Bellocchio e versão restaurada de "Lavoura Arcaica" fecham repescagem

Sob o signo dos jovens e do mestre Kiarostami

Equipe Cineweb

 Cinema Novo
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Vencedor do prêmio Olho de Ouro, como melhor documentário no Festival de Cannes 2016, Cinema Novo, de Eryk Rocha, concretiza um diálogo de gerações e um olhar profundo sobre o passado do cinema e da inquietação política no Brasil.  O longa é apresentado em conjunto com o curta Improvável encontro, de Lauro Escorel, que resgata a parceria e amizade entre José Medeiros e Thomaz Farkas.
Falando de cinema, fotografia, cultura, renovação, procura de novos caminhos, os dois documentários dialogam intensamente entre si. O curta de Escorel apresentando os muitos pontos de contato entre vida e obra de dois fotógrafos que se encaminharam para o cinema: o piauiense José Medeiros e o húngaro radicado no Brasil Thomaz Farkas. E o longa de Eryk lançando o olhar de uma nova geração sobre o trabalho inovador da turma do Cinema Novo, que inclui seu pai, Glauber Rocha, além de Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Gustavo Dahl e muitos outros.
 O tema da paternidade, literal e figurado, percorre, aliás, a belíssima profusão de imagens do longa, valorizadas pela montagem qualificada de Renato Vallone. Vallone e Eryk buscaram um sentido na organização de 500 horas de material, incluindo os filmes dessa geração iluminada de cineastas e materiais de arquivo diversos, nacionais e internacionais, alguns deles inéditos, como alguns pertencentes ao INA francês. Foram consumidos 9 meses na montagem e outros três na edição de som, num projeto iniciado 9 anos atrás. (Neusa Barbosa)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 31/10 – 20:40
CINESALA – 2/11 – 20:20
 
 76 minutos e 15 segundos com Kiarostami
Parceiro e amigo do mestre iraniano Abbas Kiarostami (1940-2016), que morreu em julho último, Seifollah Samadian reúne imagens de diversos momentos compartilhados entre os dois em quase vinte anos de convivência. Sem narração ou explicação (aliás, desnecessárias), pontua a tranquila e persistente curiosidade de Kiarostami, acompanhando, por exemplo, uma viagem de carro, sob a neve, em que este colhia fotografias para uma das várias exposições que realizou.
Também é possível observar as colaborações entre os dois, num filme de Samadian – que conta também com a presença ativa de outro cineasta iraniano, Jafar Panahi, hoje perseguido pelo regime -, retratando com perfeição o quanto pode ser criativa a cooperação coletiva num set de filmagem, sob o caos de uma grande chuvarada.
O filme também documenta encontros de Kiarostami com atrizes de seus filmes, como sua rápida visita à jovem Tahere Ladaniam, de Através das Oliveiras (94), e sua carona a Juliette Binoche (que atuou com ele em Shirin e Cópia Fiel), usando hijab, numa passagem por Teerã.
É um filme que ilustra à perfeição o minimalismo criativo do cinema iraniano, com seus silêncios cobrindo imagens por si mesmas eloquentes e diálogos de uma simplicidade que não necessita de elaborações. Acompanha o longa o provável último trabalho de Kiarostami, o curta Me leve pra casa, em cujos 16 minutos ele explora de maneira divertida os percursos de uma bola de futebol, pertencente a um menino, pelas escadarias das vielas de uma aldeia do sul da Itália. (Neusa Barbosa)
 
CINESALA - 31/10 - 16:00
 
 O Violinista
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Longa-metragem de breve duração – somente 72 minutos –, o indiano O Violinista funcionaria bem melhor se Bauddhayan Mukherji optasse em fazê-lo no formato de um curta. O que fica evidente em suas escolhas narrativas e quando o filme, com suas várias dicotomias, engrena em sua metade final.
Antes, um prólogo apresenta a rotina miserável de um fracassado violinista de Bollywood (Ritwick Chakraborty), cujos momentos de maior euforia e descarga emocional se resumem a matar uma barata. Até que um encontro misterioso muda sua arte e sua vida. Aliás, é nesses momentos musicais, seja em seu trabalho com a orquestra executando a trilha sonora de um filme, nos créditos iniciais, ou no inspirado solo que faz no enigmático serviço a que é chamado que a produção apresenta o seu melhor, tanto na direção quanto em aspectos técnicos, como nas composições pungentes de Bhaskar Dutta e Arnab Chakraborty e na fotografia de Avik Mukhopadhyay.
É justamente neste aspecto, porém, que o longa apresenta um grande contraste em cenas com baixa resolução ou luz estourada – talvez alguns planos foram “cropados”, sendo excessivamente ampliados, ou o problema estivesse na projeção. De qualquer modo, mesmo nessas sequências, há uma mise-en-scène interessante, em que Mukherji consegue alimentar a tensão latente do filme. Existe uma dubiedade em seu desfecho, permitida pelos fade out’s que pontuam os atos da história, que também traduz o sentimento do público, entre o fascínio com o domínio narrativo do final e sua possível violência misógina. (Nayara Reynaud)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 31/10 - 17:00
 
 Oscuro Animal
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Premiado em diversos festivais – entre eles, San Sebastian e Lima Latin American Festival – o colombiano Oscuro Animal é um filme de silêncios. Nem há diálogos, apenas uns murmúrios aqui e ali. Ao centro, estão três mulheres e suas jornadas pela fuga de uma situação opressora e violenta.
A primeira delas é Rocio (Marleyda Soto), que volta ao seu vilarejo para encontrá-lo destruído e abandonado. Ela então decide abandonar aquele lugar, rumo a Bogotá, onde espera estar mais segura. La Mona (Jocelyn Meneses) vive com um paramilitar que abusa dela sistematicamente, engravidando-a, por fim. Num momento de coragem, ela o mata e foge. Nelsa (Luisa Vides), por sua vez, é uma paramilitar, que, confinada a um ambiente predominantemente masculino, é abusada emocional e sexualmente.
O silêncio do filme é a materialização formal da impossibilidade de fala dessas mulheres, da situação estagnada em que se encontram e das opções limitadas de suas vidas.
A fotografia poderosa de Fernando Lockett traduz a claustrofobia de sua condição – até mesmo em céu aberto, numa região montanhosa dominada por matas e mais matas. Mas o ponto alto do filme está na interpretação do trio central, cujo talento é capaz de dar conta de planos longos e do desespero de suas personagens. (Alysson Oliveira)
 
RESERVA CULTURAL 2 - 31/10 - 21:50
 
O segredo da câmara escura
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Em seu primeiro filme feito fora de seu país, falado em francês, o japonês Kiyoshi Kurosawa (Para o outro lado) trabalha com um tema que lhe é caro: fantasmas. Protagonizada por Tahar Rahim, a história tem como ponto de partida a arte do daguerreótipo, umas das formas mais antigas de fotografia, datada do século XIX, na qual o modelo devia ficar horas imobilizado diante da câmera. No fundo, isso serve como uma metáfora para assistir ao filme.
Trabalhando com um roteiro assinado por ele em parceria com Catherine Paillé e Eléonore Mahmoudian, Kurosawa dirige no piloto automático num filme destituído de um toque mais autoral, com uma trama óbvia e interpretações pouco inspiradas – apesar do grande elenco.
O longa começa com Rahim, no papel de Jean, jovem desocupado conseguindo emprego como assistente de um fotógrafo à moda antiga, Stéphane (Olivier Gourmet), que trabalha com daguerreótipos, inclusive possui uma espécie de câmera fotográfica gigante para produzir essas imagens em tamanho natural. Morando uma mansão antiga, sua principal modelo é sua jovem filha, Marie (Constance Rousseau). A relação entre pai e filha tem um subtexto de sadismo quando ele a submete a sessões cada vez mais longas, com ajuda de um equipamento com diversos ferros e presilhas, que a impedem de se mexer, por horas, quando está frente à câmera.
Tudo piora à medida que Stéphane se aliena da realidade e tem visões com sua modelo mais perfeita que morreu – sua mulher. Ao mesmo tempo, Jean se envolve num plano de um agente imobiliário para convencer o patrão a vender sua propriedade por uma pequena fortuna. O assistente, apaixonado por Marie quer também ajuda-la a livrar-se da vida opressiva com o pai. Não demora muito e ele mesmo estará em contato com o sobrenatural (ou loucura?) que impregna aquela família.
A tensão cria-se desde o início, com flashes de que algo não está indo muito bem naquela mansão. Mas Kurosawa não tem, aqui, a energia suficiente para segurar as pouco mais de duas horas de filme, e, em sua segunda metade, caminha pela estrada da obviedade na narrativa. Abre uma gama de possibilidades além da trama de fantasmas – especialmente em relação a Stéphane e sua busca pela arte pura – mas nunca se aprofunda em nenhuma. Contenta-se apenas em criar climas, visões enevoadas, sublinhadas pela trilha sonora (de Grégoire Hetzel, típica do gênero. Tudo contribuindo apenas para esvaziar a tensão que, em seu final, segue a cartilha dos filmes de fantasma. (Alysson Oliveira)
 
CINEARTE 1 - 31/10 - 15:30
 
 The Fits
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Em seu début em longas de ficção, Anna Rose Holmer faz um filme único, capaz de provocar vários sentimentos no público, especialmente nas espectadoras, difíceis de serem verbalizados depois da sessão.
O interesse do indie norte-americano The Fits é exclusivo na quieta Toni (Royalty Hightower, precisa em seu naturalismo), em sua rotina em um centro comunitário do subúrbio de Cincinnati, mas traz significados amplos em questões geracionais e de gênero. No lugar, há treinos de boxe, que ela pratica com o irmão (Da'Sean Minor), e aulas de dança do grupo Leonas, com que a menina se encanta e passa a praticar, junto com a também novata Beezy (Alexis Neblett) – ótima, seja a atriz mirim ou a personagem, servindo de leve alívio cômico na tensão. Com a protagonista passeando entre as duas turmas, fica claro como as representações do “masculino” e “feminino” atuam neste momento de formação da garota.
Só que, uma a uma, as meninas da turma são acometidas por ataques inexplicáveis, embora uma diretora, a exceção branca e adulta em um elenco totalmente negro e jovem que a cineasta – também branca – traz, tente fazer suposições. As convulsões sugerem várias alegorias, como a passagem da adolescência para a vida adulta, a transformação em um corpo feminino, provavelmente vítima de opressão, ou resultado de uma histeria coletiva que Freud explicaria... Tentar explicar é complicado e, ao que parece, nem é essa a intenção de Holmer, que busca significados mais abstratos em sua obra.
O filme, aliás, tem um ritmo próprio, assim como sua protagonista que luta para acompanhar as colegas na dança. Na direção “climática” de Holmer, planos estáticos, frontais e centralizados, estão ao lado da steadycam em slow motion que confere uma atmosfera onírica à fotografia, somada a uma trilha sonora que vai da pulsão percussiva a uma histeria do jazz. (Nayara Reynaud)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5    31/10 - 22:00
RESERVA CULTURAL 2                                  01/11 - 14:00
CINE CAIXA BELAS ARTES Sl 1 Vila Lobos      02/11 - 16:10
 
 Heartstone
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Talvez o calor do verão em uma terra gélida como a Islândia tenha colocado em ebulição este já efervescente momento de descobertas sexuais que é a adolescência, em Heartstone. Gudmundur Arnar Gudmundsson, já em seu primeiro longa, ganhou o Queer Lion, prêmio oferecido a filmes de temática LGBT, no Festival de Veneza deste ano.
Nesta coprodução com a Dinamarca, o cenário é uma pequena vila do país insular, que vive entre a pesca e a pecuária, onde os amigos Thor (Baldur Einarsson) e Christian (Blær Hinriksson) tentam aproveitar o verão brincando com os outros meninos, destruindo ainda mais os carros largados em uma espécie de ferro velho e se aproximando das garotas. Só que, enquanto o pré-adolescente Thor começa a se apaixonar por Beta (Diljá Valsdóttir), Christian, aparentemente mais velho que ele, passa a descobrir novos sentimentos pelo amigo.
Não bastasse isso, cada um enfrenta seus dilemas familiares: o primeiro é criado, junto com as irmãs que zoam o caçula, só pela mãe (Nína Dögg Filippusdóttir) e não aceita que ela esteja saindo com outros homens; o outro sofre com um pai alcóolatra, violento e, o pior para ele, homofóbico – um preconceito, não só dele, frisado nas cenas inicial e final com a metáfora do peixe-pedra rejeitado e massacrado.
Longo, com 129 minutos de duração que são sentidos, apesar da pungência do terceiro ato, o filme até apresenta um ritmo rápido para padrões islandeses, tentando captar a energia desses adolescentes, vividos por um elenco que traz performances fortes, capazes de exprimir as aflições que essas descobertas sobre a própria identidade podem gerar. Gudmundsson extrai certa delicadeza no meio daquela rígida paisagem natural e social, mas coloca a neve como prenúncio do fim de um verão e, simbolicamente, da adolescência e a chegada da vida adulta e seus problemas, criando um clímax devastador. (Nayara Reynaud)
 
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA (Campinas)                31/10 - 21:00
CINEMARK CIDADE SÃO PAULO                     31/10 - 21:30
CIRCUITO SPCINE VILA DO SOL          2/11/16 - 15:40
CIRCUITO SPCINE JAMBEIRO                        2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE MENINOS                         02/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE TRÊS LAGOS                     2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE JAÇANà                          2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE BUTANTà                        2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE CAMINHO DO MAR            2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE ARICANDUVA          2/11- 15:40
CIRCUITO SPCINE QUINTA DO SOL               2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE PARQUE VEREDAS             2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE PERUS                    2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE SÃO RAFAEL                     2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE PAZ                                 2/11 - 15:40
CIRCUITO SPCINE VILA ATLÂNTICA               2/11/16
CIRCUITO SPCINE FEITIÇO DA VILA              2/11 - 15:40
 
 Axé: Canto do Povo de um Lugar
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É inevitável o sentimento de nostalgia de qualquer “criança” dos anos 80 e 90 ao assistir o documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, e até o mais discreto espectador que não seja fã do gênero se pegará batendo o pé ou balançando alguma parte do corpo.
Em sua proposta, o filme se coloca como uma enciclopédia audiovisual da música baiana, que se convencionou a ser chamada de “axé music”, mesmo que a origem da alcunha tenha sido pejorativa, como se explica durante a produção, que também conta suas raízes e destaca as variações de ritmo dentro deste mesmo gênero musical, com samba de roda originário do Recôncavo Baiano e o Ijexá vindo dos terreiros de candomblé, por exemplo.
Depoimentos de agentes do movimento, em sua maioria cantores (de Luiz Caldas a Saulo Fernandes, passando por Olodum, Timbalada, Ivete e muitos outros), junto de músicos, jornalistas, radialistas e empresários, vão destrinchando o axé através de suas figuras, com cada personalidade sendo colocada como um tópico, que naturalmente vai se seguindo a outro. Esta característica vai até a composição visual do filme, pois a maneira e a fonte utilizada para a inserção de informações através do grafismo parecem a de um infográfico de revista semanal ou jornal. Neste sentido, vale a errata para a data errada do show da Daniela Mercury que literalmente abalou o MASP, realizado em 1992 e não em 1997, como foi exibido.
Formal em sua estrutura e estética, ao menos, conta com um bom material de arquivo, de emissoras de TV e também pessoais, e um amplo número de entrevistados. Pena que alguns deles não sejam contemplados em sua importância na montagem final, sendo o caso de Margareth Menezes o maior exemplo. Só ao final o diretor Chico Kertész questiona a maneira como o axé vem sendo conduzido pelos seus grandes nomes, a exemplo da falta de renovação do cenário atual. (Nayara Reynaud)
 
RESERVA CULTURAL 2                      31/10 - 15:30
 
A programação pode ser mudada sem prévio aviso. Confira sempre eventuais alterações no site da Mostra

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