60º Festival de Berlim

Dilemas dos muçulmanos na Europa

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim

Dilemas dos muçulmanos na Europa
Dois dos filmes que estão concorrendo ao Urso de Ouro em Berlim abordam a questão do islamismo na Europa. O primeiro deles é Shahada (algo como "a escolha de um caminho"), primeiro longa-metragem de Burhan Qurbani, previamente premiado pelo curta-metragem Illusion.
 
Mais do que um filme sobre religião, Shahada é um filme sobre pessoas e sobre tolerância. A história se passa numa Berlim atual, onde a questão de integração dos imigrantes percorre todas as camadas sociais. Não é por acaso que todos os personagens centrais representam camadas (mais ou menos integradas) dessa nova Europa multifacetada. Durante uma fiscalização numa fábrica que emprega imigrantes ilegais, o policial Ismail (Carlo Ljubek) vê-se confrontado em sua ética pessoal e profissional ao reencontrar Leyla (Marija Skaricic), uma imigrante bósnia cujos documentos estão vencidos.
 
Já o jovem nigeriano Sammi (Jeremias Achempong), que trabalha na mesma fábrica, encontra-se dividido entre sua fé muçulmana e a atração que sente por um de seus companheiros de trabalho. Ele encontra conforto nas palavras do imã local, admirado pela comunidade pelo seu discurso liberal e que, ao mesmo tempo, passa por uma crise com sua filha Maryam ( Maryam Zaree), que começa a mostrar-se cada vez mais interessada por um viés mais fundamentalista da religião islâmica.
 
A partir de então, o destino destes personagens cruza-se ao longo do filme, fazendo com que cada um deles tenha que lidar com os próprios limites, com a própria fé ou descrença. Criado pela mãe, juntamente com o avô (proveniente do Afeganistão, que veio à Alemanha apenas para ajudar sua filha separada do marido a criar seus dois filhos), o diretor Burhan Qurdani incorporou muitos elementos da sua experiência como imigrante, assim como da formação religiosa que rcebeu do avô. Mas foi o ator Carlo Ljubek, durante a coletiva de imprensa, que melhor sintetizou os mecanismos que podem levar a uma maior aceitação acerca do que é diferente : « A tolerância começa onde acaba o estranhamento. »
 
Já a cineasta bósnia Jasmila Zbanic, premiada com o Urso de Ouro em 2006 pelo filme Em Segredo, compete com o filme Na Putu ("On the Path"). Através da vida do casal, Luna (Zrinka Cvitesic) e Amar (Leon Lucev), Jasmila aborda as mudanças e transições no seu país após a guerra, tanto num nível social, quanto no que se refere às relações pessoais. Apesar do alcoolismo do marido, que resulta em sua demissão, o casal vive em harmonia, numa relação onde o respeito mútuo caminha junto com a atração física e os projetos em comum.
 
A partir de um encontro casual com um ex-companheiro de guerra, Bahrija (Ermin Bravo), agora convertido a uma vertente mais fundamentalista do Islã, Amar inicia sua trajetória nesta direção, o que vai provocar conflitos com sua mulher.
 
Um dos grandes méritos do filme é não tomar partido de nenhum dos lados, apesar do desejo da diretora em desassociar as noções de « fundamentalista » e « terrorista ». Esta abertura faz com que cada espectador percorra as próprias opiniões sobre a religião muçulmana, as concessões a serem feitas, ou não, ao longo da construção de um projeto de vida a dois, bem como entre em contato com o que foi a Guerra da Bósnia para os que lá viviam, soldados e civis.
 
Ambos os filmes apresentam uma pertinência mais do que evidente em relação ao contexto atual do questionamento feito na Europa acerca da construção dessa noção de uma ‘identidade comunitária’, que apresenta consequências que muitas vezes serão percebidas vários anos depois. Antes da guerra, a Bósnia apresentava-se como um dos países onde a convivência de diferentes credos e religiões era feita de uma maneira democrática. Depois da guerra, como bem lembrou a cineasta Jasmila Zbanic, criou-se uma brecha para que o fundamentalismo se enraizasse, pois a partir do momento em que os cidadãos bósnios viram-se tolhidos da possibilidade de terem um visto para viajaram aos outros países europeus, começaram a se perguntar : « Se não somos europeus, o que somos então ? » O que pode ser considerado como uma das questões mais relevantes nesta Europa de 2010. E não apenas para os bósnios…

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