60º Festival de Berlim

Sessão especial de "Metrópolis" abre Festival de Berlim

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Sessão especial de "Metrópolis" abre Festival de Berlim
Um festival de cinema, independente da seleção de filmes, e do mundo contido neles, é também o universo da cidade em si, como se o ‘cenário’ onde o festival ocorre servisse como moldura sensorial a todos aqueles que se encontram presentes. Berlim, cidade verdadeiramente camaleônica, que ao longo do século XX vivenciou mudanças como nenhuma outra cidade europeia, apresenta-se hoje, dez anos depois do início do século XXI, como um pólo sem igual de uma cidade que não se mantém neutra em relação ao processo histórico que a atravessa.
                               
Diferentemente de Cannes e Veneza, onde a moldura oferecida pela cidade é um complemento confortável ao público presente, em Berlim a história é outra. Apesar do frio na cidade estar menor do que há duas semanas, ainda é necessário prestar atenção para não se deslizar na neve acumulada cidade afora. No entanto, esse desconforto alia-se à interação com a cidade, assim como com os filmes que serão vistos ao longo dos dez dias do Festival de Berlim.
 
A edição de número de 60 do festival é uma ocasião natural para que se faça esse vai-e-vem entre o ontem e o hoje (dentro e fora das telas). Juntamente aos filmes da competição, esta edição apresenta uma grande quantidade de mostras paralelas dedicadas ao ato de olhar para atrás. O grande destaque deste início de festival foi sem dúvida a projeção de Metropolis, de Fritz Lang, ocorrida 83 anos após a estreia do filme, em 1927, que chega ao público em uma versão original que pôde ser reconstruída somente depois que uma cópia do original em 16mm ter sido descoberta em Buenos Aires. Desde sua estreia, o filme tinha sido cortado em função de acordos feitos com os distribuidores da época, fazendo com que a versão conhecida até então seja esta versão reduzida.
 
A sessão de gala, ocorrida no Friedrichstadtpalast, teve acompanhamento da orquestra da Rádio de Berlim, mas o verdadeiro evento foi a retransmissão ao ar livre num telão colocado junto aos portões de Brandenburgo, local que é um dos epicentros da história da cidade. O frio e a umidade não intimidaram o público, que compareceu em massa, fazendo deste ‘pontapé inicial’ às comemorações dos 60 anos do festival uma prova de que o novo nem sempre é aquilo que é inédito. Tomara que a redescoberta de verdadeiros tesouros cinematográficos permitam a construção de pontes tão insólitas como a que uniu os berlinenses que ontem aglomeram-se junto aos portões de Brandenburgo aos seus conterrâneos, que compareceram à pré-estreia do mesmo filme, no UFA-Palast, em janeiro de 1927.

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