Olhar de Cinema 2017

No Olhar de Cinema, brilham obras restauradas de Murnau e Edward Yang

Neusa Barbosa

 Curitiba - Um dos pontos fortes do 6º Olhar de Cinema, indiscutivelmente, é a retrospectiva F. W. Murnau, colocando nas telas dez títulos restaurados do renomado mestre alemão. É uma alegria sublime para qualquer cinéfilo descobrir ou redescobrir algumas das obras-primas, inclusive algumas menos conhecidas, de um diretor pioneiro, responsável por entender alguns dos princípios básicos do movimento da câmera e da narrativa visual do cinema.
 
Uma dessas descobertas é a comédia As finanças do grão-duque (1924), um imbróglio palpitante cheio de incidentes farsescos e identidades trocadas, com roteiro de Fritz Wendhausen. O enredo rocambolesco gira em torno das desventuras de um grão-duque endividado (Harry Lietdke), ameaçado não só por seus credores como por conspiradores mercenários. Tudo isso e mais um pouco entra no caminho do duque, por quem está apaixonada uma rica princesa russa (Mady Christians), que move céus e terras para chegar em tempo de salvá-lo.
 
Evidentemente, é uma comédia do seu tempo, revestida de ingenuidade. Mas mesmo descontando esse aspecto – indispensável contextualizar -, é inegável o senso de ritmo de Murnau, que mantém a ação rolando com frescor. Fora isso, o filme registra algumas das experiências pioneiras com cor, com filtros azuis, amarelos ou avermelhados em algumas sequências, o que se repetirá por exemplo no melodrama Fantasma (1922), outra obra menos conhecida do diretor.
 
 Crime e castigo
Com roteiro adaptado de Thea von Harbou (que foi mulher de Fritz Lang), Fantasma narra a queda em desgraça de um pobre e honesto escrivão, Lorenz (Alfred Abel), depois que se apaixona perdidamente por uma mulher misteriosa, que ele encontrou apenas uma vez. O filme é uma mistura de climas, cheio de momentos expressionistas – como as sequências de delírio de Lorenz, além de sua própria linguagem corporal e facial depois de ser tomado pela obsessão amorosa.
 
Ao mesmo tempo, uma aguda reflexão social infiltra a história, porque é notável como Murnau retrata o cotidiano pobre e desvalido da família do escrivão, com sua mãe dolorosa (Frida Richard) ocupando o centro da cena. As figuras femininas, aliás, obedecem ao estrito padrão da época: a vamp que põe os homens a perder (Lya De Putti), a mãe dolorosa, a noiva apaixonada e honesta (Lil Dagover), todas pontuando um universo de homens cínicos, ou poderosos e implacáveis ou honestos que não conseguem acumular tanto poder dentro de uma sociedade profundamente estratificada. Murnau não tinha ilusões sobre isso e mostra isso a cada filme.
 
Finalmente, é um bálsamo redescobrir Tabu, a obra final do diretor, de 1931, em todo o esplendor de suas magníficas luzes – e, afinal, Murnau foi um mestre na elaboração da iluminação de seus filmes, entendendo cedo que aí estava um dos pilares de uma arte que era, então, nova. É uma pena que um acidente tenha tirado tão cedo, aos 42 anos, a vida de um diretor que, com certeza, ainda teria tanto a dizer depois do aparecimento do cinema falado. Tabu, aliás, está na fronteira desta inovação técnica, repleto de música, mas ainda não de diálogos – recorre aos mesmos letreiros de sempre do cinema mudo, embora tenha o cuidado de apresentá-los de uma forma orgânica, quando alguém escreve cartas.
 
De todos os modos, Tabu é capaz de contar por suas imagens poderosas o drama que retrata, um roteiro assinado por Murnau e o mestre norte-americano Robert Flaherty (de Nanook) em torno de um amor proibido, entre um rapaz (Matahi) e uma moça (Anne Chevalier) que foi escolhida como virgem sagrada, portanto, declarada inacessível para sempre pelos pesados preceitos religiosos primitivos. Ou seja, uma espécie de Romeu e Julieta dos Mares do Sul, tornado grandioso pelas câmeras e luzes de Murnau, capazes de filtrar a força da vida que pulsa na luta destes dois jovens para ficarem juntos.
 
Clássico de Yang
Outra pérola da programação do festival é a versão restaurada de História de Taipei (1985), do diretor chinês Edward Yang (As Coisas Simples da Vida), morto há dez anos. Estrelado pelo conhecido diretor Hou Hsiao-Hsien, o filme é uma crônica complexa da vida urbana e das relações entrecortadas entre um grupo de pessoas que se conhecem desde crianças e enfrentaram destinos diversos, num mosaico de sensibilidade ímpar.
 
Hou interpreta Lung, que, quando garoto, viveu uma glória temporária como jogador de beisebol e agora sobrevive à frente de um pequeno negócio de tecidos, envolvido em relações amorosas complicadas, como as que mantém com Chin (Tsai Chin) e Gwam (Ko Su-Yun).
 
De muitas maneiras, o filme – que foi restaurado por obra do World Cinema Foundation, tocado por Martin Scorsese e outros – parece muito atual, especialmente na forma como lida com o mal-estar da vida contemporânea. Embora os aspectos tecnológicos tenham mudado tanto, algumas coisas não mudam, como a natureza humana. E isso o filme de Yang captura de modo singularmente afiado e sensível. 

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