Olhar de Cinema 2017

Curitiba revela cinematografia original de Anocha Suwichakornpong

Neusa Barbosa

 Curitiba – Sábado (10) foi o dia de descobrir um pouco do trabalho da cineasta tailandesa Anocha Suwichakornpong, a quem é dedicado o Foco deste ano do Olhar de Cinema, na maior retrospectiva de obras desta cineasta já realizada por aqui. Ao todo, o festival, que prossegue até quinta (15), está exibindo nove trabalhos da diretora, inclusive Graceland, um curta selecionado para Cannes em 2006, e o recente Dao Khanong (2016).
 
Ela chegou ontem a Curitiba, a tempo de conversar um pouco com o público que assistiu a dois de seus trabalhos recentes, o curta Estrangeiro (2012) e o longa História Mundana (acima e abaixo, 2009).
 
 Representando uma cinematografia da qual o Brasil conhece pouco – praticamente só o premiado Apichatpong Weerasethakul -, Anocha apresentou dois trabalhos encharcados de humanismo e intimidade. O curta, que retrata a saga de uma jovem trabalhadora birmanesa às voltas com a denúncia de um estupro, não esconde, em seu despojamento, a urgência do que reflete, num cinema que toma como veículo o corpo e a pele da protagonista. Conforme comentou a diretora, trata-se de um trabalho de encomenda, mas em que ela teve total liberdade criativa.
 
Mais inquietante, o longa História Mundana – premiado no Festival de Roterdã, há oito anos – alterna em paralelo uma chave realista, dando conta do cotidiano de um enfermeiro e um jovem paralítico de quem ele cuida, e uma observação quase fantástica, que expressa uma reflexão sobre o sentido cíclico da vida e do universo. As imagens de explosões de estrelas no espaço referem-se a este segundo aspecto, que projeta os dramas do enfermeiro, seu paciente, do pai deste e dos demais empregados da casa numa dimensão bem diversa da aparência de banalidade.
 
Como no cinema do próprio Apichatpong, há no trabalho de Anocha um sentido de estranhamento que contribui para disparar interpretações múltiplas desta obra – que ainda contempla um comentário político quase documental, ao registrar os protestos que aconteciam naquele momento na Tailândia, do movimento dos “camisas amarelas”, um grupo ultranacionalista apoiador da monarquia local. Este aspecto, como comentou a diretora em Curitiba, está superado hoje. O movimento não existe mais e a Tailândia mergulhou em mais uma ditadura militar. 

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