Festival de Cannes 2010

Cannes mergulha fundo em dramas da Ucrânia e Coreia do Sul

Neusa Barbosa

Cannes –Veterano documentarista, nascido na Bielorússia e formado em Cinema em Moscou em 1997, Sergei Loznitsa pinta o retrato mais desolador possível da realidade contemporânea no território onde há 21 anos existia a URSS no drama My Joy, concorrente à Palma de Ouro em que o título (Minha Alegria) é uma ironia trágica. Perto deste filme, a obra de Michael Haneke parece quase leve.

O agente para a revelação de um universo sombrio e sem qualquer sinal de esperança é Georgy (Viktor Nemets), um jovem caminhoneiro que leva uma carga para entregar em algum ponto do interior russo. Consegue escapar do primeiro obstáculo, um encontro com dois guardas corruptos, e fica preso num congestionamento. Procurando uma rota alternativa, vai embrenhar-se por estradas sem asfalto e um beco sem saída.
 
O único momento de bondade acontece quando Georgy encontra uma menina prostituta (Olga Shuvalova). A reação violenta dela à intervenção bom-mocista e talvez ingênua de Georgy prepara o que vem pela frente. O próprio motorista será alvo de marginais, capazes de qualquer coisa para apoderar-se de sua misteriosa carga – que, afinal, não passa de farinha.
 
Georgy sobrevive a um ataque de violência, mas segue uma existência de mero morto-vivo, num ambiente em que, como num livro de Dostoievski, todos são movidos pelas pulsões mais extremas, sem limites, nem moral, mergulhados no crime e sem nenhuma preocupação de castigo. Nada mais distante da paternidade, tema do chinês Chonging Blues, do africano A Screaming Man e da coprodução mexicano-espanhola Biutiful.
 
My Joy causou profunda impressão e não foram poucos os jornalistas que viram nele uma possível Palma de Ouro. Vai depender de como este filme inegavelmente contundente bateu nos espíritos do júri comandado por Tim Burton.
 
Avó coreana
 
Foi numa chave bem mais intimista, embora também bastante triste, a história do segundo concorrente à Palma pela Coreia do Sul, Poetry, de Lee Changdong (diretor de Secret Sunshine, que venceu o prêmio de melhor atriz em Cannes em 2007). Contrastando com os paternais filmes citados acima, aqui o pai é ausente. Aliás, a mãe também. Ela vive longe do filho adolescente, Wook (Lee David), que é criado pela avó, Mija (Yun Junghee).
 
A avó amorosa faz o que pode e o que sabe. Mas não tem repertório para lidar com a grande tragédia que se abate sobre sua família, quando se descobre que seu neto e outros cinco amigos vinham estuprando uma colega de escola, Agnes, que terminou suicidando-se.
 
A procura de expressar-se move o horizonte de Mija, que há pouco matriculou-se num curso de poesia. Ela procura compor um poema e não encontra as palavras, assim como não encontra como falar com o neto, como dizer o que houve à filha, como responder às pressões dos pais dos outros garotos para que consiga sua parte do dinheiro para indenizar a mãe da menina morta.
 
O rosto da esplêndida atriz é a paisagem onde se descortina todo este drama que, afinal de contas, escapa um pouco demais para o melodrama, é excessivamente longo, deixando escapar sua força sob o peso de alguns clichês – por mais que o tema da responsabilidade juvenil seja oportuno, objeto também de Chatroom, do japonês Hideo Nakata. Algumas coisas nunca mudam mas, a cada geração, assumem uma face, como lembram estes dois filmes orientais.
 
Terrorismo em foco
 
Uma atração fora da competição na tarde desta quarta (19) foi a exibição integral da minissérie para a TV Carlos, em que o diretor francês Olivier Assayas (Horas de Verão) comanda a telebiografia do famoso terrorista internacional Ilitch Ramírez Sánchez.
 
Venezuelano como o terrorista – que está hoje na prisão, cumprindo pena perpétua – o ator Edgar Ramírez (visto em filmes como O Ultimato Bourne) está à vontade no papel do terrorista, que se tornou uma das mais conhecidas celebridades do mal a partir dos anos 70, por trás de inúmeros atentados e assassinatos pelo mundo.
 
Produzida em três capítulos – num total de 5h33 – pela emissora Canal +, Carlos teve seu roteiro desenvolvido a partir de uma pesquisa do jornalista Stephen Smith, ao longo de dois anos. Inicialmente, o projeto foi oferecido a diretores diferentes – como Pavel Lungine, Amos Kollek e Gabriel Aghion – e começou a ser tocado com o romeno Radu Mihaileanu (Trem da Vida). Quando ele saiu fora, Assayas recebeu o convite.
 
O resultado é uma superprodução bastante bem-cuidada, inclusive no respeito às línguas faladas pelos personagens (naturalmente, ouve-se muito espanhol), além das paisagens (houve filmagens em diversos países da Europa e Oriente Médio). Anuncia-se aqui que haverá também uma versão reduzida para o cinema. Seria interessante que alguma delas fosse lançada no Brasil.

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