Festival de Cannes 2010

Intimismo dá a partida na competição em Cannes

Neusa Barbosa

Cannes - Quinta-feira cheia de atrações em Cannes, onde o tempo ensolarado durante o dia continua a desafiar as previsões meteorológicas – por mais que uma chuvinha noturna e ar gélido também confiram um ar particular a esta primavera.
 
Primeiro concorrente à Palma de Ouro neste peculiar ano de 2010, Tournée, com direção e atuação de Mathieu Amalric, revelou-se o típico filme de ator – ou seja, em que a história gira em torno de seus intérpretes, literalmente até, porque trata de seu métier. E também porque se coloca a serviço deles na medida exata para que a cada um correspondam pequenos momentos luminosos, pequenos solos.
 
Contando com uma trupe de atrizes norte-americanas, peritas em números de cabaré que se convencionou chamar de new burlesque, Amalric oferece uma nova encarnação do que seriam personagens tipicamente fellinianas, só que marcadas por um sentido de humor melancólico com um toque cerebral, bem mais francês – o que impede a história de chegar a um registro mais camp, mais John Waters.
 
O próprio ator interpreta Joachim Zand, empresário de Mimi Le Meaux (Miranda Colclasure), Kitten on the Keys (Suzanne Ramsey), Dirty Martini (Linda Marracini), Julie Atlas Muz (Julie Ann Muz) e Evie Lovelle (Ângela de Lorenzo). A trupe viaja pelo mapa da França, apresentando seu cabaré cômico-malicioso, cada um de seus integrantes sonhando uma utopia diferente. Elas todas, americanas de olho na lenda que é Paris. Ele, um ex-produtor de TV que caiu em desgraça, sonhando em fazer a América em seu próprio país.
 
A alma da história – que tem roteiro de Amalric e três outros parceiros – alimenta-se desses pequenos segredos e mentiras dos personagens entre eles mesmos e em relação às pessoas encontradas pela estrada. Parecem um circo mambembe moderno, com as mesmas questões de instabilidade e solidão.
 
Um momento que lembra A Menina Santa, de Lucrecia Martel, passa-se no final, ambientado num hotel vazio, com uma piscina seca. Uma metáfora, como tantas outras mais, deste filme sobre uma arte sitiada pelas necessidades pragmáticas de sua produção. Mathieu Amalric, com certeza, despejou muito de sua própria vivência e a dos colegas neste filme extremamente pessoal, em que nem sempre é fácil manter uma empatia com as personagens. É um filme mais de asperezas do que de maciez.
 
Paternidade em crise
 
O rosto do ator Wang Xueqi é o território sensível onde se desenvolve o cerne do drama Chongqing Blues, o segundo concorrente à Palma, do diretor chinês Wang Xiaoshuai.
 
O impressionante Xueqi traduz com precisão a dor e a culpa deste pai, que é capitão de um navio, volta à cidade de Chongqing para decifrar a morte violenta de seu filho mais velho, Lin Bo (Zi Yi), de cuja mãe era separado há vários anos.
 
Lin Bo foi morto por um policial depois de fazer reféns num shopping center. Aparentemente, seus atos desesperados naquele dia tiveram ver com a separação da namorada, Xiao wen (Li Feier). Mas o pai não se contenta com as informações da crônica policial, insistindo com uma persistência mansa, mas incansável, em ouvir cada uma das pessoas capazes de preencher as lacunas da história que ele perdeu, por não ter visto o filho nos últimos 15 anos: a ex-mulher, o policial que o matou, a namorada, a médica que foi feita refém e o melhor amigo (interpretado por Qin Hao, ator de Spring Fever).
 
Nessa crônica de uma morte anunciada, que tem um acento do clássico Rashomon, de Akira Kurosawa, o mais notável é a contenção nas interpretações, que lhes imprime maior intensidade. Não há nenhuma pieguice, apesar da alta carga de emoções, neste admirável drama intimista, marcando a maturidade do diretor Xiaoshuai, que teve exibido no Brasil o belo Bicicletas de Pequim (2001).
 
Nostalgia e eternidade
 
Abrindo a seção paralela Un Certain Regard, Manoel de Oliveira, reuniu uma coleção de bem-guardadas preciosidades do fundo do baú de sua imaginação, filmando uma história que imaginou pela primeira vez em 1952, O Estranho Caso de Angélica.
 
Aos 101 anos, o mestre português é um caso raro pela longevidade, literal e cinematográfica, filmando regularmente e apresentando obras nutridas pelas referências e reflexões de toda esta vida. Por isso, Oliveira é, muitas vezes, quase um filósofo, quando filma e quando fala, como na concorrida coletiva do filme, na tarde desta quinta-feira, aonde até o todo-poderoso presidente do festival, Gilles Jacob, fez questão de dar uma espiadinha.
 
Oliveira cogitou pela primeira vez em fazer este filme no pós-II Guerra, motivado pela matança de judeus na Europa por Hitler. O protagonista desta história é, aliás, um judeu sefardita, Isaac (Ricardo Trêpa, o neto e seu ator-fetiche), um detalhe notável por si, diante do catolicismo majoritário em Portugal. A morte igualmente é uma presença constante, uma vez que Isaac, um fotógrafo, é assombrado por suas impressões sobre Angélica (Pilar López de Ayala), uma jovem rica morta, cuja mãe (Leonor Silveira) pediu ao rapaz que a fotografasse em seu leito de morte para guardar uma última imagem da filha.
 
A partir deste começo, toda a situação é mesmo muito surreal, com um toque macabro, especialmente porque o fotógrafo não consegue tirar da cabeça a bela morta – que ele vê como um fantasma que o leva para voar, em sequências em que o centenário Manoel de Oliveira fez uso da animação 3D.
 
Este uso de uma tecnologia de última geração num filme que se relaciona a todo momento com a nostalgia do passado – como no apego do fotógrafo ao filme analógico e sua preferência por fotos de trabalhadores manuais – é apenas um dos sinais da particular visão de Oliveira. Que não pode ser reduzido a um mero saudosista, já que fala tanto desse trabalho agrícola manual em extinção como dos piores dilemas contemporâneos, como a crise econômica mundial, a poluição e a complexidade da matéria e antimatéria – estes todos assuntos de uma conversa entre engenheiros, da qual participa a atriz brasileira Ana Maria Magalhães.
 
Esta síntese entre passado e presente, aliás, é a própria essência de Oliveira, um homem centenário carregando a memória de tudo o que viveu e com os pés no presente. Sua coletiva foi uma aula de lucidez e ironia, em que ele falou de tudo, de cinema, de amor, da defesa da câmera parada (“os atores é que se mexem”), de Deus, do papa (com quem ele se encontrou estes dias), de Deus, do padre Antônio Vieira, de quem citou trechos de seus Sermões.
 
Ao Brasil, ele declarou amor. Comentou o fato de seu novo filme ser uma coprodução com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, agradecendo a Leon Cakoff, diretor da Mostra, sua ajuda e a indicação da “admirável” atriz brasileira. Lembrando Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, afirmou também que “o Brasil é muito importante para Portugal, pela extensão da nossa língua e por ter uma personalidade verdadeiramente forte”. Por essa personalidade, completou, “quem vive no Brasil é brasileiro, mesmo não tendo nascido lá”.

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