Festival de Cannes 2010

Entre a luz e a sombra com documentário chileno e melodrama coreano

Neusa Barbosa

Entre a luz e a sombra com documentário chileno e melodrama coreano

Cannes – Uma das sensações mais fascinantes de estar em Cannes é a gangorra de emoções que se pode passar num único dia, numa programação que reúne centenas de filmes, contadas todas as mostras. Você passa do melhor ao pior, ou do pior ao melhor, às vezes em poucos minutos.

De todo modo, o primeiro final de semana do festival promete. Hoje mesmo, à tarde, as retinas se renovam com uma cópia novinha, restaurada, do clássico, O Leopardo, de Luchino Visconti, entre os Cannes Classics - seção que foi aberta ontem com a coprodução EUA/Brasil O Beijo da Mulher-Aranha, com a presença de Sonia Braga e Hector Babenco.
 
Neste sábado e domingo, passam os novos Mike Leigh (concorrendo à Palma com Another Year, com a talentosa dupla Jim Broadbente Imelda Staunton), Woody Allen (aliando-se a Antonio Banderas, Naomi Watts, Anthony Hopkins e outros em You Will Meet aTall Dark Stranger), Bertrand Tavernier (com filme de época com toda uma nova geração de starlets franceses), Jia Zhangke (Hai Shang Chuan Di), e Takeshi Kitano(Outrage). A temperatura está subindo, num ano bem imprevisível.
 
Estrelas e ossos
 
Emoção da melhor qualidade foi o que emanou de Nostalgia de La Luz (foto), novo documentário do chileno Patrício Guzmán, exibido fora de competição. Conhecido por seus trabalhos engajados, como Salvador Allende (exibido em Cannes 2004), O Caso Pinochet (2000) e sobretudo pela magistral fusão de pesquisa e memórias pessoais de A Batalha do Chile (1973-1979), Guzmán oxigena a visão da política, tornando-a ampla o bastante para revelar suas conexões com a ciência.
 
Foi no deserto de Atacama que política, arqueologia e astronomia se encontraram. Ali onde em 1962 astrônomos europeus e norte-americanos instalaram um observatório, pelas excepcionais condições de observação das estrelas, e arqueólogos pesquisam os vários povos que ali viveram, o governo do ditador Augusto Pinochet executou e ocultou os corpos de centenas de prisioneiros políticos.
 
Estes altos e baixos da história chilena são explorados por este documentário fascinante, impregnado da memória pessoal de Guzmán – sempre se colocando como uma testemunha, mas nunca descuidando nem da pesquisa, nem da procura de personagens sólidos, não raro, encantadores. Como o arqueólogo Lautaro, cujo conhecimento do deserto contribuiu para o encontro de ossadas de desaparecidos; o astrônomo Gaspar e sua visão cósmica do mundo; o arquiteto Miguel – ex-preso político cujos precisos desenhos, feitos de memória, expuseram o horror de campos de concentração da ditadura -; e Victoria e Violeta, a incansável dupla de velhas mulheres que bate as areias de Atacama há 28 anos, numa procura heroica pelos despojos de seus parentes.
 
A sintonia entre todos os relatos e aspectos dessa realidade complexa do Chile – que acaba de eleger um presidente de direita, o bilionário Sebastián Piñera – torna o filme de Guzmán um programa desses que merece o nome de obrigatório. Tomara que alguém distribua o filme no Brasil, onde o acerto de contas com a guerra suja de nossa própria ditadura continua aberto e irresolvido.
 
Perigo e desejo
 
Causou bem mais perplexidade o primeiro concorrente coreano à Palma de Ouro exibido aqui, The Housemaid, de Im Sang-soo. Remake de um filme de 1960, do diretor Kim Ki-young, que foi sucesso local de bilheteria. Esta nova versão pede a benção de Alfred Hitchcock, mas certamente não a merece, para encenar um melodrama carregado pelo desejo, o poder, a vingança e a morte – com direito a uma sequência com os dois pés no trash mais descabelado.
 
Jeon Do-youn, premiada como melhor atriz em Cannes 3 anos atrás (pelo filme Secret Sunshine), é a protagonista, Eun-yi. Jovem divorciada em dificuldades financeiras, ela vai trabalhar como babá e empregada de uma família nova rica e ocidentalizada. Depois, se envolve com o patrão (Lee Jung-jae), criando a intriga que vai desencadear todo o resto.
 
A dona da casa (Seo Woo) tem uma filha de seis anos e espera gêmeos. Através da maquiavélica governanta (Youn Yuh-jung, que tem o papel mais ambíguo e interessante do filme), a mãe da moça descobre tudo, inclusive a gravidez da empregada. O plano para livrar-se de Eun-yi e do bebê é puro cruzamento de filme B com novelão, com uma produção visivelmente cara e de olho num grande sucesso de bilheteria na Coreia. A ironia contra a americanização da alta classe coreana – até com uma personificação de Marilyn Monroe – é benvinda, mas não salva o filme. A pergunta que não vai calar é o que este filme está fazendo aqui. 

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