Festival de Cannes 2010

Cannes encerra as apostas em ano de pouco brilho

Neusa Barbosa

Cannes – O sábado (22) em Cannes é puro clima de encerramento. Hora de balanço: não deu para se entusiasmar nada com a passagem dos dois últimos concorrentes à Palma de Ouro, o húngaro Tender Son – The Frankenstein Project, de Kornél Mundruczó, e o russo The Exodus – Burnt by the Sun 2 de Nikita Mikhalkov. Difícil acreditar que premiação maior vá para um deles. Mas júri que é júri sempre tem alguma premiação imprevisível. Melhor esperar a noite de amanhã para ver como a irregular seleção deste ano no festival bateu nos ânimos dos jurados, comandados por Tim Burton.
 
Numa coisa todos concordam – 2010 não será lembrado como um ano brilhante da seleção. Nesse contexto, as bolsas de apostas das principais publicações oscilam entre Another Year, um ótimo exemplar com a assinatura do inglês Mike Leigh; Copie Conforme, um momento iluminado de Abbas Kiarostami; Biutiful, um Alejandro González Iñárritu dramturgicamente intenso; o criativo e divertido Uncle Boonmee Who can recall his past lives, de Apichatpong Weerasethakul; e o pesadão My Joy, de Sergei Loznitsa. Candidatos a melhor ator sobram – com o espanhol Javier Bardem talvez com uma ligeira vantagem, pela sua dilacerante interpretação como um pai em estado de emergência. Entre as atrizes, há menos bons papeis, mas a francesa Juliette Binoche em Copie Conforme resplandece. Seria lindo que ela ganhasse.
 
O Brasil, que teve presença discreta, apenas em seções paralelas (com os longas 5 x Favela, coordenado por Cacá Diegues com um grupo de novos diretores cariocas; e A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande, na Quinzena dos Realizadores) concorre à Palma de curta-metragem, com Estação, de Márcia Faria. Protagonizado por Caroline Abras (vista no curta Alguma Coisa Assim e no longa Se nada mais der certo), o filme conta a história de uma jovem que veio a São Paulo tentar a carreira de atriz e, enquanto o projeto não decola, mora na rodoviária do Tietê. A atriz Denise Weinberg faz uma ponta.
 
Paternidade em foco
 
A paternidade, definitivamente, foi o tema central do ano e esteve presente também nestes dois últimos concorrentes. O pretensioso Tender Son – The Frankenstein Project, de Kornél Mundruczó, revisitou livremente – bote-se livremente nisto – o clássico do terror de Mary Shelley, Frankenstein, para criar uma história em torno de um jovem de 17 anos, Rudi (Rudolf Frecska), e um diretor de cinema, Viktor (interpretado pelo próprio diretor).
 
O Frankenstein que há em Rudi emerge de sua inadequação, sua falta de lugar no mundo – ele nem mesmo sabe quem é seu pai, no começo do filme. A orfandade, sua grande questão, desemboca numa violência cega. Ele tanto pode se apaixonar por alguém, como a delicada Magda (Kitty Csikos), como matar. Uma fileira de cadáveres é o que resta depois de sua passagem.
 
Este criador e esta criatura, pai e filho, finalmente vão conviver e tentar encontrar um denominador comum, numa paisagem desoladoramente coberta de neve – como na história original de Shelley. Mas o filme toca muito pouco. Parece mais um amontoado de pretensões mal-costuradas do que outra coisa.
 
Novelões
 
Outra marca da seleção deste ano, esta, negativa, foi a presença de melodramas tipo novelões – como a produção de época La Princesse de Montpensier, de Bertrand Tavernier (que não honrou sua carreira anterior), o sul-coreano Housemaid, de Im Sang-soo, e finalmente também o russo The Exodus – Burnt by the Sun 2, de Nikita Mikhalkov.
 
Sequência de O Sol Enganador (que venceu o Grande Prêmio do Júri aqui em 1994 e o Oscar de filme estrangeiro no ano seguinte) e parte intermediária de uma prometida trilogia (o que soa como ameaça, diante do resultado deste filme), a história retoma as pegadas do general Kotov (vivido pelo próprio Mikhalkov), um perseguido pelo estalinismo.
 
Escapando do campo em que esteve detido nos primeiros dias da II Guerra Mundial, Kotov reencontra seu eixo nos campos de batalha contra os alemães. As batalhas, aliás, consumiram boa parte do generoso orçamento desta superprodução, que foi dividida em duas partes (esta é a primeira), estimado em US$ 40 milhões, o maior da história do cinema russo. O diretor não poupa o público de uma explosão, de uma exposição de vísceras e sangue, com soldados esmagados por tanques vistos a todo momento. Nem parece que os russos venceram a guerra contra os nazistas.
 
A filha do general, Nadya (Nadezhda Mikhalkova), por sua vez, descobre que o pai está vivo. Mas os caminhos dos dois, no país devastado pela guerra, nunca se encontram. O encontro vai ficar para a próxima parte da trilogia, já realizada Talvez fosse melhor que não tivesse sido feita. Esta segunda parte sozinha já foi desnecessária, não acrescentou mesmo nada a O Sol Enganador.

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