Olhar de Cinema 2017

Filme venezuelano "La Familia" abre festival Olhar de Cinema

Neusa Barbosa

  Curitiba – Com o filme venezuelano La Familia, do estreante em longas Gustavo Rondón Córdova, o 6º Olhar de Cinema, em Curitiba, deu uma largada forte, nesta noite de quarta (7), e que correspondeu exatamente ao seu nome e espírito. Porque é de olhares que se constrói este filme dilacerante sobre um pai e um filho perdidos na pobreza e violência da periferia de Caracas. O filme teve somente uma outra exibição pública anterior, na mais recente Semana da Crítica de Cannes.
 
De cara, La Familia joga seu espectador num mergulho no cotidiano de brincadeiras ferozes das crianças desta periferia, lutando entre si, em disputas físicas e verbais violentas, espelhando seus modelos de comportamento: os jovens criminosos adolescentes, cujas festas e exibições de armas estes meninos espiam. Não há escola ou família que possam disputar as atenções das crianças diante desta atração fatal por armas fáceis e sexualidade desbragada.
 
 No centro deste turbilhão, um pequeno núcleo familiar nos envolve: o garoto Pedro (Reggie Reyes) e o pai, Andrés Giovanni Garcia). Eles mal se veem. O pai passa os dias e parte das noites pulando de um bico para outro, lutando para a sobrevivência mais precária. Órfão de mãe – ou abandonado por ela -, o menino passa seus dias pelas ruas, vendo seu pai praticamente só quando ele dorme. Os dois se medem por olhares rápidos, sem diálogos. Até porque quase sempre que um acorda, o outro está dormindo.
 
Esse precário equilíbrio muda radicalmente quando Pedro é atacado por um outro garoto armado e o fere mortalmente. A vítima faz parte de um dos clãs criminosos donos do pedaço e o pai sabe que é preciso rapidamente desaparecer dali.
A partir desse incidente dramático, os dois vivem em trânsito. O que permite, contraditoriamente, que convivam e se aproximem. De agora em diante, os olhares não serão mais de esguelha e sim olhos nos olhos. Rondón Córdova, que assina também o roteiro, explora neste tenso duelo familiar a possibilidade da construção de uma intimidade e de um diálogo, sem nenhum tipo de adoçamento ou pasteurização. Pelo contrário. É capaz de sintetizar na estética áspera do filme – inclusive em seu som e fotografia – a crônica de um instável tempo de perigo.
 
Em mais de um aspecto, a geografia desta metrópole cercada de favelas imensas, abalada pela desigualdade, o crime organizado e a ausência do poder público, mostra pontos de contato com a realidade brasileira. Por isso, é muito fácil acolher esta história dentro do espectro de muitos dos dilemas que atormentam o Brasil, como a Venezuela de hoje, numa chave intimista com um claro contexto social.  

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