Festival de Cannes 2010

Dia de política em Cannes

Neusa Barbosa

Dia de política em Cannes
Cannes – Terça (18) foi, até agora, o dia mais político do festival. A coletiva de imprensa do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, que apresentou aqui o belíssimo concorrente à Palma de Ouro Copie Conforme, transformou-se num libelo pela libertação de seu colega, Jafar Panahi – que, como foi anunciado na coletiva, entrou em greve de fome, depois de mais de dois meses na prisão.
 
Panahi (que já venceu um Leão de Ouro em Veneza pelo filme O Círculo) foi preso por estar filmando sem permissão do governo de seu país., que tem sido particularmente duro contra a liberdade de expressão dos cineastas independentes, como o próprio Panahi e também Kiarostami, cujos filmes são produzidos em coproduções internacionais (caso de Copie Conforme) e não são exibidos dentro do Irã.
 
A notícia da greve de fome de Panahi levou às lágrimas a atriz Juliette Binoche, protagonista de Copie Conforme, que estava ao lado de Kiarostami. Muito sereno, mas incisivo, Kiarostami destacou que é “de longa data que o governo iraniano combate o cinema independente e a independência dos cineastas”. Ainda assim, disse que “há 40 aos que exerço este métier e continuo”. Ainda assim, respondendo a perguntas, o cineasta garantiu que nunca teve medo.
 
Sobre a greve de fome de Panahi, Kiarostami comentou: “Espero que a atitude dele leve a algo de bom. Mas no Irã, tudo é sempre imprevisível”.
 
Realidade e aparência
 
Refletindo uma preocupação presente ao longo da própria obra de Kiarostami e de outros cineastas iranianos, bem como particularmente no trabalho mais recente do brasileiro Eduardo Coutinho, Copie Conforme constroi um admirável jogo entre verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche (candidatíssima a um prêmio de melhor atriz) e o cantor lírico William Shimell.
 
Aliás, a verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da descoberta da história, cheia de camadas, climas e evocações. Filmado em belíssimos cenários da Toscana, o filme é uma das joias da programação, pulsante nos rostos de seus atores e em que o uso do discurso amoroso – oscilando entre o inglês, o francês e o italiano - é movido pelas chamas ora amortecidas, ora flamejantes da maturidade. Uma atração à parte é o roteirista Jean-Claude Carrière atuando numa sequência bem significativa e divertida.
 
Diva absoluta da coletiva, Binoche não poupou elogios a Kiarostami, acrescentando inclusive uma pitada política:”Ele diz nos filmes o contrário do que diz seu país sobre as mulheres”.
 
 
5 x Favela, a nova geração
 
Retomada do projeto do Cinema Novo de 1962, 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos (foto ao lado), criação de sete jovens diretores e roteiristas cariocas, produzido por Cacá Diegues (diretor de um dos episódios do filme original) foi uma rara atração brasileira na programação de hoje.
 
O filme reúne cinco episódios, cujos roteiros foram desenvolvidos em oficinas realizadas em diversas comunidades do Rio de Janeiro.O objetivo foi procurar desenvolver ficções que oferecessem outros olhares sobre o tema que filmes como Cidade de Deus tornaram famoso pelo mundo.
 
Nos cinco episódios, aparecem temas como a luta de um jovem (Silvio Guindane) para fazer faculdade de direito; a amizade de dois garotinhos, que juntam forças para conseguir dinheiro para comprar um frango para o pai de um deles (Flávio Bauraqui); a aventura de um garoto que arrisca cruzar a divisa da comunidade vizinha e rival para buscar uma pipa; uma espiral de violência que envolve três amigos de infância depois do roubo do armamento pesado de um quartel; e as peripécias de uma comunidade que fica sem luz bem no dia de Natal. Por mais que filmes coletivos sempre mostrem altos e baixos, o resultado anima - parece estar nascendo aqui uma boa nova geração de diretores e atores.
 
Em entrevista concedida em Cannes, os sete diretores (alguns episódios tem dois diretores) contaram que a diferença de tons e gêneros,que vão do drama policial à comédia, surgiu naturalmente. A ordem dos episódios também foi sendo testada, até chegar à forma final. Eles passaram dois meses conversando semanalmente com Cacá Diegues, para formatar o projeto.
 
Finalmente, com elenco escolhido (boa parte dele egresso das diversas comunidades de que eles fazem parte e também de outras), ensaiaram durante um mês. “Como uma peça de teatro”, comparou Luciana Bezerra, que é do Vidigal, do grupo Nós do Morro, e dirigiu o divertido episódio final, Acende a Luz.
 
Franceses sem brilho
 
O terceiro filme francês concorrente à Palma de Ouro, Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, desperdiçou um tema altamente relevante com um roteiro e encenação tímidos. O enredo recupera a história de um mosteiro católico nas montanhas da Argélia, em que os monges viviam em harmonia com a população muçulmana. Até o dia em que sete deles serão sequestrados e mortos, aparentemente por milícias islâmicas ultrarradicais, em 1996.
 
Contando com um elenco tarimbado, integrado por Lambert Wilson, Michael Lonsdale e Olivier Perrier, o filme poderia ter explorado bem melhor as contradições da situação dos monges, pressionados tanto pelo governo local como pelas milícias radicais. O enredo, aliás, nem deixa claro que os massacres em que se degolavam civis eram usados por ambos os lados. Muito menos insinua a possibilidade, mencionada no material de imprensa do filme, de que os monges possam ter sido mortos pelas autoridades e não pelos terroristas.
 
Assim, não surge aqui o grande filme político que poderia ser. Des Hommes et des Dieux encanta-se demais pela tentativa de santificar os monges, sem dúvida, pessoas abnegadas e admiráveis, vítimas da intolerância mais cega. 

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