verdade, não tipos unilaterais. Com isso e o reforço num aspecto ético de Uxbal, apesar de tudo, o painel humano do drama ganha uma autenticidade impressionante.
 
Iñárritu é o tipo do diretor que não comporta meios-termos – em geral, críticos e espectadores amam-no ou odeiam-no. A este último grupo, porém, vai ser difícil negar a qualidade da atuação de Javier Bardem, que se transfigura na pele de um homem contemporâneo e extremamente dividido. Num festival com tantos papeis masculinos interessantes, ele acaba de tornar-se um páreo duro para estressar ainda mais os jurados comandados pelo cineasta Tim Burton – que já tem que pensar nos outros dois pais incríveis desta competição, o chadiano Youssouf Djaoro (de A Screaming Man) e o chinês Wang Xueqi, de Chongquing Blues.
 
Um “Crash” em Buenos Aires
 
Na seção Un Certain Regard, o argentino Pablo Trapero (Leonera) imprimiu sua habitual marca enérgica e pessoal para criar em Carancho (foto ao lado) uma trama encharcada de amor bandido e sangue, com inúmeros e espetaculares acidentes de automóveis.
 
A acuidade com que Trapero encena estes acidentes – que não são exibicionismo de filme de ação hollywoodiano e sim elemento essencial do drama – evoca em alguns momentos Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg. Mas é com temperatura totalmente latina, antenado numa radiografia social da Argentina, que o diretor realiza este trabalho, o melhor e mais maduro de sua carreira.
 
Martina Gusman (mulher e musa do diretor, protagonista de Leonera) é a médica Lujan, que trabalha como plantonista noturna num hospital. Atendendo emergências de acidentes de automóvel – que causam cerca de 8.000 mortes anuais na Argentina, como informa um letreiro antes do filme – ela conhece Sosa (Ricardo Darín).
 
Advogado que teve sua licença cassada, Sosa trabalha como ‘olheiro’ dos acidentes atendidos pelas ambulâncias, de olho em fisgar clientes em potencial para uma verdadeira indústria de indenizações que existe no país. Unidos neste viés ético e amoroso, Lujan e Sosa afundam-se num cotidiano marcado pela criminalização de suas ações.
 
Carancho é um filme tão cheio de qualidades e energia que é de se perguntar porque não foi para a competição principal. Se fosse este o caso, Martina Gusman seria com certeza uma grande aposta como melhor atriz. Ricardo Darín não menos – aqui, ele vira do avesso sua imagem de galã, na pele de um personagem marcado pela marginalidade, mas investido de uma ética pessoal e emoções que levam a platéia a empatizar com ele.
 
Retratos humanos do Oriente
 
Também da seção Un Certain Regard veio um excelente filme chinês, o documentário I wish I Knew (foto ao lado), do já conhecido Jia Zhangke (Em busca da vida). Na mesma pegada que mistura o documentário com toques ficcionais um trabalho anterior exibido aqui, 24 City (como a presença de sua musa, a atriz Zhao Tao), ele reflete sobre a história da China através de um retrato da cidade de Xangai – como o próprio Jia disse na apresentação, voltando-se agora mais para o passado do que para o presente, focalizado em seus filmes anteriores.
Memórias dolorosas da Revolução Cultural emergem dos depoimentos de alguns dos 18 personagens escolhidos pelo diretor para relatar biografias que passam em revista momentos dramáticos da história chinesa. Algumas dessas histórias gravam-se na memória, como a filha de um prisioneiro executado, pai que ela não conheceu a não ser pelas fotografias tiradas pouco antes da execução. Há depoimentos surpreendentes, como a velha senhora de uma família de gângsteres, contando como uma casamenteira arranjou o matrimônio de seus pais. Enfim, são pequenas surpresas, grandes emoções,emergindo de relatos às vezes corriqueiros, na aparência. Jia parece um devoto aluno de Eduardo Coutinho, às vezes. Quando um de seus personagens canta uma música em inglês, é puro Edifício Master.
 
A cidade é outro personagem onipresente do documentário, com uma sucessão das paisagens que se modificam, no ritmo de gigantesco canteiro de obras que parece espalhar-se por seus quatro cantos, sobrepondo-se a bem escolhidas imagens de arquivo.
 
Bandidos de Kitano
 
Na competição principal, em compensação, foi bem decepcionante a passagem de Outrage, o novo trabalho do japonês Takeshi Kitano. O cineasta que realizou Hana-bi – Fogos de Artifício e Dolls parece ter se tornado outra pessoa. Kitano agora só parece ser capaz de realizar filmes como Outrage, que evoca coisas ruins de seu passado, como Brother, ou seja, uma sucessão de esquetes em torno de mafiosos da Yakuza matando-se mutuamente da maneira mais sangrenta possível, num clima que procura o cômico, como uma história em quadrinhos.
 
Este tipo de policial humorístico, que ironiza os clichês do próprio gênero, tem os seus fãs, é verdade, ainda que a pobreza de suas idéias e cansativa repetição, para outros, fale por si.
 
Os foras de Godard
 
Numa segunda-feira lotada de atrações de peso, estava garantida a vaga de honra do veterano Jean-Luc Godard. Voltando a Cannes dentro da prestigiada mostra Un Certain Regard, com seu novo Film Socialisme, o velho rebelde profissional, aos 80 anos, já tinha dado mostras de que ia esvaziar a própria festa, ao anunciar a colocação do filme na internet.
 
Hoje, ele completou a decepção, com o anúncio, em cima da hora, do cancelamento da coletiva em que se esperava o comparecimento do diretor e prometia ser uma das mais concorridas do festival. Em cima da hora, em termos. Pelo menos o jornal Libération de hoje publicou um breve comunicado do diretor sobre sua ausência. Ou seja, a redação do jornal recebeu a informação ontem. E o festival, não sabia de nada? Foi o último a saber?
 
Pelo menos o material recebido pelos jornalistas entre ontem e hoje de manhã, mantinha a coletiva na programação. Mas surgiram dúvidas se os organizadores de Cannes não teriam preferido deixar o anúncio para depois para não esvaziar a primeira (e concorrida) sessão de Film Socialisme, às 11h da manhã.
 
Enfim, seja a verdade qual for, o novo filme é mera godardice – o diretor não repete a precisão de trabalhos como Nossa Música e faz aqui uma maldigerida e fragmentada colagem de reflexões sobre a contemporaneidade, com o mote “ideias nos separam, sonhos nos unem”. Francamente, monsieur Godard já fez muito melhor.

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