Festival de Cannes 2010

Ano de tormenta, clássicos e filmes enigmáticos

Neusa Barbosa

Precedido por dias de tempestades e ondas gigantes que abalaram a Riviera na primeira semana de maio, começa nesta quarta (12-5), com a exibição de Robin Hood, de Ridley Scott, o 63º Festival de Cannes. Torcendo para que o clima de tormenta se acalme e não contamine a seleção de filmes deste ano, em que há algumas apostas enigmáticas da comissão de seleção, é de se notar que a competição principal, pela Palma de Ouro, encolheu um pouquinho – são 19 concorrentes à Palma de Ouro, contra uma média de 20 mantida nos últimos anos. Como de hábito, a maioria é de filmes ou coproduções europeus. Só há um americano na disputa (Doug Liman, com Fair Game), quatro asiáticos e um solitário e raro representante africano, que vem do Chade: A Screaming Man, de Mahamat-Saleh Haroun.
 
Ao contrário do ano passado, uma das melhores seleções da história do festival, com filmes da qualidade de A Fita Branca, de Michael Haneke (a Palma 2009), O Profeta, de Jacques Audiard (lamentavelmente, ainda inédito no Brasil), Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar, Anticristo, de Lars von Trier, Sede de Sangue, de Park Chan-wook, Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, À Procura de Eric, de Ken Loach, e Ervas Daninhas, de Alain Resnais, em 2010 pareceu difícil fechar a lista da seção que é a mais cobiçada de Cannes. Aparentemente porque filmes esperados, como o novo de Terrence Malick, Tree of Life, não estavam prontos.
 
De todo modo, entre os 19 competidores da Palma, alinham-se pesos-pesados, como os ingleses Mike Leigh (que já venceu o prêmio em 1996, com Segredos e Mentiras e agora vem com Another Year), e Ken Loach (ganhador da Palma 2006 com Ventos da Liberdade e agora apresentando outro drama político, Route Irish); o mexicano Alejandro González Iñarritu (que traz Biutiful, com Javier Bardem); o iraniano Abbas Kiarostami (vencedor da Palma 1997 com Gosto de Cereja e que volta agora com Certified Copy, com Juliette Binoche); o francês Bertrand Tavernier (com La Princesse de Montpensier, sua quarta tentativa de concorrer à Palma);o russo Nikita Mikhalkov (com Burnt by the Sun 2, sequência de Sol Enganador, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes 1994 e do Oscar de filme estrangeiro);e o japonês Takeshi Kitano (comparecendo como drama policial Autoreiji).
 
Há também cineastas promissores como o italiano Daniele Luchetti (de Meu irmão é filho único, e que agora apresenta La nostra vita) e outro francês, o ator Mathieu Amalric (Conto de Natal), indo para atrás das câmeras no concorrente Tournée, seu terceiro longa, em que também atua. Somam-se diretores menos conhecidos, como o concorrente chinês Chongqing Blues, de Wang Xiaoshuaï, e o húngaro Tender Son - The Frankestein Project, de Kornél Mondruczó.
 
 
Um olhar para Manoel e Godard
 
Na seção Un Certain Regard, principal mostra paralela, igualmente não faltam grandes nomes, o principal, o veterano da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard – completando 80 anos este ano – e que apresenta seu novo trabalho, Film-Socialisme, estrelado pela roqueira Patti Smith.Há que se celebrar igualmente a convocação doportuguês Manoel de Oliveira, de 102 anos, mostrando O Estranho Caso de Angélica (uma coprodução com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo). Há também I Wish I knew, o novo trabalho do diretor chinês Jia Zhang-ke (Still Life - Em Busca da Vida) e Carancho, de Pablo Trapero (conhecido no Brasil por Família Rodante e Leonera).
 
Fora de competição, estarão os novíssimos de Woody Allen (You will meet a tall dark stranger, mais uma vez filmado na Europa), Oliver Stone (Wall Street – Money Never Sleeps) e Stephen Frears (Tamara Drewe, comédia estrelada por Gemma Arterton, que logo mais será vista em Príncipe da Pérsia).
 
América do Sul em baixa
 
Mais uma vez, a América do Sul teve escassa representação. Há apenas dois filmes argentinos (Los lábios e Carancho) e um peruano (Octubre), todos na mostra Un Certain Regard. O Brasil estará representado por Cacá Diegues, que apresentará, fora de competição, o projeto que produziu, 5 vezes Favela – Agora por Nós Mesmos, retomada do filme coletivo do Cinema Novo, de 1961 - agora entregue a novos diretores selecionados em comunidades cariocas - além de integrar o júri da seção Cinéfondation.
 
Nesta seção, também competitiva e que reúne trabalhos de formatura de estudantes de cinema de todo o mundo, há um curta de produção cubana mas dirigido por uma brasileira, Os Minutos, As Horas, de Janaína Marques, nascida em Brasília e residente no Ceará.
 
Fora isso, o Brasil tem um curta na competição, que também vale Palma de Ouro do formato: Estação, de Márcia Faria. Outra seção paralela com prêmio próprio, a Quinzena dos Realizadores, selecionou A Alegria, de Filipe Bragança e Marina Méliande, dupla por trás do sucesso cult de festivais brasileiros A Fuga da Mulher Gorila, ainda inédito no circuito comercial.  Outra seção paralela com premiação, a Semana da Crítica, escolheu o curta A distração de Ivan, de Cavi Borges e Gustavo Melo.
 
O encanto dos clássicos
 
Uma cópia restaurada de O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, será a atração brasileira confirmada dentro da programação paralela Cannes Classics. O filme venceu em 1985 o prêmio de melhor ator (William Hurt) em Cannes. Estarão presentes, além do diretor e do ator, também a atriz Sonia Braga.
 
Além do filme de Babenco, outras grandes jóias cinematográficas deste programa serão uma versão restaurada e acrescida de uma sequência inédita de Boudu Salvo das Águas, de Jean Renoir; e uma versão restaurada de Psicose, de Alfred Hitchcock (no qual se realizou uma reconstrução sonora).
 
Outras raridades recolocadas em circulação nesta seção serão Tristana, de Luis Buñuel (cuja sessão será apresentada por Pedro Almodóvar), O Leopardo, de Luchino Visconti (Palma de Ouro em Cannes em 1963), O Tambor, de Volker Schlondorff (Palma de Ouro em 1979, que será vista numa versão não só restaurada, como remontada pelo diretor).
 
Criada em 2004, a seção Cannes Classics será apresentada no Palais des Festival, sede principal das principais sessões do evento, com reapresentações no La Licorne.
 
A World Cinema Foundation, fundada em Cannes por Martin Scorsese em 2007, também exibirá no festival alguns filmes recentemente restaurados : Mest (La Flute de roseau) de Ermek Shinarbaev, (Casaquistão, 1989), Két Lány Az Az Utcán (Deux filles dans la rue) de André de Toth (Hungria, 1939,) e Titash Ekti Nadir Naam  (Une rivière nommé Titash) de Ritwik Ghatak (India, 1973,). As cópias destes filmes provêm das cinematecas destes países e foram restauradas pela Cinemateca de Bolonha/l’Immagine Ritrovata.
 
A Cinemateca de Bolonha, por sua vez, apresentará dois curtas-metragens: Il Ruscello di Ripasottile (Itália, 1941), de Roberto Rossellini, e The Eloquent Peasant, de Chadi Abdel Salam (Egito, 1970).
 
Infelizmente, ninguém tem tempo de ver todo esse incrível arsenal da atrações, que são uma prova do prestígio de Cannes e seu poder para reunir de uma vez uma programação desse porte. Tomara que as apostas da organização venham ao encontro dos melhores sonhos dos cinéfilos.

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