Festival de Cannes 2010

Cannes decola com "Robin Hood"

Neusa Barbosa

Cannes decola com "Robin Hood"
Não houve tormenta nem cinza de vulcão capaz de deter o gladiador. Russell Crowe, que desembarcou na Riviera, ao lado de Cate Blanchett, compondo uma bela dupla da remota Oceania. Ele neozelandês, ela australiana, desprezaram as conveniências geográficas para encarnar Robin Hood, a nova versão globalizada da lenda do nobre heroi britânico das matas de Nottingham, que há muito personaliza a diferença de classes e a incontornável necessidade do andar de baixo de arrancar o que é seu do andar de cima – nem que seja a poder de setas metálicas.
 
Justiça seja feita – o filme tem seu charme ao criar uma nova intriga, envolvendo um traidor do reino da Inglaterra, Godfrey (Mark Strong, o vilão de Sherlock Holmes), que se alia aos franceses para derrubar o jovem, afoito e incompetente rei inglês, John (Oscar Isaac) depois da morte de seu querido irmão, Ricardo Coração de Leão (Danny Huston) – que podia ter liderança e ser querido de todos mas com certeza esgotou os recursos financeiros e a paciência de seu próprio povo antes de partir, por sua própria imprudência no campo de batalha, aliás.
 
O filme de Ridley Scott (que decepcionou as expectativas ao não comparecer pessoalmente à exibição aqui, por conta de uma alegada operação de joelho) certamente passa essa ideia básica do conceito de Robin Hood – a desconfiança em relação a todos os poderosos de plantão. Afinal, o próprio rei Ricardo não foi assim tão justo com um vassalo leal como Robin Longstride (Russell Crowe).
 
Essa ironia é o melhor traço do heroi plebeu e infiltra a dose necessária para suportar a previsível alta carga de testosterona, adrenalina, batalhas, mortos e feridos ensangüentados do filme.
 
Discretamente, Scott encaixa também suas admirações cinematográficas – a sequência inicial, um ataque de saqueadores infanto-juvenis na propriedade de Marianne Loxley (Cate Blanchett) na penumbra tem um quê de Star Wars com um tempero samurai. A sequência final, por sua vez, deve muito a Spielberg em sua batalha da Normandia na II Guerra de O Resgate do Soldado Ryan – o desembarque pelo mar, os soldados afundando, o sangue tingindo as ondas. É uma homenagem e o que é bom deve ser homenageado.
 
Admiravelmente linda e gentil no enfrentamento com o batalhão barulhento de fotógrafos desta manhã de quarta (12), envergando um tailleur branco e uma aura de diva, Cate Blanchett reforça o lado feminista pioneiro de Lady Marianne – desde a resistência que opõe de leve ao plano pragmático de seu sogro (Max von Sydow) de fazê-la tolerar em seu quarto Robin Longstride, assumindo a identidade de seu marido (cavaleiro real que morreu em batalha) para impedir que a família perca suas terras, ainda mais no reinado do rei despótico e caçador de impostos - como um certo prefeito da maior cidade do Brasil.
 
De todo modo, Robin Hood foi apenas o aquecimento. O festival mesmo começa somente nesta noite, com a sessão de gala do filme de Ridley Scott, que dá a partida na aura mundana que alimenta todo este circo cinematográfico chique, e com a passagem do primeiro concorrente à Palma de Ouro, Tournée, de Mathieu Amalric – que é mais conhecido por sua porção ator, mas que é bem capaz de revelar talento neste seu outro lado, que ele exerce há um bom tempo também, embora não seja tão conhecido entre os brasileiros. Em Tournée, aliás, ele exercita os dois lados.

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