Festival de Cannes 2010

Polêmica sobre independência argelina mobiliza Cannes

Neusa Barbosa

Cannes – O festival amanheceu nesta sexta-feira (21), antevéspera de seu encerramento, de frente para uma polêmica muito local, sobre as feridas da independência argelina reabertas no drama francês (em coprodução com a Argëlia, Tunísia e Bélgica) Hors de La loi, de Rachid Bouchareb – o diretor de Dias de Glória, que abordava outra dívida histórica com os argelinos e seus descendentes que lutaram pela França na II Guerra Mundial. Concorrente à Palma de Ouro em Cannes há quatro anos, Dias de Glória saiu do festival com um prêmio coletivo de interpretação masculina.
 
Hors de La loi pisa em terreno bem mais minado, até porque não trata apenas de disparar munição crítica contra os crimes dos colonizadores franceses, o que certamente faz, especialmente no retrato do chamado massacre de Sétif, em 1945. A reconstituição do massacre, que teria custado a vida de milhares de argelinos (as cifras variam de 2.500 a 45.000, dependendo das fontes) e em torno de 100 europeus, é um dos principais motivos do chamado ao boicote ao filme por parte de deputados da direita e extrema-direita francesa, caso de Lionnel Luca e o notório Jean-Marie Le Pen. Luca, aliás, participou de uma barulhenta passeata, reunindo ex-veteranos da Argélia e moradores de Cannes (reduto dos partidos de direita com programas de restrição a imigrantes estrangeiros), que passou pela Croisette bem na hora da sessão de Hors de la loi. A cidade aqui, aliás, viveu um dia de inusual tensão em termos de procedimentos de segurança, inclusive na revista dos jornalistas e convidados que viram o filme no Palais des Festivals.
 
Nenhum dos políticos ou desses manifestantes assistiu ao filme – que seria projetado simultaneamente hoje em Cannes e na Argélia - , o que se tornou o primeiro argumento de defesa do diretor, na coletiva do filme, em Cannes. Ele lembrou que sua obra anterior, Dias de Glória, havia sido tachada de “antifrancesa” na época, por pessoas que não a haviam visto. “Obviamente, não era verdade e aconteceu de novo agora”. Bouchareb, um parisiense de origem argelina, sustentou que sua intenção “não foi criar discórdia e sim abrir espaço para um debate que possibilite que possamos amanhã virar esta página”.
 
Para o diretor, as reações contra este novo filme são “exageradas”. Ele gostaria, inclusive, que toda as polêmicas envolvendo os argelinos fossem superadas: “Não há razão para que as futuras gerações continuem a discutir toda esta história passada. É momento de seguir adiante, passar para outros temas”.
 
Um olhar mais sereno sobre o filme, que acompanha três irmãos (Sami Bouajila, Roschdy Zem e Jamel Debbouze) cujas vidas são drasticamente mudadas pelo engajamento de dois deles na militância e nos atentados a favor da FLN (a frente pró-argelina), deixa claro que o retrato dos guerrilheiros argelinos não é sempre edificante.
 
Por mais que humanize esta família central e justifique ao menos a adesão inicial dos argelinos a favor de sua causa, bem cedo se expõe a impiedade dos militantes, promovendo atentados e matando todos aqueles que se opõem às suas diretrizes.
 
Sem dúvida, Hors de La loi tem uma agenda politicamente correta, a de reafirmar a dignidade dos pied noirs – como são chamados os argelinos e seus descendentes, um grupo onde figura o escritor Albert Camus. A onda de criticismo que se levanta na direita francesa, no entanto, tem mais a ver com um tipo de nacionalismo exacerbado, que não gosta de ver os franceses retratados como colonizadores impiedosos, capazes de cometer massacre de civis e tortura – o que se trata de História, não difamação.
 
Iraque em foco
 
Dois outros filmes da competição focalizaram, de maneiras radicalmente diferentes, embora críticas, da guerra do Iraque. O mais contundente, sem dúvida, o novo filme do inglês Ken Loach, realizando em Route Irish, que entrou em cima da hora na competição, um de seus filmes mais enraivecidos.
 
Não que o bom e velho Loach abandone o humanismo. O alvo de sua fúria são os empreendedores capitalistas que transformaram em lucrativo negócio a segurança de pessoas e cargas no país mais perigoso do mundo, o Iraque. O roteiro de seu habitual parceiro, Paul Laverty, não deixa qualquer dúvida quanto a isso e elege um protagonista, Fergus (Mark Womack), como portador desta ira, mobilizada para vingar a morte de seu melhor amigo, Frankie (John Bishop).
 
Os dois cresceram juntos e não se largavam para nada. Quando surge a possibilidade de ganhar uma grana alta fazendo a segurança de pessoas e cargas na Route Irish – a estrada entre a zona verde e o aeroporto de Bagdá -, Fergus vai primeiro. Convence Frankie a segui-lo. Quando o filme começa, no entanto, Frankie já está despedaçado dentro de um caixão.
 
Route Irish é implacável com o tema da responsabilidade e da éticae nãoelege herois. Por mais que se empatize com a dor genuína de Fergus e sua obsessão por esclarecer as circunstâncias da morte de Frankie – onde há indícios de uma queima de arquivo -, ele mesmo é questionável, por escolher fazer justiça com as próprias mãos. Mas os vilões permanecem os mesmos, os frios empreendedores capazes de procurar oportunidades de negócio em cima do medo e da dor alheias, sem nenhuma culpa.
 
Numa chave bem mais diluída e bastante insatisfatória jogou o único candidato norte-americano à Palma de Ouro, Fair Game, de Doug Liman. O novo filme do diretor de A Identidade Bourne (2002) aborda uma história verídica, a exposição da identidade da agente da CIA, Valerie Plame, em julho de 2003, para desmoralizar seu marido, o embaixador Joe Wilson. Ele era então um feroz crítico da administração Bush, que, por ter servido em diversos países africanos e no próprio Iraque, tinha argumentos de peso para derrubar os argumentos do governo para iniciar a guerra do Iraque – ou seja, a existência de armas de destruição de massa, que se provou ser não mais do que uma lenda.
 
Interpretada por Naomi Watts, a protagonista assume o papel de uma fiel servidora da pátria desiludida por uma quadrilha de malfeitores que dominou o governo, na administração Bush – que aparece diversas vezes em reportagens de TV. No papel do boquirroto embaixador, Sean Penn parece bem mais à vontade – e é fácil perceber porque ele, um cidadão engajado na vida real, aceitou fazer este papel. Mas o filme é bem limitado, sem maior brilho nem personalidade. Mais um título cuja presença não se justifica na seleção de Cannes 2010.
 
Fantasia tailandesa
Com sua chegada a Cannes atrasada em pelo menos um dia em função dos recentes distúrbios em seu país natal, a Tailândia, o cineasta Apichatpong Weerasethakul apresentou sua nova fantasia, Uncle Boonmee who can recall his past lives.
 
O Boonme citado no título do filme é uma pessoa real, um monge que o diretor conheceu e é o autor de um livro relatando suas memórias de vidas passadas, em que ele teria sido, entre outros seres, uma vaca. O enredo do filme apropria-se desta crença, comum a vários camponeses da Tailândia, segundo o material de imprensa do filme. O que se vê na tela é um mergulho nas inusitadas vivências de Boonmee (Thanapat Saisaymar) e das pessoas que o cercam – inclusive o fantasma de sua mulher, Huay (Natthakarn Pongpas), e o filho dele, Boonsong (Geerasak Kulhong), que se transformou num macaco-fantasma, com o corpo todo coberto de pelos negros e olhos vermelhos.
 
Essa mitologia toda não é simples de digerir, nem mesmo levada a sério por todo mundo. Na primeira sessão de imprensa do filme, na noite de quinta, ouviram-se algumas boas risadas – especialmente na primeira aparição dos macacos fantasmas e numa bizarra cena de sexo aquático, entre uma velha princesa e um peixe falante (que evocou uma cena semelhante, vista no filme de Pedro Almodóvar, Ata-me!, envolvendo a atriz Victoria Abril e um mergulhadorzinho de brinquedo).
 
Indiscutivelmente, há bastante humor no filme de Apichatpong e até algum sutil comentário político – como quando, numa sequência perto do final, ele se refere a um sonho do protagonista, que fala de um futuro em que as autoridades teriam o poder de fazer as pessoas desaparecerem. Talvez a Tailândia seja mesmo, como a América Latina, uma terra em que o realismo fantástico é matéria-prima do cotidiano.

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